- Ai!
As costas na maçaneta.
- Machucou?
- Não pára!
As costas na maçaneta.
- Fala baixo.
- Não pára!
As costas na maçaneta.
Tampo a boca dela com minha mão. Ela tampa a minha com a dela.
Paro. Fim. Foi bom pra você?
Ela tira o cabelo da frente dos olhos. Me encara.
- Você tava pensando nela?
- O quê?
- Você tava pensando na Paula?
- Como assim eu tava pensando na Paula?
*
25 anos atrás
- Tá na mesa!
As crianças correm. Fome dos diabos. Gnocchi ao sugo e frango à cacciatora. Pego um pedaço do frango e dou uma mordida. Paulinha grita:
- É a bunda! Comeu a bunda do frango!
- É a bunda nada.
- É sim!
Todos riem.
- Não é a bunda!
Todos riem. Tento aplacar meu desespero e dou mais uma mordida. É a prova de que estou convicto:
- Não é a bunda!
- Tia, não é a bunda que o Paulo tá comendo?
Minha mãe, sempre sacana:
- É claro que é.
Cuspo.
- Paulo! Que é isso?
- Não quero a bunda!
Todos riem.
*
- Você me fodeu pensando na Paula?
- Você está louca.
- Confessa.
- Vamos sair daqui. Você sai primeiro.
Isabela se arruma. Se olha no espelho. Joga um beijo no ar. Maçaneta.
Fico sozinho no banheiro. Paula e Paulo. Teria sido outra vida. Tantas coisas que acontecem na vida que não mudam nada. E coisas que não acontecem e mudam tudo. Paulo e Paula. A maçaneta se move. Esqueci de trancar. É minha mãe.
- Paulo! O que você tá fazendo no banheiro de mulher?
*
19 anos atrás
- Vai, Paulinha, me diz. De quem você gosta?
- Tenho vergonha.
- Vergonha do quê? De gostar de alguém? Isso é motivo de vergonha?
- Sei lá.
- Vai, me fala.
- Só falo se você falar primeiro de quem você gosta.
- Não, fala você primeiro.
- Você!
- Você!
Coço a cabeça:
- Já sei. Eu falo a primeira letra. Daí você também fala. Daí eu falo a segunda. E assim vai. Que acha?
- Tá. Começa.
- P.
- P.
- A.
- A.
- U.
- U.
- L.
- L.
O coração batendo rápido. Olho Paulinha, Paulinha me olha. Alguns segundos em silêncio. Ela:
- Fala a última.
Eu:
- Advinha.
Ela:
- O nome de quem você gosta é… Paula?
O coração batendo rápido. Alguns segundos em silêncio.
- Fala!
- É. É Paula.
- Que coincidência! O meu também! Eu gosto de mim mesma!
Paulinha ri, e sai correndo.
*
Saio do banheiro. As pessoas de preto. Algumas me olham. Fico ligeiramente paranóico: elas sabem o que eu fiz no banheiro. Não, claro que não sabem. Sabem. Claro que não. O pai da Paulinha não sai de perto do caixão. Olha pra mim:
- Paulo, meu filho. Olha o que aconteceu com a minha menina.
Chora. Não sei o que dizer. Dou um abraço:
- Precisamos ter força.
- Pra quê, Paulo, força pra quê?
*
10 anos atrás
Estamos no estacionamento de uma dessas livrarias gigantescas. Fila pra pagar o manobrista. Eu com meu livro do Nelson Rodrigues. Ela com Karl Marx. Um menino de rua pede esmola. Ela dá algumas moedas. O menino se afasta.
- Essas não eram as moedas que eu dei pra você guardar, eram?
- Eram.
- Putz, Paulinha!
- Que foi?
- Era o dinheiro pra pagar o estacionamento. Não tenho mais um tostão aqui.
- Bom, aquele menino precisa mais desse dinheiro do que essa multinacional.
- Que multinacional? Do que você tá falando? A gente tá sem dinheiro pra pegar o carro, entende? O carro vai ficar preso aí dentro.
- A gente explica o que aconteceu.
- Eu não vou explicar nada. Você vai lá pegar o dinheiro de volta com o moleque.
A risada da Paulinha, sempre igual, incapaz de envelhecer. Vou até o menino.
- Ô, menino.
- Hã?
- Tem um trocado aí pra mim?
Ele me olha sem entender. Sorrio.
- Brincadeira. Sabe o que é? Tá vendo aquela garota ali? Ela te deu três reais em moeda, não te deu? Então. Era o dinheiro do estacionamento. Preciso de volta.
Agora é a vez dele sorrir.
- Não.
- Não o quê?
- Não vou devolver. Não roubei.
- E daí que você não roubou? O que isso tem a ver?
- Dado é dado.
- Mas…
- Sai fora.
- Ô, moleque. Tô falando na boa. Eu preciso desse dinheiro.
- E eu não?
- Olha, se você me devolver, eu prometo que volto aqui mais tarde e te dou dez reais. Combinado?
- Não.
- Quinze reais.
- Não.
- Vinte reais.
- Eu quero é dar uma volta no seu carro.
- O quê?
- Só devolvo se você me levar pra dar uma volta no seu carro.
Olho pra Paulinha. Ela está a alguns metros de distância, encostada na parede, a camiseta branca moldando os seios pequenos. Fuma um Marlboro como se nada estivesse acontecendo. Olho pro menino, uma meleca escorrendo do seu nariz.
- Vinte reais, vai.
- Você não vai voltar. Quero dar uma volta no seu carro agora. Só uma volta. Nunca andei de carro.
- Tá bom. Me dá o dinheiro.
- Deixa que eu dô pro manobrista.
Entramos no carro. Eu levemente paranóico: o moleque vai sacar uma arma. Vai me dar um tiro, vai roubar o carro, vai estuprar Paulinha. Não, que bobagem. É só um moleque que quer andar num carro. Não, claro que não. Deixa de ser burro!
Paulinha:
- Quer tomar sorvete?
Eu:
- Agora não.
Ela:
- Não perguntei pra você.
O moleque:
- Quero!
- Paulo, pára naquela sorveteria perto de casa. Eu adoro sorvete de pistache, e você?
- Eu detesto pistache, você sabe disso.
- Não perguntei pra você.
- O que é pistache?
- É uma semente muito gostosa. Você vai gostar.
- Quero de chocolate.
- Chocolate? Eu também adoro chocolate.
E fomos tomar sorvete com o menino. Depois fomos ao cinema com ele. E jantamos com ele. E largamos ele em frente à livraria, no frio, de noite, de volta à sua vida de trocados.
Paulinha quis ir pra sua casa. Estava feliz da vida. Eu fui pra minha, dirigindo devagar, me sentindo sozinho. O aquecedor quebrado. O livro do Nelson pra ler.
*
Minha mãe:
- Eu gostava muito da Paulinha.
- Eu sei.
- Não só eu.
- Mãe, ela era minha prima. Quase irmã.
- Quase. Acho que vai começar a chover daqui a pouco.
- Quem sabe?
- Aquela moça é sua namorada?
- A Isabela?
- Isso. Isabela. Bonito nome.
- Não. Ela era amiga da Paulinha.
- Amiga, é?
- É. Amiga. Por quê?
- Ouviu o trovão? Falei que ia chover.
Me chamam pra ajudar a carregar o caixão. Pego na alça. Mais leve do que eu imaginava.
*
1 ano atrás
Paulinha acende seu Marlboro:
- Tenho uma boa e uma má notícia. Qual você quer saber primeiro?
- A má. Sempre a má primeiro.
- Eu vou morrer.
- Jura? Eu também. Acontece com todo mundo. É que nem catapora. Só que um pouquinho pior. E a boa?
- O médico disse que eu ainda tenho um ano de vida.
E ela riu, a maldita risada que nunca envelhecia.
*
Chuva. O pai de Paulinha segura meu braço.
- Ela gostava muito de você.
- Eu também gostava muito dela.
- Eu sei. A vida é horrível, Paulo. Nunca se deixe enganar. A vida é horrível.
O caixão desce. O padre fala. Lágrimas fazem um redemoinho em meus olhos. Isabela aponta discretamente pra minha calça. Olho pra baixo.
Nossa!
Rapidamente, fecho o zíper.