A Criação (conto curto)

31, outubro, 2011 FDR Sem comentários

Estamos aqui para mostrar ao vivo para vocês esse momento histórico, esse momento que esperamos tanto, que já foi adiado tantas vezes e agora parece que é pra valer: a criação de Deus. Foram anos e anos de pesquisa e desenvolvimento;  anos e anos que consumiram, segundo a Budweiser, principal patrocinadora do projeto, mais de trezentos bilhões de dólares — não é real, não, amigo. É dólar. Trezentos bilhões de dó-la-res. É muita coisa, meu amigo. É coisa pra chuchu. (Pausa) Faltam seis minutos. seis minutos. Eles prometeram pontualidade absoluta. (Pausa) Pra você que ligou agora, estamos esperando o momento em que presidente da ONU, o panamenho Miguel Valentin, vai apertar o botão que vai criar Deus. É o primeiro panamenho a presidir a organização e olha que honra, meu amigo. É muita honra. É honra demais. Finalmente, depois de anos e anos de pesquisa e desenvolvimento, depois de trezentos BIlhões de dólares — é, meu amigo, não é mole, não, trezentos BI-lhões — finalmente conseguiram desenvolver uma máquina, um programa, uma inteligência artificial capaz de criar vida. É um momento histórico. Sem dúvida nenhuma, é um momento que vai entrar pra história. Nossos antepassados falavam de quando tinham visto o homem pisar na lua. Eles que nos perdoem, mas momento histórico, meu amigo, momento histórico é isso aqui. Olha lá, o presidente Valentin se aproxima. Está na hora. Eles prometeram pontualidade absoluta. Ele vai apertar. Faltam alguns segundos para o grande momento. Atenção. Ele se aproxima. Vai apertar. Vai apertar. Aper

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20, junho, 2011 FDR 1 comentário

Uma coisa que me impressiona quando olho pro céu é que tá tudo aberto… a gente poderia ir embora, se a gente conseguisse.

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A velha teoria

8, fevereiro, 2011 FDR Sem comentários

O governo quer aumentar imposto sobre compras no exterior. É a velha teoria: quanto menos coisas o brasileiro puder comprar, mais rico ele será.

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Benção

27, janeiro, 2011 FDR 3 comentários
Todo dia ele acordava e agradecia a Deus por ser melhor que Hitler.
- Obrigado, Deus, por eu não ser um Stálin. Por eu não ser um Mugabe. Por eu ser melhor que Hitler. Obrigado.
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Dicta

30, novembro, 2010 FDR Sem comentários

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Paulinha

9, novembro, 2010 FDR 14 comentários

- Ai!

As costas na maçaneta.

- Machucou?

- Não pára!

As costas na maçaneta.

- Fala baixo.

- Não pára!

As costas na maçaneta.

Tampo a boca dela com minha mão. Ela tampa a minha com a dela.

Paro. Fim. Foi bom pra você?

Ela tira o cabelo da frente dos olhos. Me encara.

- Você tava pensando nela?

- O quê?

- Você tava pensando na Paula?

- Como assim eu tava pensando na Paula?

*

25 anos atrás

- Tá na mesa!

As crianças correm. Fome dos diabos. Gnocchi ao sugo e frango à cacciatora. Pego um pedaço do frango e dou uma mordida. Paulinha grita:

- É a bunda! Comeu a bunda do frango!

- É a bunda nada.

- É sim!

Todos riem.

- Não é a bunda!

Todos riem. Tento aplacar meu desespero e dou mais uma mordida. É a prova de que estou convicto:

- Não é a bunda!

- Tia, não é a bunda que o Paulo tá comendo?

Minha mãe, sempre sacana:

- É claro que é.

Cuspo.

- Paulo! Que é isso?

- Não quero a bunda!

Todos riem.

*

- Você me fodeu pensando na Paula?

- Você está louca.

- Confessa.

- Vamos sair daqui. Você sai primeiro.

Isabela se arruma. Se olha no espelho. Joga um beijo no ar. Maçaneta.

Fico sozinho no banheiro. Paula e Paulo. Teria sido outra vida. Tantas coisas que acontecem na vida que não mudam nada. E coisas que não acontecem e mudam tudo. Paulo e Paula. A maçaneta se move. Esqueci de trancar. É minha mãe.

- Paulo! O que você tá fazendo no banheiro de mulher?

*

19 anos atrás

- Vai, Paulinha, me diz. De quem você gosta?

- Tenho vergonha.

- Vergonha do quê? De gostar de alguém? Isso é motivo de vergonha?

- Sei lá.

- Vai, me fala.

- Só falo se você falar primeiro de quem você gosta.

- Não, fala você primeiro.

- Você!

- Você!

Coço a cabeça:

- Já sei. Eu falo a primeira letra. Daí você também fala. Daí eu falo a segunda. E assim vai. Que acha?

- Tá. Começa.

- P.

- P.

- A.

- A.

- U.

- U.

- L.

- L.

O coração batendo rápido. Olho Paulinha, Paulinha me olha. Alguns segundos em silêncio. Ela:

- Fala a última.

Eu:

- Advinha.

Ela:

- O nome de quem você gosta é… Paula?

O coração batendo rápido. Alguns segundos em silêncio.

- Fala!

- É. É Paula.

- Que coincidência! O meu também! Eu gosto de mim mesma!

Paulinha ri, e sai correndo.

*

Saio do banheiro. As pessoas de preto. Algumas me olham. Fico ligeiramente paranóico: elas sabem o que eu fiz no banheiro. Não, claro que não sabem. Sabem. Claro que não. O pai da Paulinha não sai de perto do caixão. Olha pra mim:

- Paulo, meu filho. Olha o que aconteceu com a minha menina.

Chora. Não sei o que dizer. Dou um abraço:

- Precisamos ter força.

- Pra quê, Paulo, força pra quê?

*

10 anos atrás

Estamos no estacionamento de uma dessas livrarias gigantescas. Fila pra pagar o manobrista. Eu com meu livro do Nelson Rodrigues. Ela com Karl Marx. Um menino de rua pede esmola. Ela dá algumas moedas. O menino se afasta.

- Essas não eram as moedas que eu dei pra você guardar, eram?

- Eram.

- Putz, Paulinha!

- Que foi?

- Era o dinheiro pra pagar o estacionamento. Não tenho mais um tostão aqui.

- Bom, aquele menino precisa mais desse dinheiro do que essa multinacional.

- Que multinacional? Do que você tá falando? A gente tá sem dinheiro pra pegar o carro, entende? O carro vai ficar preso aí dentro.

- A gente explica o que aconteceu.

- Eu não vou explicar nada. Você vai lá pegar o dinheiro de volta com o moleque.

A risada da Paulinha, sempre igual, incapaz de envelhecer. Vou até o menino.

- Ô, menino.

- Hã?

- Tem um trocado aí pra mim?

Ele me olha sem entender. Sorrio.

- Brincadeira. Sabe o que é? Tá vendo aquela garota ali? Ela te deu três reais em moeda, não te deu? Então. Era o dinheiro do estacionamento. Preciso de volta.

Agora é a vez dele sorrir.

- Não.

- Não o quê?

- Não vou devolver. Não roubei.

- E daí que você não roubou? O que isso tem a ver?

- Dado é dado.

- Mas…

- Sai fora.

- Ô, moleque. Tô falando na boa. Eu preciso desse dinheiro.

- E eu não?

- Olha, se você me devolver, eu prometo que volto aqui mais tarde e te dou dez reais. Combinado?

- Não.

- Quinze reais.

- Não.

- Vinte reais.

- Eu quero é dar uma volta no seu carro.

- O quê?

- Só devolvo se você me levar pra dar uma volta no seu carro.

Olho pra Paulinha. Ela está a alguns metros de distância, encostada na parede, a camiseta branca moldando os seios pequenos. Fuma um Marlboro como se nada estivesse acontecendo. Olho pro menino, uma meleca escorrendo do seu nariz.

- Vinte reais, vai.

- Você não vai voltar. Quero dar uma volta no seu carro agora. Só uma volta. Nunca andei de carro.

- Tá bom. Me dá o dinheiro.

- Deixa que eu dô pro manobrista.

Entramos no carro. Eu levemente paranóico: o moleque vai sacar uma arma. Vai me dar um tiro, vai roubar o carro, vai estuprar Paulinha. Não, que bobagem. É só um moleque que quer andar num carro. Não, claro que não. Deixa de ser burro!

Paulinha:

- Quer tomar sorvete?

Eu:

- Agora não.

Ela:

- Não perguntei pra você.

O moleque:

- Quero!

- Paulo, pára naquela sorveteria perto de casa. Eu adoro sorvete de pistache, e você?

- Eu detesto pistache, você sabe disso.

- Não perguntei pra você.

- O que é pistache?

- É uma semente muito gostosa. Você vai gostar.

- Quero de chocolate.

- Chocolate? Eu também adoro chocolate.

E fomos tomar sorvete com o menino. Depois fomos ao cinema com ele. E jantamos com ele. E largamos ele em frente à livraria, no frio, de noite, de volta à sua vida de trocados.

Paulinha quis ir pra sua casa. Estava feliz da vida. Eu fui pra minha, dirigindo devagar, me sentindo sozinho. O aquecedor quebrado. O livro do Nelson pra ler.

*

Minha mãe:

- Eu gostava muito da Paulinha.

- Eu sei.

- Não só eu.

- Mãe, ela era minha prima. Quase irmã.

- Quase. Acho que vai começar a chover daqui a pouco.

- Quem sabe?

- Aquela moça é sua namorada?

- A Isabela?

- Isso. Isabela. Bonito nome.

- Não. Ela era amiga da Paulinha.

- Amiga, é?

- É. Amiga. Por quê?

- Ouviu o trovão? Falei que ia chover.

Me chamam pra ajudar a carregar o caixão. Pego na alça. Mais leve do que eu imaginava.

*

1 ano atrás

Paulinha acende seu Marlboro:

- Tenho uma boa e uma má notícia. Qual você quer saber primeiro?

- A má. Sempre a má primeiro.

- Eu vou morrer.

- Jura? Eu também. Acontece com todo mundo. É que nem catapora. Só que um pouquinho pior. E a boa?

- O médico disse que eu ainda tenho um ano de vida.

E ela riu, a maldita risada que nunca envelhecia.

*

Chuva. O pai de Paulinha segura meu braço.

- Ela gostava muito de você.

- Eu também gostava muito dela.

- Eu sei. A vida é horrível, Paulo. Nunca se deixe enganar. A vida é horrível.

O caixão desce. O padre fala. Lágrimas fazem um redemoinho em meus olhos. Isabela aponta discretamente pra minha calça. Olho pra baixo.

Nossa!

Rapidamente, fecho o zíper.

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Alguns tuítos

25, outubro, 2010 FDR 2 comentários

Lugares que mais quero conhecer: Jerusalém, Ravenna, Chartres e Bern’s Steak House.

O lápis e a liberdade: http://www.youtube.com/watch?v=jgK11FkBJ0U

Sobre educação: é difícil uma canção polifônica a cappella do século 17 competir com um videoclipe da Xuxa. Sad but true.

Sinatra escreveu todas as letras de jazz. #liçõesdogoogle

Se o Estado é caridoso, as pessoas não precisam ser. Pessoas não-caridosas são piores que pessoas caridosas. Logo, Estado caridoso é ruim.

“Tricks and treachery are the practice of fools that have not wit enough to be honest.” Benjamin Franklin

Depois de oito anos na presidência, Jefferson faliu.#diferençaentrebrasileestadosunidos

Finalmente servi pra alguma coisa: virei personagem do conto do Marcelo Ferlin publicado na última Dicta: http://bit.ly/cnr4bH

Clau-Clau-Claudius

Obra-prima: obra da qual você nunca se cansa. Tipo, para minha filha, os vídeos da Mishka –a husky siberiana que late “I love you”.

Queria abrir um speakeasy para vender queijo de leite cru, flor de sal e ovos com gema mole.

Nick Hornby entrevista David Simon:http://www.believermag.com/issues/200708/?read=interview_simon

And when I hear you call, so softly to me, I don’t hear a call at all, I hear a rhap… sody

O Olavo falô, o Olavo avisô

Louie, Louie, Louie, Lou-ee-ee

Falam tanta merda que sinto prazer em ler o óbvio.

Algum candidato é contra o imposto de renda? Se não, estou longe de ser minimamente representado.

Haydn é Mozart faltando alguma coisa.

Pró-Dilma, pré-primário.

Tem uma coisa que eu não entendo. Por que todo stand-up começa com “tem uma coisa que eu não entendo”?#standupdodanesi

“Escritor é uma pessoa para quem escrever é mais difícil do que para as outras pessoas.” Thomas Mann

Da série Grandes Artistas Que São Considerados Grandes Mas Não Tão Grandes Quanto Deveriam Ser Considerados: Purcell.

Tem algum eleitor da Dilma que não recebe nenhum privilégio e nem quer receber?

Eu e minha mulher temos cabelo escuro. Minha filha nasceu loira. A conclusão é óbvia: a mãe é outra. #standupdodanesi

Temperatura mínima: zero Kelvin. Máxima: 1.41679(11) × 10 elevado a 32 K. (Previsão do tempo é mais ou menos assim, não é?)

Tout comprendre c’est tout mépriser.

Você tem que colocar seu filho na análise para que ele não precise fazer análise.

Onde estão os Bastardos Inglórios quando a gente mais precisa deles? http://bit.ly/bDQuwo

Serra acha que a gente compra produtos importados demais. Prometeu nos impedir de comprar tanto se for eleito. Filho da puta.

Não me esqueço da cara de felicidade do Fernando Henrique ao entregar a faixa presidencial pro Lula. #trouxa

Como deveria ser: http://www.ordemlivre.org/blog/?p=1677

“O Brasil é limitado a leste pelo Oceano Atlântico, a oeste pela América Latina e dentro pelo próprio povo.” Dr. Benghele.

Dilma fala como se estivesse fazendo tradução simultânea e literal do búlgaro.

Idéia: cada candidato governa as regiões em que vencer. Que tal?

Se não existisse a palavra “desculpa”, eu seria semi-mudo.

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Satanismo

19, outubro, 2010 FDR Sem comentários

No último segundo do debate da Band, Dilma revela que Michel Temer não está sozinho: http://twitpic.com/2xdd6s

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Eleição

14, outubro, 2010 FDR 3 comentários

Nunca perdoarei a Dilma por me fazer votar no Serra.

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22, setembro, 2010 FDR 2 comentários

J’AIME: algumas pessoas, um pouco mais de livros, muito mais músicas. Viajar, principalmente pra Europa. Comer, principalmente sushi. Beber, principalmente vinho, cerveja, whisky, grappa, vodca, pisco, tequila, bagaceira, sake e shotchu. Que mais? Irmãos Marx e Fred Astaire. Ginger Rogers. Lubitsch. Woody Allen. Larry David. Não fazer nada. Às vezes, cada vez menos, escrever.

JE N’AIME PAS: Violência, arrogância, esnobismo, estupidez e chá.

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