FDR e Monique Alfradique, finalmente juntos
Texto meu na VIP desse mês. Sobre o fim do amor platônico. Mais importante: Monique Alfradique na capa.
De Shakespeare a Saramago
E se Shakespeare fosse nosso contemporâneo? E defendesse ditadores e terroristas? E chamasse os israelenses de Shylocks embrutecidos? E de sua mansão em Chelsea, sentenciasse, a voz empostada, a métrica da sabedoria: “Há mais inteligência no cotovelo do Chomsky do que na cabeça de todos os capitalistas”?
Pior! E se posasse para fotos na ONU ao lado do Bono Vox?
Deixaríamos seus regurgitamentos opiniáticos influenciarem nosso julgamento de suas peças e sonetos? Consideraríamos então Hamlet uma figura ridícula com aqueles chiliques e aquelas ceroulas? Desprezaríamos Otelo, Macbeth, Lear? Ousaríamos comparar Julieta a um dia de verão em Itanhaém?
É claro que vários grandes escritores foram também grandes idiotas. Bernard Shaw, por exemplo. Arrastou sua indecorosa barba até a União Soviética, onde beijou abjetamente as bochechas gordas de Stalin, o Carniceiro. Na volta, disse, sorrindo, o pulha: “Fome na Rússia? Bobagem. Eu nunca fui tão bem alimentando quanto em Moscou”. Enquanto ele fazia piadinha, milhões de soviéticos morriam de fome por culpa do comunismo.
Shaw, o maior dramaturgo de língua inglesa depois de Shakespeare.
E Tolstoi, que pregava o fim da propriedade privada, mas era incapaz de abandonar suas baixelas de prata, sua residência de conde? Ah, Leon Nikolaievitch! Louvava tanto os camponeses que teve até filho com uma! E com que generosidade abandonou o pobre bastardo à própria sorte, permitindo que ele criasse asas e galgasse, sozinho, a admirável profissão de chocheiro! Como não deve ter sofrido quando o filho foi rebaixado a lenhador! Ah, Leon Nikolaievitch! O maior romancista da história!
Mas Shaw e Tolstoi se foram faz tempo. Podemos ler seus livros em paz, sem o incômodo de vê-los na TV defendendo o Chávez ou condenando os ricos por usarem papel higiênico ultramacios feitos com papel não reciclável.
Mas falo disso tudo para chegar no Saramago.
Saramago, o único escritor de língua portuguesa a vencer o Nobel. Saramago, com aquela cara albertodiniesca, enrugadinha de preocupação pelas crianças palestinas… Saramago está sempre por aí, a nos lembrar de sua fragilidade moral e intelectual. É possível separá-lo de seus livros? Essa é a experiência que me propus fazer aqui: ler seu último romance – A Viagem do Elefante – ao mesmo tempo em que me esquecia de sentir nojinho do autor.
E lá fui eu. Abri o livro.
Por muito incongruente que possa parecer a quem não ande ao tento da importância das alcovas, laicas ou irregulares, no bom funcionamento das administrações públicas, o primeiro passo da extraordinária viagem de um elefante à áustria que nos propusemos narrar foi dado nos reais aposentos da corte portuguesa, mais ou menos à hora de ir para a cama.
Aí marquei a página com meu dedo indicador e virei-me para minha mulher, que descansava no sofá: “Sabia que o Saramago chamou os israelenses de nazistas?”
Ela: “Todos os israelenses?”
Eu: “Imagino que sim. Não consta que tenha especificado quais.”
Ela: “Que coisa.”
Volto pro livro.
Registe-se já que não é obra de simples acaso terem sido aqui utilizadas estas imprecisas palavras, mais ou menos.
Eu: “Sabe o que ele disse outro dia?”
Ela: “O quê?”
Eu: “Que ele é um comunista hormonal.”
Ela: “O que isso quer dizer?”
Eu: “Que ele é uma besta.”
Volto pro livro, disposto a não interromper mais a leitura. Mas minha mulher me interrompe.
Ela: “Eu li outro dia no jornal ele falando sobre a crise financeira.”
Eu: “O que que ele falou?”
Ela: “Aspas: Marx nunca teve tanta razão quanto agora.”
Com um suspiro, fecho o livro. Com um movimento rápido, arremesso-o longe. Tenho que admitir: só poderei avaliar o que Saramago escreve daqui a uns 100, 150 anos. No mínimo.
Até lá, melhor manter-me em Shaw e Tolstoi. Ou Shakespeare, que, por sorte, não nos deixou uma única, uma mísera opiniãozinha sequer sobre qualquer coisa que seja. E não só por isso, é o maior de todos.
Ordem Livre
Texto meu no Ordem Livre sobre cinema e vatapá.
Tem gente que não quer nem saber do Kindle. Diz que gosta de cheiro de livro. De pegar papel com as mãos. De virar as páginas. Ok. Respeito. Imagino que, quando inventaram o carro, tinha gente que falava que nunca abandonaria a carruagem. Gente que louvava o aroma de estrume equino e o balanço permanente da cabine.
Eu não gosto muito de carro, é verdade. Mas o Kindle é a melhor coisa que o homem já inventou — junto com o iPod, o ar-condicionado, a aspirina, o DIU e a Coca-Cola.
Segundo uma pesquisa aí, o brasileiro é de direita em relação aos valores e de esquerda em relação à economia. Ou seja, completamente errado.
Sempre quis ser velho. Mas não assim, de repente.
Turnê liberal

Começou a turnê liberal promovida pelo OrdemLivre.org. Imperdível. Trecho do texto de apresentação:
A academia brasileira está prestes a testemunhar uma empreitada intelectual inédita no país. Durante o mês de outubro um grupo de jovens intelectuais percorrerá 13 cidades, de Porto Alegre a Fortaleza, com uma missão: expor aos estudantes universitários brasileiros o pensamento libertário, de apoio ao livre mercado, paz e direitos individuais. O objetivo é apresentar diretamente a tradição liberal, muito distante das caricaturas inventadas por seus oponentes intelectuais, de direita e esquerda, como “neoliberalismo”.
Um país sem esgoto gasta os tubos com Copa e Olimpíadas. #rio2016.
