


Uma hora e meia de bicicleta por dia. Caminhadas. Corte drástico de cevada. Corte drástico de fritura. Corte drástico de cigarro. Dieta de vegetais, frango grelhado e água mineral. Mais caminhadas. Meu corpo não tá acostumado com isso. Receio empacotar de uma hora pra outra. E se saúde me fizer mal?
Meu bom amigo Felipe Ortiz anda a citar Antero de Quental e a falar em depressão. Pobre rapaz. Em sua homenagem, cito aqui um célebre poeminha de Dorothy Parker:
Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren't lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.
Não gosto de shows, não suporto aglomerações e cada vez mais me aborreço com música popular. Mas sábado de manhã fui ao show do Toquinho, na praça Vinícius de Moraes (aquela em frente ao "Palácio" do Governo), e devo confessar que me diverti e me surpreendi com a relativa civilidade do público. Mulheres bonitas, lugar limpo, quantidade aceitável de pessoas. E como toca bem o Toquinho. Devia ser chamar Tocão (tá, eu sei, essa foi fraca).
Houve apenas um incidente desagradável: o Otávio Mesquita, de shortinhos, ficou uns dois minutos ao meu lado, segurando com força a coleira para impedir seu cachorro de devorar alguns poodles.
O Toquinho contou várias histórias sobre o Vinícius de Moraes, todas engraçadas. Certa vez, o nosso "poetinha maior" resolveu homenagear Pablo Neruda em uma de suas músicas (esqueci qual) e acrescentou à letra uns versos do poeta chileno. Neruda leu a letra e não entendeu a homenagem. Olha aqui, disse Vinícius, esses versos são seus! Neruda negou, os versos não são meus. Claro que são. Não são. Pra tirar a dúvida, mostraram os versos pra esposa do Neruda, que conhecia intimamente toda sua obra. Ela deu o veredicto: são de um tango argentino! Todos lembraram do tal tango e Vinícius ficou extremamente constrangido. Percebendo o constrangimento, Neruda comentou: "Vinícius, não fique assim. Esses versos são realmente muito bonitos. Eu devo ter esquecido de escrevê-los”.
“Dar dinheiro e poder ao governo é como dar uísque e chaves de carro a adolescentes.” P. J. O’Rourke
Durante a campanha eleitoral, o PT prometeu levar a cabo a tão esperada reforma tributária que desoneraria a população e permitiria um crescimento mais acelerado, e ajudou a criar um consenso quanto a sua importância para o país. O PT mudou! O PT agora é um partido responsável! Vamos votar no PT! Mas, para o governo diminuir os impostos sem apelar à inflação (que, no fim das contas, é o imposto sobre os pobres), precisa enxugar seus gastos. O PT, como se sabe, é o partido do funcionalismo público e do dirigismo econômico. Sempre lutou para aumentar os gastos do governo, seja através de subsídios, seja através do aumento de funcionários públicos e seus privilégios.
Não é surpreendente, portanto, que depois de se eleger ao executivo e consolidar o consenso quanto a necessidade da reforma tributária, o partido tenha invertido a finalidade da reforma: em vez de diminuir os encargos, ela deve aumentá-los.
O resultado é evidente: aqueles que produzem e consequentemente tornam o país mais rico, são punidos com impostos extorsivos. Aqueles que são incompetentes para produzir – funcionários públicos, empresas subsidiadas – são beneficiadas, pois o dinheiro tomado do setor produtivo é repassado a eles.
Hoje, a cada três reais que você gasta, um vai pro governo. Isso não é tributo, é roubo. Se já é quase impossível crescer desta forma, imagine como as coisas vão ficar se o PT conseguir aprovar sua reforma!
O certo seria colocar todos os petistas de castigo e obrigá-los a escrever cem vezes na lousa aquela frase do Ronald Reagan: “o imposto gera sua própria despesa, o imposto gera sua própria despesa, o imposto gera sua própria despesa”.
Mais um crime pra chocar o pessoal. Um tal de Napolitano (nome apropriado) retalhou a avó com uma faca de cozinha e roubou a cadeira de rodas da velhota. Lembro de Lady Britomart, em Major Bárbara, do velho Shaw: “It is only in the middle classes, Stephen, that people get into a state of dumb helpless horror when they find that there are wicked people in the world.”
Ter filhos é levar longe demais essa história de tamagochi.
Se a vida é um jogo, tiramos a carta “volte vinte casas” ao eleger o sr. Luiz Inácio Louco da Silva - o que quase nos leva pra fora do tabuleiro. Mas tudo bem. Ninguém passa do fundo do poço. E, uma vez lá, só dá pra ir pra cima.
Para aumentar o número de empregos, o PT pretende diminuir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem a consequente redução de salários. É uma proposta realmente fascinante. Ela diz: “olha pessoal, nós temos trabalhado muito e o Brasil continua pobre. Quem sabe se trabalharmos menos, não conseguiremos finalmente ficar ricos e criar mais empregos? Hein, hein?”
Não é uma lógica brilhante? Mas vamos dar uma olhada nas conseqüências. Quando se diminui a jornada de trabalho e mantém-se os salários, o empregador têm duas opções: diminuir a oferta de seu produto ou serviço, ou contratar mais empregados. Se diminuir a oferta, o custo de produção aumenta. Se o custo aumenta, o preço sobe. Se o preço sobe, as vendas caem. Se as vendas caem, há menos consumo. Se há menos consumo, produz-se menos. Se há menos produção, diminui-se a necessidade de trabalhadores. Daí, desemprego.
Se optar por contratar mais funcionários, o custo de produção aumenta. Se o custo aumenta, o preço sobe. Se o preço sobe, as vendas caem. Se as vendas caem, há menos consumo. Se há menos consumo, produz-se menos. Se há menos produção, diminui-se a necessidade de trabalhadores. Daí, desemprego.
Outra proposta igualmente bem-intencionada e catastrófica é o plano Fome Zero. Acho que todo mundo concorda – exceto, talvez, alguns faquires e algumas modelos - que passar fome é extremamente desagradável e que seria louvável exterminar a fome do mundo. O ponto é como fazer isso. Diversos países conseguiram exterminá-la diminuindo o controle do Estado sobre a economia. Segundo o PT, há uma maneira ainda mais eficaz: basta o Estado distribuir comida. Sem dúvida, um plano de simplicidade comovente.
Convém, porém, lembrar que o governo não tira comida do vácuo. Ela precisa vir de algum lugar e alguém tem que pagar por ela. E quem paga é a população, já que o governo não gera riqueza.
O Fome Zero prevê gastos de cinco bilhões de reais na compra e distribuição de comida. Isso quer dizer que cinco bilhões serão pulverizados para aumentar a burocracia e manter os pobres pobres (mas de barriga cheia). Seria muito mais adequado usar esse dinheiro em investimentos no setor privado e em educação (investimentos em educação tendem a ser reverter, a longo prazo, em produção), para ajudar o país a se desenvolver, criar mais riqueza e empregos e oferecer aos pobres a justa oportunidade de se alimentar e alcançar uma vida mais confortável através de seus próprios esforços. O Fome Zero, lamentavelmente, será apenas mais uma contribuição dos nossos nobres políticos para a perversa manutenção da miséria.
A verdade é que precisamos tomar muito cuidado com propostas mágicas cheias de boas intenções. Não raro, elas causam mais malefícios a um país do que todos os corruptos e canalhas juntos.
Como escreveu F. Hoelderlin, "O que sempre fez do Estado um inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso.”
Há um abismo entre o que penso e o que sou.
Durmo com medo de não acordar mais. Acordo com medo de não dormir mais.
Aliás, Caetano Veloso está ridículo como Caetano Veloso. Ele atua mal até quando faz ele mesmo.
De ontem a quinta, às 22h, o Espaço Unibanco da Frei Caneca exibe Duck Soup (ou, na pornográfica tradução brasileira, Diabo a Quatro), um dos filmes mais engraçados dos Irmãos Marx. Recomendo entusiasticamente. Mas mais engraçado que Duck Soup é Onda Nova, filme com Carla Camurati, Regina Casé, Casagrande e Caetano Veloso, que vi outro dia no Canal Brasil. Paulo Salles estava comigo e comentou: “o diretor não só não sabe fazer cinema, como nunca ouviu falar de cinema”. É exatamente o que penso quando assisto a filmes nacionais – exceção feita a Eles Não Usam Black-Tie, Cidade de Deus, e mais dois ou três. Mas somos imbatíveis em humor involuntário.
Patéticas as tentativas de jornalistas, psicólogos e demais palpiteiros de plantão de encontrar algo que justifique (ou ao menos explique) o terrível crime da “srta.” von Richthofen e seus Blue Caps. Alguns falam que, antes de matar os pais da garota, os jovens – óóó – fumaram maconha. Isso é procurar a culpa nas estrelas. Maconha não comete assassinato. Pessoas cometem assassinato. Como escreveu certa vez o João Ubaldo Ribeiro, o único crime que maconha pode suscitar é assalto a loja de colchões – e os maconheiros acabariam dormindo dentro da loja...
A menina alegou ter matado “por amor”. Pfui. Ninguém mata por amor. As pessoas matam por ódio. Por ódio, poder e dinheiro. Às vezes, just for fun.
Outra coisa que não entendo é a tal da reconstituição do crime. Deve ser a grande diversão de investigadores, promotores e policiais. Em vez de trabalhar, ficam brincando de teatrinho. Metam uma bala na cabeça de cada um dos assassinos e estamos conversados, porra.
Hoje, às 18h30, Eduardo Giannetti da Fonseca lança seu novo livro na livraria Cultura do Conjunto Nacional. Chama-se Felicidade. Título infeliz.
Woody Allen falando um monte de bobagem sobre Bush e a guerra ao Iraque. É engraçado. Ele, o Millôr e o Luís Fernando Veríssimo, mesmo quando sérios, não deixam de ser anedóticos.
"Whisky, lareira, Beethoven e presença de mulher, eis a síntese da civilização ocidental." Gilberto Amado.
Não são a criminalidade, a falta de oportunidades profissionais, a miséria, a feiúra (ô palavrinha feia!) e a sujeira das cidades que mais me fazem querer cair fora do "Brasil Bananil". O principal motivo é a falta de educação das pessoas. Não digo educação cultural: já me acostumei com a idéia de não conhecer praticamente ninguém da minha idade com quem eu possa conversar sobre Mozart ou Proust. Falo de respeito, gentileza, preocupação com o bem estar alheio, noção de como se comportar em público.
O brasileiro não só é mal educado como vê a educação com maus olhos: é coisa de ingênuos e otários. No bar ou restaurante, aquele que espera pacientemente a sua vez de ser atendido, não raro é passado pra trás por outros clientes e ignorado pelos garçons. No trânsito, é constantemente aborrecido por "malandros" que ficam na faixa da esquerda quando precisam virar à direita, que entram na contra-mão, que ultrapassam pelo acostamento, que buzinam em túneis, que jogam lixo pela janela, etc. Com as mulheres, a coisa é quase cômica. Aja como um gentleman e a garota fará de você um tolo. Um amigo meu foi abrir a porta do carro pruma namoradinha, e ela implorou, em pânico: não abra a porta, não faça isso que fico constrangida.
O vocabulário brasileiro também faz pouco uso de palavras e expressões educadas. Minha médica me contou que seu filho, de quatro anos, sempre diz "por favor" quando pede algo e agradece com um "obrigado": vou buscá-lo na escola e as outras mães nos olham como se fossemos ETs.
Também se inventou no Brasil que "senhor" e "senhora" só podem ser usados quando se fala com velhinhos e velhotas. Não esqueço quando fui apresentado, numa festa, a uma das filha do famoso jornalista Mino Carta. A pedido de um amigo, ela havia recomendado meu grupo da faculdade ao seu pai, já que fazíamos um trabalho sobre a revista Carta Capital. Depois de cumprimentá-la, disse: "Agradeço enormemente a ajuda da senhora". Ela, meio alcoolizada, respondeu com um tom de voz extremamente desagradável: Senhora é a sua vó, e virou as costas pra mim. Ser educado é ser mal educado por aqui.
Outro exemplo me foi dado pelo meu professor de italiano. Logo depois de chegar da Sardenha, ainda não acostumado ao Brasil, vivia reclamando que as pessoas na rua o chamavam com um sonoro "ô, ô". Ele me dizia, mas que diabo, eu não me chamo "ô".
Muita gente exalta a informalidade brasileira como algo isento de hipocrisia e frescura. Eu vejo nela apenas a triste consequência da "malandragem" e da falta de respeito do nosso povo. E por isso quero cair fora daqui, sem nem dizer adeus.
Winona Ryder está linda e espetacularmente bem vestida na foto publicada hoje n'O Estado de S. Paulo. Foi dar uma de esperta e acabou condenada por "furto e vandalismo". Pode pegar três anos de cana. Easy, Ryder, easy.
Recebo pelo correio os dois primeiros números do suplemento literário Vertigem, editado por Bruno Garschagen e distribuído aos domingos no maior jornal de Cachoreiro de Itapemirim, Folha do E. Santo. Como colaborador do Vertigem, sou suspeito pra opinar, mas diabos, não posso deixar de deitar elogios a essa fantástica iniciativa do Bruno. Rubem Braga ficaria orgulhoso de você, meu caro! Parabéns!
As coisas são fáceis de entender. O difícil é aceitá-las.
A Lula convenceu o polvo de que o polvo devia seguir a Lula. Lula também é polvo, disse a Lula. A Lula sabe do que o polvo precisa. Os outros não. Os outros são tubarão (a Lula não era muito boa no uso do plural). A Lula disse que o oceano era um aquário, uma prisão dos tubarão, e que o céu estava longe também por culpa dos tubarão. A Lula prometeu que colaria o céu na superfície do oceano, e que as estrelas seriam de todos. A Lula até usava um pequeno broche, muito singelo, com uma estrelinha desenhada.
O polvo não teve medo de ser feliz e seguiu a Lula até a praia. Aqui é o céu e aqui não é molhado, disse a Lula. Olha que bonito. Olha que mundo. Tem flores, montanhas e arco-íris. E tudo isso é de você. O polvo chorou de emoção. Contou até quatro e pulou fora d’água. Arrastou-se pela areia tão maravilhado que demorou alguns minutos pra perceber que não conseguia respirar. Que era impossível viver naquele mundo tão lindo. E morreu na praia.
No more confusion
No morning-after surprise
No self-delusion
That when you're telling those lies
She isn't wise
And even if love comes through the door
The kind that goes on forevermore
Forevermore is shorter than before
Oh
I'm
so
glad
that I'm
not young
anymore
Da série Assim Falava Da Silva (ou O Sábio Idiota):
"É errando que se aprende. Aquele que só acerta nunca aprende porra nenhuma."
"Devemos perecer resistindo e, se é o nada que nos espera, não devemos agir como se isso fosse um destino justo."
De Senancour, Obermann