


Lula descreve todo seu plano de governo num artigo de uma única página, "Compromisso com o emprego", que pode ser lido no site oficial do PT. Diz que fará o país crescer 5% ao ano, que criará dez milhões de empregos, que acabará com a fome. E no final explica: "Muitos se perguntam de onde virá o dinheiro para a implantação de um programa como esse. Mas os cálculos que realizamos mostram que basta reduzir em alguns pontos percentuais a taxa de juros para obtermos os recursos necessários." Ah, claro. Basta reduzir os juros e pronto! Quem não percebe que esse sujeito é uma besta, me desculpe, é incapaz de reconhecer seus semelhantes.
Eu me amo. O diabo é que não sou correspondido.
Inteligência, s.f. Capacidade de se ter as mesmas opiniões que eu.
O secretário do Tesouro americano insinuou que brasileiros, argentinos e uruguachos mandam ilicitamente dinheiro pra Suíça. Que absurdo! Todo mundo sabe que preferimos as ilhas do Caribe.
Não podemos aceitar calados este insulto! Preparem os Urutus! Decolem os Tucanos! Apontem os mísseis Piranha! Zarpem o cruzador Barroso! A corveta Inhaúma! O navio Babitonga! O submarino Ceará! O caça-submarino Jaguarão! Invadiremos aquele maldito rincão do Bush, com o General Brindeiro, sentado numa mula, um penico na cabeça e brandindo furiosamente uma vassoura, à frente do nosso incrível exército de Brancaleone! Tátátá-tátá! Atacaaaaar!
Charge de um jornal italiano. Dois homens almoçando, um deles fala: "É preciso ter sérios problemas mentais pra ser gay." O outro comenta: "E pra ser mulher não?"
Há muito tempo Woody Allen não fazia um filme tão engraçado quanto O Escorpião de Jade. E há muito tempo eu não me divertia tanto num cinema. Two thumbs up.
Paulo Coelho percorreu o mundo, se isolou em desertos, peregrinou pelo caminho de São Tiago, rezou em igrejas, mosteiros e mesquitas. Mas, por uma dessas inexplicáveis ironias, só foi alcançar a imortalidade a poucos minutos de sua casa, num palacete do Rio de Janeiro, ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Agora poderá, finalmente, descansar em paz e aproveitar a eternidade ao lado do José Sarney. Não merecia prêmio menor, o autor de letras de músicas tão sensacionais como “Al Capone”, e de clássicos da literatura, como “O manual prático do vampirismo”.
Alguns invejosos, no entanto, andam a cochichar que sua eleição foi apenas um golpe de marketing; que a Academia, para virar notícia, literalmente “tirou um coelho da cartola”. Outros chegam a espalhar que “o mais mortal dos imortais” conseguiu a vaga graças ao seu grande romance... com Gélida Pinhão.
É claro que esses boatos não serão suficientes para abalar os alicerces da centenária instituição de letras. O culto e pujante povo brasileiro há de perceber o grotesco de tais difamações, e nosso intelectuais arrastarão sem piedade esses cruéis caluniadores ao ainda mais cruel chicote da chacota.
Pois é mais do que evidente que a Academia consagra apenas os maiores dentre os mestres da “última flor do Lácio”, e em suas cadeiras sentam somente as grandes bundas – os bundões – de nossa ilustre literatura.
A cadeira 1, por exemplo, é ocupada por Evandro Lins e Silva, advogado e fundador do Partido Socialista Brasileiro. Uma rápida olhada em sua biografia basta para provar seu enorme valor. Em 99, foi considerado o “criminalista do século” pela Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de São Paulo. Em 2000, defendeu entusiástica e corajosamente o guerrilheiro sem terra mas com arma José Rainha, conseguindo livrá-lo dos 26 anos de reclusão a que havia sido condenado pelo singelo assassinato de um fazendeiro e um policial. Participou ativamente do glorioso governo José Sarney e escreveu o livro “Arca dos Guardados”. Gênio.
Outro exemplo está na cadeira 22, pertencente a Ivo Pitanguy. Acho que o famoso cirurgião dispensa apresentações. Entre suas grandes contribuições literárias, destaco a imortal obra “Mamaplastia”, onde o nobre autor discorre com extrema desenvoltura sobre questões fundamentais e permanentes da condição humana, como a redução e o aumento dos seios, a sensibilidade erógena e sensitiva do complexo aréolo-mamilar, a drenagem linfática da mama e o controverso uso do silicone. Uma obra de peito do infatigável cirurgião das palavras.
Não posso deixar de citar também a cadeira 26. Nela senta-se o Vilaça. Marcos Vilaça. É importante, senão absolutamente necessário, ter um imortal com nome de personagem de filme brasileiro. “Porra, Vilaça, teu livro é uma merda, mas pelo menos tu é imortal”.
Há muito, muito mais. Escrotores mundialmente reconhecidos e fervorosamente lidos em nossas escolas e faculdades. Quem nunca ouviu falar em Alberto da Costa e Silva, Marcos Almir Madeira, Alberto Venancio Filho? Ou do autor do maior livro de terror em português, o gramático Evanildo Bechara? Além, claro, do notável José Sarney e do nosso colega jornalista Roberto Marinho.
Com Paulo Coelho, a Academia Brasileira de Letras continua viva – e imortal.
"Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo -- a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida." Raul Pompéia, O Ateneu.
A ararinha-azul está extinta. Ó meu deus.
Outro dia passei no Planetário. Porta fechada. Alguns materiais de construção à vista. Uma placa. Universo fechado para reforma.
Mateus Metralha está de volta. E desta vez, não está feliz. Não perca, em outubro, num cinema perto de você.
Todo dia um novo absurdo. Agora a “justiça” obrigou a Faculdade de Medicina da Santa Casa a aceitar de volta o Mateus Metralha (apelido carinhoso dado pelo Rafael, do Blogico, àquele louquinho que entrou metralhando num cinema do Shopping Morumbi). O inofensivo rapaz irá atender pacientes de oftalmologia na clínica da faculdade. É ver pra crer.
O pianista Glenn Gould dizia que Mozart morreu muito tarde, aos 36 anos. Desprezava principalmente suas últimas composições, A Flauta Mágica, a Sinfonia em dó menor, etc. Achava que Mozart havia se desenvolvido rumo à mediocridade e se confessava incapaz de amar qualquer música composta entre A Arte da Fuga, de Bach, e Tristão e Isolda, de Wagner, o que inclui, além de Mozart, Haydn, Beethoven e Schubert. Aos 32 anos, após um recital, virou-se pra platéia e disse que aquela havia sido sua última apresentação em público, e realmente foi. Minha reação a tudo isso é exclamar: “esse sujeito era louco”. Mas, ao vê-lo e ouvi-lo tocando as Variações Goldberg, de Bach, no filme de Bruno Monsaingeon , disponível em DVD, fico abestalhado e repito o que disse certa vez o maestro Eugene Ormandy: “Esse louco é um gênio”.
Não peço para que me of'reças teu amor
Apenas peço para que aceites o meu
Pois tu não podes me fazer maior favor
Do que tomar o meu amor por amor teu
"O rumor das vozes e dos veículos acordou um mendigo que dormia nos degraus da igreja. O pobre-diabo sentou-se, viu o que era, depois tornou a deitar-se, mas acordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no céu. O céu fitava-o também, impassível como ele, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um céu claro, estrelado, sossegado, olímpico, tal qual presidiu às bodas de Jacó e ao suicídio de Lucrécia. Olhavam-se numa espécie de jogo do siso, com certo ar de majestades rivais e tranquilas, sem arrogância, nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao céu:
- Afinal, não me hás de cair em cima.
E o céu:
- Nem tu me hás de escalar."
Capítulo 46 de Quincas Borba, de Machado de Assis.
A vida é o único produto cujo preço é o seu consumo.
Lula diz que a saída pro país é "uma gigantesca desprivatização", e sobe ao palanque com Quércia e cia. Já Ciro Gomes acha (conforme afirmou em entrevista e sugeriu no livro Um Desafio Chamado Brasil) que o negócio é confiscar o rico dinheirinho da população, em mais um curralito tupiniquim, e abraça Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Os dois - Lula e Ciro - estão lá em cima nas pesquisas de intenção de voto. É estarrecedor.
Seu relacionamento anda monótono? Sua namorada é certinha demais? Que tal começar um tórrido romance com uma assaltante ou se corresponder com uma assassina? Hein, hein? Talvez pareça estranho pra nós, humildes habitantes da selva, mas nos Estados Unidos há vários sites que, por uma módica quantia, ajudam pessoas a se corresponderem e a se relacionarem com prisioneiras. Um deles anuncia: "Encontre lindas damas encarceradas que procuram apenas se regenerar encontrando o homem dos seus sonhos!" Outro garante: "As prisioneiras estão desesperadamente necessitadas de amigos do lado de fora das grades. Elas precisam de palavras carinhosas de homens e mulheres do mundo livre!" Não é fantástico? Esses sites oferecem fotos e dados de mulheres hetero, homo e bissexais que por um motivo ou outro foram condenadas pela justiça, mas que aguardam ansiosamente a chance de ser julgadas pelo coração de alguém gente fina como você. Você escolhe entre loiras, morenas, ruivas... negras, hispânicas, asiáticas... terroristas, cleptomaníacas, drogadas... começa a ser corresponder com a prisioneira de sua predileção e se tudo der certo, dentro de alguns anos ela estará livre para se casar! Check it out: Women Behind Bars ou 4Personals - World of Romance. Incrível. Você nunca viu nada igual.
Ainda sobre a desajuizada juíza que concedeu pena mínima aos sequestradores do Olivetto. Ela considerou a suposta motivação política da quadrilha um atenuante. Imagino o advogado de defesa: "Mas meretríssima, eles só queriam dinheiro pra treinar guerrilheiros, comprar bombas e metralhadoras, destruir a democracia e a liberdade individual, explodir prédios e aviões, assassinar os malditos burgueses, instaurar la revolución..." E a meretríssima emocionada com as boas intenções dos corajosos rapazes.
Escritor no Brasil é mais ou menos como moleiro ou fabricante de carruagens. Uma profissão que desapareceu. Claro que há gente que escreve e vende livros, participantes de reality show, detentos do Carandiru, executivos com PhD pela Universidade de Minnesota, pastores evangélicos, espíritos de espíritas, etc. Mas escritor mesmo, se é que ainda existe algum por aí, não vende nada.
A juíza Kenarick Boujikian Felippe condenou os sequestradores do Washington ‘o primeiro sequestro a gente nunca esquece’ Olivetto a 16 anos de prisão, com possibilidade de redução de cinco sextos da pena. Ou seja, os sequestradores ficarão presos por apenas dois anos e meio. Essa juíza é quase tão criminosa quanto eles, praticamente cúmplice de seus crimes e incentivadora de novos sequestros, com o terrível agravante de estar sendo paga por nós – a patética população brasileira – para fazer exatamente o contrário do que faz. É inaceitável que ela julgue em vez de ser julgada.
Dois pequenos globos enfeitavam o móvel que fica em frente à janela do meu quarto. Costumava girá-los e ver passar, em menos de um segundo, todos nossos mares e continentes. Outro dia, ao ser girado, um dos globos escapou de seu suporte, rolou pelo móvel, quicou no parapeito e foi-se para baixo. Moro alto, num apartamento. Fechei a janela e sentei-me em minha cadeira. Fiquei a imaginar alguém lá embaixo, talvez o velho Alberto a passear com seu cãozinho, ou o seu José, caminhando calmamente, pensando no jantar ou apenas acendendo um cigarro, e eis que, de repente, sem mais nem menos, o mundo lhe cai sobre a cabeça.
Ira Gershwin, grande sujeito, escreveu a que talvez seja a mais perfeita letra de música romântica que já ouvi. Veja só:
"Blah, blah, blah, blah, moon,
Blah, blah, blah, above;
Blah, blah, blah, blah, croon.
Blah, blah, blah, blah, love.
Tra la la la, tra la la la la, merry month of May;
Tra la la la, tra la la la la, 'neath the clouds of grey.
Blah, blah, blah, your hair,
Blah, blah, blah, your eyes;
Blah, blah, blah, blah, care,
Blah, blah, blah, blah, skies.
Tra la la la, tra la la la la, cottage for two -
Tra la la la, tra la la la la, darling, with you."
Medida de contenção populacional, em caráter de urgência: linchamento de todas as pessoas que perguntam onde fica o "tolete" porque acham que toalete é mais "chic" que banheiro. Toalete é a puta que pariu.
Em primeiro de julho as emissoras de rádio e televisão foram proibidas pela justiça eleitoral "de veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus orgãos ou representantes". Inacreditável. É a institucionalização da censura. E o pior é que não vejo ninguém reclamar. Os jornalistas se organizam e fazem passeatas pelo Tim Lopes (nada contra, evidentemente), mas ficam quietinhos ante este absurdo atentado à liberdade de expressão.
Aliás, pufe para celular define a São Paulo Fashion Week. Tudo ali é inútil, cafona e ostensivamente ridículo, como um pufe para celular. Puf!
Quem vai ao estande da Samsung no São Paulo Fashion Week recebe de brinde um pufe para celular. É sério. Agora eu posso deixar meu celular aconchegado em casa, no escritório ou mesmo num restaurante, já que o pufe é pequeno e pode ser facilmente carregado. Não é incrível? Desde a roda não se inventava nada tão simples e revolucionário.
Notícias sobre o Gerson de Abreu dizem que o ator "tinha problemas de peso e era fumante". Ah, tá. Era fumante. Não está longe o dia em que neguinho sofrerá acidente e a imprensa noticiará: "Segundo testemunhas, Fulano estaria embriagado. E era fumante". Ou: "doze pessoas morreram no atentado. Eram todas fumantes." Ou ainda: "A colisão entre os dois boeings não deixou sobreviventes. Foram encontrados maços de cigarro entre os destroços".
Um professor descola pública do Rio de Janeiro deu pros alunos um poema do Affonso Romano de Sant'Anna. Segundo a Globonews, o poema cobrava responsbilidade social e criticava a violência e o tráfico de drogas. No dia seguinte o professor entrou na classe e leu aterrorizado, em letras garrafais na lousa, a assinatura de uma quadrilha de traficantes. Logo depois foi ameaçado de morte. Isto sim que é crítica literária.
Existe nome mais jacu que São Paulo Fashion Week?
Ninguém, absolutamente ninguém, se veste tão mal quanto os estilistas. Isso deve significar alguma coisa.
Dizem as boas línguas que o Lula nunca conseguiu passar da página 17 de um livro. Acho um exagero, duvido que tenha passado da orelha. De qualquer forma, o boato deu origem ao site Página/18, escrito pelos grandes Brutus Carvalhal, Jean Lagostin e Lenine Leal. Do escambau, não percam.
Não consegui descobrir o autor, mas é um belo limerick (limericks são poemas humorísticos de cinco linhas, geralmente intraduzíveis):
"A tutor who taught on the flute
Tried to teach two young tooters to toot.
Said the two to the tutor,
'Is it harder to toot, or
To tutor two tooters to toot?'"
Quando Margherita, condenada pelo afogamento do filho e pelo envenenamento da mãe, presa numa cela fria e escura, canta que sua alma triste vai embora voando como um pássaro num bosque, e quando, na voz de Maria Callas, ela grita: "vola vola via", e sua voz sobe a alturas inimagináveis, como um desesperado fogo de artifício, arrastando junto nossos corações, e explode implorando piedade, sentimos toda a angústia, a tristeza e a dor, não só da mulher atormentada, mas da nossa miserável condição humana. Miserável? Não quando se ouve uma ária como L'altra notte in fondo al mare, da obra-prima Mefistofele, de Arrigo Boito. Angústia, tristeza, dor. A grande arte justifica tudo.
"Lula nos coloca 'au niveau' de Cuba e Nicarágua. É uma besta quadrada, que não sabe nada do que está falando. Arruinaria o país, nos transformaria em Sudão, numa grande bosta." Paulo Francis, em 89.
Por que se buzina tanto neste país? E por que se buzina em túneis? Tenho um projeto de lei pra acabar com essa palhaçada. As buzinas devem ser acopladas a um sistema de choques proporcionais à intensidade dos sons produzidos. Se o sujeito der apenas um toque, toma um choquinho. Se enfiar a mão, fica grudado no volante, espumando, por uns cinco minutos.
Todos nós acabamos
Enfim por nos matar
A não ser que morramos
Antes disso chegar
Pra nossa sorte, Rafael Azevedo, ex-colunista do site Diminutivo Cultural, montou um blog. Entrei lá e dei de cara com esse post: "Por favor, se você vai votar no Lula, não conte nada pra mim. Serei obrigado a te dar um murro nos dentes, e isso será extremamente desagradável." De rolar de rir. Check it out: blogico.blogspot.com.
Lula afirmou que o governo pega dinheiro emprestado do FMI pra pagar o FMI. Dejeto humano. O governo pega dinheiro emprestado pra pagar a conta criada pelos monstros estatais que o senhor Lula defende; pra pagar a conta do nosso absurdo sistema previdenciário que o senhor Lula defende; pra pagar a conta do autoritarismo econômico, da falta de flexibilidade das relações trabalhistas, da gigantesca carga fiscal - tudo o que o senhor Lula defende. Acusar o FMI pelos problemas do Brasil é como um bêbado que compra fiado culpar o dono do bar por sua bebedeira. O nosso maior inimigo, disse certa vez outro barbudo (este careca), está em casa.
Ciro Gomes quer fazer com o Brasil a mesma coisa que faz com a Patrícia Pillar.
Eu e meu amigo Alexandre Soares Silva recebemos preciosos elogios do Dennis, autor do sensacional blog cadernomagico.blogspot.com. Deveríamos, eu e o Alexandre, ajoelhar como Wayne e Garth aos pés do Alice Cooper: "we're not worthy, we're not worthy".
Não sei por que a maioria dos vegetarianos se considera moralmente superior aos carnívoros. Animais são... animais. Mordem, bicam, picam e dão coices. As plantas são indefesas e inofensivas. Passam o dia no mesmo lugar, na delas. São verdadeiramente flower power. Mas os vegetarianos não querem nem saber. Ceifam, mutilam, rindo como loucos. E antes de devorá-las, ainda encontram sangue frio para torturá-las com requintes inacreditáveis de crueldade – imagine ser misturado a molho rosé, meu deus do céu.
Estava relendo algumas páginas daquele livro do Paulo Francis que tem três títulos (Trinta anos esta noite, 1964, O que vi e vivi) e me deparei com este trecho: "Em Nova York, nos escritórios da rede Globo de televisão, tive o privilégio de ver uma transmissão de satélite direta da Câmara dos Deputados de Brasília, que celebrava a ocasião, a volta à democracia, ou, ao menos, ao governo civil, representado por Tancredo. Primeiro nos veio uma panorâmica da Câmara, cheia de representantes do povo. Olhei abismado. Os homens tinham aparência de celerados, os que vi, ao menos. As mulheres, poucas, de prostitutas de cais do porto. (...) É o meio político brasileiro. Só se pode tolerá-lo tapando as narinas". Waaal, acho que o Paulo Francis já estava há tempo demais longe do Brasil, ou eu ando dando azar. Pois as pessoas que conheço e vejo, nas ruas, shoppings, restaurantes, faculdades, escritórios, aparentam, em sua maioria, serem celerados ou prostitutas. Me parece que o meio político brasileiro não é um foco concentrado da escumalha, e sim uma representação fiel da nossa sociedade.
Medida de contenção populacional, em caráter de urgência: esquartejamento de todos os pais que levam bebês e crianças pequenas a restaurantes. Os filhos, leiloados para casais estrangeiros.
Não sei se lamento ou comemoro o 14 de julho. De qualquer forma, champagne.
Mario! Mario! Ao ler uma matéria sobre o livro "Mario", no Valor Econômico, descobri que o brilhante economista Mario Henrique Simonsen, que calçava meias diferentes em cada pé, caía do estrado da classe e levava o giz à boca enquanto tentava escrever com o cigarro na lousa, era tão atrapalhado que não percebeu a própria morte. Ora, uma maldita doença o levou daqui em 1997, mas segundo o autor da matéria, Simonsen deu "palpites na correção de rumos do plano Real, em 1998", e teve uma agradável conversa com Fernando Henrique, em 1999 - ao que consta, no Planato, e não num centro espírita. Hamlet estava evidentemente equivocado quando falou do país não descoberto de cujos confins não volta nenhum viajante.
Num dia a euforia
n'outro melancolia
Num dia tudo arde
n'outro somente esfria
Num dia solitária
n'outro com companhia
assim vai minha vida
ou assim a vida ia?
Tem um programa na Globonews que se chama Via Brasil. Devia se chamar Via Crucis.
Um imbecil pagou 77 milhões de dólares pelo quadro “Massacre dos Inocentes” (nome sugestivo para os esquerdinhas de plantão), de Rubens. Amigos meus argumentam que o valor do dinheiro é relativo e que é perfeitamente compreensível um bilionário pagar tal quantia por um quadro. Se o sujeito tem, digamos, 1 bilhão de dólares, 77 milhões seriam como 3850 pra quem tem 50 mil. Ora, 3850 não é muito por um quadro tão espetacular. Não sei não. Ousadamente continuo achando que 3850 são 3850 e 77 milhões são 77 milhões. E duvido que quem paga tanto por um quadro seja capaz de apreciá-lo. Provavelmente não passa de um palhaço exibicionista. “Cínico é aquele cara que sabe o preço de tudo e não sabe o valor de nada” Oscarito Wilde.
Me apaixonei à primeira vista por uma garota. Consegui convencê-la a sair comigo e num momento de arrebatamento disse que a amava. Ela retrucou, "é impossível amar quem você não conhece". Engraçado. Acho impossível amar quem eu conheço.
As descrições não me caem bem. Cético, cínico, machista, pessimista, arrogante, vingativo, incoerente, inconsistente, inconstante - dificilmente encontrarão alguém mais tenro e de melhor coração. 28 voltas em torno do sol ainda não foram suficientes para que eu me acostumasse, ou me acostumasse a não me acostumar, com o fato de estar girando no espaço na superfíce de uma bola absurda. Evito pensar a sério sobre esse fato curioso. Sempre que penso a sério chego a conclusões estúpidas. Já conclui, por exemplo, que a vida é uma ilusão, que o sofrimento é importante e que é impossível viver sem as mulheres.
Não sou especialista em nada. A única coisa que tento conhecer mais profundamente é a alma dos homens - embora ache o corpo da mulher infinitamente mais interessante. Por uma fatalidade geográfica, nasci no Brasil, mas meu país de coração começa na sola dos meus pés e termina no meu último fio de cabelo. Não sou negro, nem gay, nem deficiente físico. Sou fumante. Nunca conheci ninguém parecido comigo, portanto me considero a menor das minorias. Como Saul Bellow, gosto do que é bom e não gosto do que é ruim. Acredito em deus, mas ele não acredita em mim. Tenho manias extremamente estranhas, como pensar e amar. Nasci sabendo tudo, mas fui esquecendo com a idade. A maturidade, que ameaça bater em minha porta, parece vir da completa ausência de certezas. Mas não tenho certeza disso. Não sou homem de ambição. Daria meu pequeno reino por um pônei. Mas, apenas pelo prazer da ousadia, seria capaz, agora mesmo, à la great Durante, de gastar 10 dólares para ficar milionário.
Meu maior receio é estarmos numa espécie de videogame e sermos obrigados, após morrer, a viver tudo de novo com um nível de dificuldade maior. Imaginem se, em vez do descanso eterno (uma opção também bastante desagradável), aparecermos num lugar frio e ouvirmos uma voz dizer: "agora, na neve"?