Paulo Coelho percorreu o mundo, se isolou em desertos, peregrinou pelo caminho de São Tiago, rezou em igrejas, mosteiros e mesquitas. Mas, por uma dessas inexplicáveis ironias, só foi alcançar a imortalidade a poucos minutos de sua casa, num palacete do Rio de Janeiro, ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Agora poderá, finalmente, descansar em paz e aproveitar a eternidade ao lado do José Sarney. Não merecia prêmio menor, o autor de letras de músicas tão sensacionais como “Al Capone”, e de clássicos da literatura, como “O manual prático do vampirismo”.
Alguns invejosos, no entanto, andam a cochichar que sua eleição foi apenas um golpe de marketing; que a Academia, para virar notícia, literalmente “tirou um coelho da cartola”. Outros chegam a espalhar que “o mais mortal dos imortais” conseguiu a vaga graças ao seu grande romance… com Gélida Pinhão.
É claro que esses boatos não serão suficientes para abalar os alicerces da centenária instituição de letras. O culto e pujante povo brasileiro há de perceber o grotesco de tais difamações, e nosso intelectuais arrastarão sem piedade esses cruéis caluniadores ao ainda mais cruel chicote da chacota.
Pois é mais do que evidente que a Academia consagra apenas os maiores dentre os mestres da “última flor do Lácio”, e em suas cadeiras sentam somente as grandes bundas – os bundões – de nossa ilustre literatura.
A cadeira 1, por exemplo, é ocupada por Evandro Lins e Silva, advogado e fundador do Partido Socialista Brasileiro. Uma rápida olhada em sua biografia basta para provar seu enorme valor. Em 99, foi considerado o “criminalista do século” pela Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de São Paulo. Em 2000, defendeu entusiástica e corajosamente o guerrilheiro sem terra mas com arma José Rainha, conseguindo livrá-lo dos 26 anos de reclusão a que havia sido condenado pelo singelo assassinato de um fazendeiro e um policial. Participou ativamente do glorioso governo José Sarney e escreveu o livro “Arca dos Guardados”. Gênio.
Outro exemplo está na cadeira 22, pertencente a Ivo Pitanguy. Acho que o famoso cirurgião dispensa apresentações. Entre suas grandes contribuições literárias, destaco a imortal obra “Mamaplastia”, onde o nobre autor discorre com extrema desenvoltura sobre questões fundamentais e permanentes da condição humana, como a redução e o aumento dos seios, a sensibilidade erógena e sensitiva do complexo aréolo-mamilar, a drenagem linfática da mama e o controverso uso do silicone. Uma obra de peito do infatigável cirurgião das palavras.
Não posso deixar de citar também a cadeira 26. Nela senta-se o Vilaça. Marcos Vilaça. É importante, senão absolutamente necessário, ter um imortal com nome de personagem de filme brasileiro. “Porra, Vilaça, teu livro é uma merda, mas pelo menos tu é imortal”.
Há muito, muito mais. Escrotores mundialmente reconhecidos e fervorosamente lidos em nossas escolas e faculdades. Quem nunca ouviu falar em Alberto da Costa e Silva, Marcos Almir Madeira, Alberto Venancio Filho? Ou do autor do maior livro de terror em português, o gramático Evanildo Bechara? Além, claro, do notável José Sarney e do nosso colega jornalista Roberto Marinho.
Com Paulo Coelho, a Academia Brasileira de Letras continua viva – e imortal.