



A verdade crua é que estamos fritos.
Embora eu tinha sido o cara café com leite lá do Wunderblogs, o sujeito que ninguém sabe muito bem como que foi parar ali no meio de tanta gente boa (mais ou menos como o Bez do Happy Mondays, caso o Happy Mondays fosse uma banda com muita gente boa), agradeço de joelhos as generosas palavras a respeito do finado mostardinha.
O Alexandre escreveu o post de despedida que eu gostaria de ter escrito. Aqui vai um trecho:
"Não sei como parece para quem está de fora, mas para mim toda a experiência de pertencer a esse grupo foi algo extraordinário. Quando estávamos no auge, no distante e mítico ano de 2004, nos encontrávamos todos os finais de semana - ou estou romantizando tudo? estou, né? -, visitávamos a casa um do outro, víamos filmes de Wes Anderson e Milos Forman e Lubitsch, entrevistas com Nelson Rodrigues, bebíamos e falávamos mal uns dos outros - por que não falamos mais mal uns dos outros pelas costas, hein? - e dormíamos com a Gilda Radner e com a mulher do Lorne Michaels em oh, tantas madrugadas adentro."
Reinaldão Azevedo escreveu que eu critiquei a opinião dele sobre a legalização da maconha para criar polêmica e ganhar leitores. Nossa, what a schmuck. Quem precisa de leitores é você, Reinaldão. É você quem vive disso. Eu vivo de outra coisa. No blog, escrevo o que quero, quando quero. Para os meus dois leitores, que não troco, nem adianta insistir, pela sua multidão de leitores.
Reinaldão ficou irritadinho porque eu perguntei se ele teria coragem de defender que “lei é lei” na Alemanha nazista. Disse que eu estava sendo “estupidamente simplista”; afinal, ele só defende que "lei é lei" num “estado democrático e de direito”. Ah, tá. Pensei que ele fosse dizer: “num estado democrático e de direito e quando a lei é contra drogas”...
É claro que a minha pergunta era um exagero. Não penso tão mal do Reinaldão a ponto de achar que ele poderia sair por aí dando pontapés em judeus. Exagerei apenas para mostrar o absurdo do que está por trás do argumento “lei é lei”. E o que está por trás é a idéia de que o Estado, por princípio, está acima da consciência individual. Não está. Não importa se “estado democrático e de direito” ou não.
Eu sou estúpido e sou simplista. E na minha estupidez e simplismo, defendo, sempre, o direito de Antígona de enterrar seu irmão. E do Reinaldão falar a bobagem que quiser.
(conto curto)
- Cara, sabe quem eu encontrei ontem na rua? O Sapo!
- HAHAHAHA. O Sapo! Lembra dele? Que figurinha! Como é que ele tá?
- Tava abraçado com uma loira. Uma atriz francesa, parece.
Os dois ficam em silêncio, bebem o último gole de chope e pedem a conta.
Reinaldão Azevedo acha que quem defende a legalização das drogas devia que ser preso. O homem tá doidão, sô. Ele teria botado o Milton Friedman e o Paulo Francis em cana! Não quero nem imaginar o que teria acontecido, numa ditadura reinaldoazevediana, com o Bob Marley e o Bezerra da Silva...
O argumento do Reinaldão é que lei é lei, e a Justiça (olha a caixa e a ironia alta) proíbe a apologia das drogas. "Lei é lei" é um argumento sensacional. Teria ele coragem de usá-lo na Alemanha nazista? "Desculpa aí, Samuel, mas lei é lei".
Mas mesmos que nós, queridos leitores, que somos pessoas que colocam a consciência individual acima das arbitrariedades do Estado, concordássemos que "lei é lei", por que preferir a lei contra a apologia, em vez da lei que garante a livre manifestação do pensamento?
*
A Justiça (olha aí de novo) proibiu a tal da Marcha da Maconha em São Paulo. Li na Folha uma frase muito boa do major Wanderley, da PM: "O que não pode acontecer é uma passeata. Se eles ficarem parados não há problema". Imagino o alívio do pessoal da passeata... afinal, é difícil pensar em duas palavras que combinem tão pouco quanto "marcha" e "maconha"...
(conto)
- Mas papai...
- Não tem discussão. Você foi irresponsável.
Caminhávamos de volta para casa, era sábado, quase hora do almoço, o sol sobre nós como uma auréola. Na verdade, era papai quem caminhava. Eu corria, ou quase, enfiado nas minhas chuteiras Kichute e no meu uniforme amarelo, tentando andar no mesmo ritmo de papai.
- Irresponsável.
O jogo tinha sido difícil, o mais difícil do campeonato. Era a final. A minha classe, o Segundo B, que reunia as pessoas mais legais do mundo, contra o Segundo C, que reunia as piores pessoas do mundo. Eu era o centro-avante e o artilheiro do campeonato. O professor Marco Aurélio era o nosso técnico e me mandou ficar lá na frente, na banheira. Quando a bola chegar até você, chute com toda a sua força. Fique lá. Uma hora a bola chega. Mas a bola não chegava e eu, só eu, de todos os 22 jogadores em campo, tinha um segundo técnico. Era papai.
- Volta! Vai ajudar no meio de campo! O que você está fazendo aí sozinho? Deixa de ser preguiçoso!
- Mas pai, o professor disse...
- Volta, menino!
E eu voltava, e o professor gritava:
- Mas o que você está fazendo? Vai lá pra frente!
O primeiro tempo terminou em zero a zero. Viramos de campo e o juiz, que nas horas vagas era o professor de matemática, apitou. Eu não conseguia tocar na bola. Quando estava na frente, meu pai mandava eu voltar. Quando eu voltava, do outro lado campo, lá estava o técnico, mandando eu ir pra frente. Tentei um meio termo, perambulando pelo meio de campo. Até que, no final do jogo, a bola caiu no meu pé. Andei um pouco, ainda estava longe pra burro do gol, mas resolvi chutar. Ouvir meu pai gritar não! A bola saiu fraca e foi rolando direto pras mãos do goleiro. Quando ele ia agarrá-la, um pedaço de grama levantado, o famoso morrinho artilheiro, desviou a trajetória da bola e o enganou. A bola entrou lentamente no gol. O gol da vitória. Logo depois o juiz apitou o apito final e os alunos mais legais do mundo correram para me abraçar. Os professores me levantaram, eu era o herói do jogo.
- Irresponsável.
- Mas papai...
- Você passou metade do jogo sem fazer nada lá frente. Um peso morto. Se fosse outro no seu lugar, com aquele timinho, e aquele goleiro... Porque o gol não foi seu, foi do goleiro. Ele deixou a bola entrar. Aquele chutinho, do meio do campo! Você deu sorte, mas foi irresponsável.
Uma medalha vagabunda, presa a uma correntinha, balançava em meu peito, enquanto eu tentava acompanhar os passos de papai.
A sensação de estar fazendo algo errado mesmo quando as coisas davam certo me acompanhou então para o resto de minha vida.
É uma hora e um prazer, e, sobretudo e acima de tudo, um prazer e uma honra, entrar para o A Postos. Agradeço a todo mundo, e também a todos, essa oportunidade tão, digamos assim, oportuna. Prometo, além de jurar, seguir o código de ética do portal (que você pode ver, enxergar e até mesmo ler no fim ou no final dessa página aqui).
Encerro, terminando, esse discurso, antes que eu caia, despenque ou, principalmente, desabe em repetições repetitivas, insignificantes e sem importância. É um velho (pra não dizer antigo) hábito (é verdade, costume também) que eu tenho quando estou nervoso. Estréia é sempre um negócio complicado. Debut, então...
Mais uma vez, obrigado. E mais uma vez, mais uma vez obrigado.
Caríssimos (é, vocês dois aí),
um dia, com a possível exceção da Dercy Gonçalves e da porção de gnocchi do Lellis, tudo chega ao fim.
Foram cinco anos de Wunderblogs. Sendo completamente preciso: cinco anos e dois dias. (Acendo um cigarro. Trago. Fumaça.) Foi bom pra vocês?
Hoje, vou-me embora para o A Postos. É um excelente portal. Não tão excelente a ponto de recusar meu blog, mas excelente.
Anotem, gentis e incautos leitores: fdr.apostos.com.
Adeus, velho abrigo. (Olho pela janela. O mundo – sempre ele – lá fora.) É hora do check out.
Abs,
PS: quem ficar com saudades, há sempre o livro - a primeira coletânea de posts publicada em papel no Brasil.
Sempre que o governo do PT nega seus crimes, me lembro do conselho do Boca de Ouro a uma de suas amantes:
"Mas escuta: eu estava no quarto com uma mulher e, nisso, chega o marido com a polícia. Em conclusão, arrombam a porta. A mulher, nuazinha, negou até o fim. Sabe que o marido ficou na dúvida, o comissário ficou na dúvida e até eu fiquei na dúvida? Meu anjo, da próxima vez, nega, o golpe é negar!"