


Vamos lá, pessoal. Todo mundo feliz e bonzinho, hein?
Converso com um amigo sobre A Vida dos Doze Césares, de Suetônio. Ele leu faz tempo. Lembra que Júlio César era chamado de “a prostituta da Bitínia” e “o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos”. E que outro imperador, ao ver um general que acabara de voltar vitorioso de uma guerra, gritou: “Depile-se! Depile-se já!”.
É o que fica da vida das pessoas mais poderosas do mundo.
O sujeito sai radiante do concerto e a namorada comenta: a felicidade que você sente ouvindo Mozart deve ser a mesma que eu sinto quando uma calça apertada volta a servir em mim. Ainda assim ele a ama.
Sobre o Almodóvar. Não assisto a filmes dirigidos por pessoas que parecem cabeleireiros.
Consegui um emprego pela Catho. Na Enron.
No estacionamento do McDonalds, perto da minha casa: “Para sua segurança, informamos que este estacionamento possui 48 vagas e não oferece seguro contra furto, roubo ou qualquer tipo de dano ao veículo”. Ronnie, esse palhaço.
Guilherme Quandt é advogado. Não, não é um bom jeito de apresentá-lo. Deixe-me tentar de novo. Guilherme Quandt era chamado de Mestre na escola, devido a sua arrogância e pretensa sabedoria. Estou piorando. Esqueça o que escrevi. Começando do começo: Guilherme Quandt mora em Florianópolis, é uma das pessoas mais inteligentes que conheço e acabou de inaugurar um blog. Melhor assim? O blog se chama Letra Miúda e já faz parte daquela meia dúzia que dá pra ler todo dia. Check it out. O cara é mestre, mano.
Ministro da Cultura Gilberto Gil. Aquele abraço pra cultura.
Diálogo entre dois sujeitos, um deles em dúvida se faz mais café para servir ao Popó:
- Pó pô pó po Popó?
- Po Popó? Pó pô pó!
Os romances do Paulo Francis estão sendo reeditados, uma boa notícia, sem dúvida, mas o que eu gostaria mesmo era de uma coletânea dos seus artigos para jornal. Gosto particularmente do late Francis, liberal e direto ao ponto, lutando de baioneta em punho para preservar um resto de civilização em meio à nossa selva selvaggia - mais ou menos como o tenente John Chard defendendo Rorker's Drift da horda de zulus.
“Agora desejo uma boa noite, cago na sua cama até ela ranger”. Quem escreveu isso aí foi Mozart, numa carta a uma prima, o mesmo Mozart que compôs músicas de beleza insuperável, e isso é apenas um pequeno exemplo das escatologias que ele costumava escrever.
Não sei não, mas algo me diz que, se deus existe, ele se parece um pouco com Mozart.
"Meu conhecimento de musicologia cabe todo em um o desse todo, porém eu escrevo e escuto com a maior atenção que me é possível, e a combinação de alto formalismo com brincadeira, em Mozart, me dá prazer como nenhuma outra composição em qualquer arte. Homero é cruel, Michelangelo não é engraçado, Shakespeare é desigual, Beethoven é alemão, Faulkner vai além dos limites e Ray Charles deixou sua banda ficar grande demais; mas os prazeres de Mozart desafiam qualquer rotulação, no que me concerne. Sua rigorosa amabilidade, tão claramente movimentada, voluptuosamente refinada, aquece o coração de minha crença em uma liberdade completa e alegremente responsável. É uma brasa." Roy Blount, Jr.
Pergunta do dia: existe algo mais belo e melancólico do que o terceiro movimento do quarteto para piano de Schumann?
Dor na coluna. Maldito e covarde corpo humano. Sempre atacando pelas costas.
"Especialistas sem espírito, sensualistas sem coração - e esta nulidade se considera, ainda por cima, o supra-sumo da civilização". Goethe.
Além de ser um dos mais sensatos economistas brasileiros, Eduardo Giannetti é um escritor filosófico de mão cheia. Mais uma prova da máxima hayekiana: “não é um bom economista quem é apenas um economista”.
Seu livro Felicidade, recém-lançado pela Cia. das Letras, transcreve os diálogos fictícios de quatro amigos que se encontram esporadicamente para debater a relação entre civilização e felicidade. Na introdução, Giannetti escreve:
“As qualidades de uma boa conversa deveriam ser a polidez sem fingimento, a franqueza sem rispidez, a erudição sem pedantismo, o rigor sem aridez e, sobretudo, a disposição sincera de cooperar na busca do saber. Afinal, eles se perguntavam, o que os impedia de, sem perder a leveza e o bom humor, perseguir com afinco a verdade? O sério não é sinônimo de soturno, assim como o profundo não o é de obscuro. La gaya scienza. Se a busca do saber não precisa ser sisuda, a alegria da convivência não precisa ser frívola”.
E assim é o livro. Erudito, sem ser pedante; profundo, sem ser obscuro; divertido, sem ser frívolo. Uma sincera cooperação na busca do saber.
É preciso ser muito trouxa pra ser feliz.
Peço perdão pela vulgaridade do post abaixo. Prometo vestir de volta o fraque e a cartola e me concentrar nas minhas orquídeas (enquanto cantarolo, baixinho, baixinho, uma ária de Offenbach).
Quais são as obrigações conjugais de uma esposa? Não falo de roupa lavada e jantar feito na hora. Quero saber até onde o sexo é um dever conjugal e que partes do corpo estão à disposição do marido. No Rio Grande Sul, uma mulher processou o marido porque supostamente ele a obrigava ao coito anal. Veja só a decisão do juiz, publicada no site do TJRS e em duas revistas de jurisprudência:
RECURSO: APELAÇÃO CÍVEL
NUMERO: 595116724
RELATOR: ANTÔNIO CARLOS STANGLER PEREIRA
EMENTA: LIMITES DO DEBITO CONJUGAL. ONUS DA PROVA.
O COITO ANAL, EMBORA INSERIDO DENTRO DA MECANICA SEXUAL, NAO INTEGRA O DEBITO CONJUGAL, PORQUE ESTE SE DESTINA A PROCRIACAO. A MULHER SOMENTE ESTA SUJEITA A COPULA VAGINICA E NAO A OUTRAS FORMAS DE SATISFACAO SEXUAL, QUE VIOLENTEM SUA INTEGRIDADE FISICA E SEUS PRINCIPIOS MORAIS.
A MULHER QUE ACUSOU O MARIDO DE ASSEDIO SEXUAL NO SENTIDO DE QUE CEDESSE A PRATICA DA SODOMIA, E NAO DEMONSTROU O ALEGADO, RECONHECIDAMENTE DE DIFICIL COMPROVACAO, ASSUME OS ONUS DA ACUSACAO QUE FEZ SEM NADA PROVAR. A PROVA, NOS TERMOS DO ARTIGO 333, INC-I, DO CPC, INCUMBE A QUEM ALEGA. PROCEDENCIA DA RECONVENCAO OFERECIDA PELO VARAO.
(APELAÇÃO CÍVEL Nº 595116724, OITAVA CÂMARA CÍVEL, TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RS, RELATOR: DES. ANTÔNIO CARLOS STANGLER PEREIRA, JULGADO EM 07/03/96.)
Um amigo advogado comentou que “deviam ter requerido perícia técnica, vulgo teste da farinha, e designado como perito o famoso Dr. Jacinto Leite Aquino Rêgo.” Outro amigo perguntou indignado: “Afinal de contas, onde entra o varão nessa história toda?”. O que sei, meus caros, é que há uma moral aí: quem vê bunda, não vê coração.
Pergunta do dia: existe algo mais belo e melancólico do que o segundo movimento do concerto para dois pianos de Mozart?
Hoje, às 20h30 no Mosteiro de São Bento, o excelente organista Iain Quinn fará um concerto em homenagem aos 50 anos do compositor Amaral Vieira. Entre as obras a serem executadas, a belíssima Toccata e a fantástica suíte Sete Palavras de Cristo na Cruz. Grande música. E, como diz o vulgo, di grátis.
Depois de dois meses, Rafael Azevedo resolveu atualizar seu blog. Peço licença para citá-lo:
"Roubaram dois quadros do museu Van Gogh, em Amsterdã. Eu estive lá, e vi esses dois quadros, um dia antes do roubo. Lembro-me particularmente daquele da congregação em frente à igreja de Nuenen, por ter me marcado, gostei muito dele. Fantástico, sem dúvida, o outro que foi roubado, com uma vista da praia de Scheveningen, mas havia algo ali na Congregação de especial. Talvez seja aquele céu escuro, cinzento, tão típico do inverno na Holanda e do norte da Europa em geral, as árvores desfolhadas, o tom desfocado que ele dá às pessoas, transformando-as em meros blurs. Beh... whatever. Só sei que o quadro é espetacular.
Ainda assim, alguém entrou lá e o levou. Minha repulsa pelo mundo em que fui arremessado ao nascer aumenta a cada segundo. O que fazer com pessoas assim?"
É um fenômeno curioso. Sempre que termino de escrever um conto, ele me parece bom, muito bom. Um dia depois, pequenos erros começam a surgir pelo texto. Uma semana, e frases sensacionais se transformam em frases idiotas. Um mês, e o conto inteiro está absolutamente constrangedor. Sue Medeiros e Evandro Ferreira, gentis e corajosos, publicaram no Outonos um conto que escrevi há poucos dias. Leiam, enquanto ele ainda está razoável.
"Tivesse o nariz mais curto, não seria Pascal um grande frasista." Dalton Trevisan, Pico na Veia.
Alexandre Soares Silva finalmente se rendeu aos apelos da galera e montou um blog. O endereço é alexandresoaressilva.blogspot.com. Ele reclamou comigo que o nome estava longo demais e eu sugeri que ele fizesse como eu, usasse apenas suas iniciais. Não foi uma sugestão feliz.
Dois livros fundamentais: Economia numa única lição, de Henry Hazlitt, e O caminho da servidão, de Hayek. Leiam e tirem suas próprias conclusões sobre as políticas econômicas defendidas pelo PT.
Lula pode até aceitar a democracia, mas não a ama. Outro dia, como vocês aí devem saber, afirmou que em sociedades com profundas desigualdades sociais “soluções de força” são mais adequadas que a democracia. Il dolce Dulci, secretário-geral do PT, se apressou a “explicar” a afirmação do – como dizem os jornalistinhas – “presidente eleito”: “Foi uma reflexão conceitual de filosofia política sobre democracia e desigualdade”. Ah, tá.
É bom lembrar que solução de força costuma significar solução de forca.
Salvador McNamara strikes again: "Este Blog apoia vigorosamente a cobrança extra da taxa de recolhimento de lixo em São Paulo desde que a Marta e sua corja sejam os primeiros a ser recolhidos ao aterrro."
Um amigo me garante: a senadora Marina Silva ocupará o Ministério da Faxina.
Ruy Goiaba revelou outro dia que o pacato diplomata Rubens Ricupero é, na verdade, o malvado senhor Burns, patrão do Homer Simpson. Ricupero não é o único provável integrante do novo governo da Lulalândia a possuir dupla personalidade. Luiz Gushiken, cotado para a Secretaria de Comunicação, é evidentemente o senhor Miyagi. Benedita da Silva, como notou Jean Lagostin no Página/18, é J. Edgar Hoover, agente disfarçado do FBI que faz uma ponta em Bananas, do Woody Allen. E Mercadante, claro, é o porteiro do meu prédio.
Uma pequena multidão se aglomerava à espera do corpo de minha amada. Fazia um frio desgraçado, mas o interior daquela capela, cheia de choro, abarrotada de gente, era-me por demais sufocante; preferi ficar fora, respirando o ar gelado, ajeitando nervosamente o cachecol em meu pescoço, fumando cigarro atrás de cigarro.
A comoção era enorme e pela primeira vez me dei conta de que eu não era o único a amar a minha amada - e esse pensamento, confesso, muito me desagradou. A noite principiava a descer, e algumas estrelas já pontilhavam o céu crepuscular. Alguns murmúrios especulavam sobre a demora. Pessoas entravam e saiam da capela, visivelmente emocionadas.
(Um dia, quando eu e ela éramos crianças, ainda longe de amá-la mas já admirando a arquitetura de seu rosto, resolvi testar a minha memória e tentar guardar, para o resto de minha vida, uma imagem, uma expressão, um momento dela em mim. Brincávamos de esconde-esconde, era a vez dela procurar. De olhos fechados, ela contava, sem mexer os lábios, até dez. Em vez de me esconder, fiquei a observá-la e a repetir em pensamentos: nunca esquecerei dela assim, nunca esquecerei dela assim. Durante vários anos, em alguns momentos muito tristes, em outros muito felizes, lembrei perfeitamente daquele rosto delicado, daquelas bochechas rosadas, daqueles olhinhos fechados – aqueles olhos tão negros, que sugeririam estar de luto por tudo que viam se não fosse a alegria do resto do rosto, agora fechados pra sempre. No frio, ajeitando desajeitadamente meu cachecol, tragando meu cigarro, buscava essa imagem, a pureza daquele rosto que havia se transformado e em breve deixaria de existir. Mas a imagem havia se perdido. Não pude resgatá-la, nem nesse dia, nem nunca mais).
Uma pequena lágrima suicida debruçou-se no parapeito do meu olho e lá ficou, sem coragem de cair, enlutando-me o olhar.
Enfim ela surgiu, vestida num vestido branco, que combinava perfeitamente com sua pele pálida mas contrastava com as trevas daquela situação. O corpo foi conduzido até o interior da capela e depositado à frente do velho padre. O silêncio parecia-me insuportável, mas qualquer coisa que se atrevesse a quebrá-lo me incomodaria muito mais. O velho padre, alheio ao que pudesse me incomodar, pigarreou e pronunciou algumas palavras. Não consegui entendê-lo. Era um começo de noite tão bonito! As pessoas estavam tão bem vestidas! A capela tão bem decorada! Como, eu me perguntava, como era possível que com tanta beleza à minha volta, o pior dos velórios pudesse estar se realizando?
Uma velha ao meu lado, o pescoço ornado com enormes pérolas sujas, interrompeu rudemente os meus devaneios ao assoar o nariz. O padre voltou a falar, mas mais uma vez não consegui entender o que ele dizia. Com grande espanto vi os lábios de minha amada tremerem e uma voz responder: “Sim”. Sim? Sim? O que estava acontecendo? Por um instante, temi pela minha sanidade.
O padre não aparentava estar surpreendido com o defunto falante. Olhou para um sujeito que se portava irritantemente ao lado do corpo e lhe perguntou: “Aceita-a como sua esposa, até que a morte os separe?” Ele também disse sim.
A velhinha ao meu lado tentava estancar as lágrimas; virou-se pra mim e comentou: que belo casal, que bela cerimônia! Sim, respondi ou pensei ou os dois: sim, realmente é um belo velório.
Tão belo que intolerável. Pedi licença e saí da capela. Escorreguei na escada e quase me espatifei no chão. Fazia um frio desgraçado, acho que já disse. Olhei para o céu e procurei por deus. De repente, vi pequenos pontos brancos se desgarrando do escuro da noite e tive a sensação que as estrelas caiam em minha direção. Por reflexo, levantei os braços na estúpida tentativa de proteger o rosto.
Era apenas a neve que caía.