


Meu isqueiro com garantia de uma vida inteira se recusa a acender. O homem sentado à minha frente oferece fósforos. Em silêncio, aceito, acendo e devolvo. Ele diz qualquer coisa sobre os efeitos nocivos do cigarro e empurra um cinzeiro em forma de casa para o meu lado da mesa. Ei, não se preocupe doutor, nós temos garantia de uma vida inteira. Jogo as cinzas pela chaminé do casebre. Minha voz sai com a fumaça:
"Hoje não fui visitar o túmulo de mamãe. Há anos compro lírios, às vezes orquídeas, e estaciono meu carro perto do portão principal do cemitério. Caminho pela grama, cantarolando Bach, ignorando a placa de proibição. Não de cantarolar, mas de pisar a grama, você entende, não é? Ajoelho perto da lápide de mamãe, coloco as flores no chão e conto as novidades, mesmo sabendo que ela não as ouvirá. Acendo um cigarro e caminho de volta pro carro, sempre pela grama, derrubando as cinzas, é, cinzas às cinzas... Todo maldito dia três de maio! E hoje fui ao jogo de futebol", paro, solto uma risada nervosa, continuo: "Você entende, não é? Quero dizer, o tempo, você sabe, o tempo tira a importância das coisas o tempo inteiro. Quando mamãe morreu, eu chorei. Passei anos e anos cantarolando Bach e pisando a indecente grama sobre os mortos. Essa maldita grama onde não se deve sequer pisar! Lama seria mais adequado, você sabe não sabe doutor? as letras da alma pertencem à lama”, paro novamente, agora para tossir. “Eu amei mamãe e morri um pouco em cada maldito três de maio, mas hoje fui ao jogo de futebol... O que é mamãe pra mim agora? Uma maldita lápide largada num cemitério afastado, cercada de grama aparada, bonitinha, onde pisamos sobre os mortos mas não podemos pisar sobre a grama! Uma porra duma lápide fria e imunda, onde se lê, com algum esforço, o nome de mamãe... Todo três de maio, olho para ela e está sempre lá, o nome, nunca muda... mas não foi somente por isso que não fui ao cemitério hoje, você entende, não é?"
O homem à minha frente deixa sua imobilidade para assentir com a cabeça.
"Foi a rotina. A maldita rotina. Todo ano era a mesma coisa; não suporto acordar de manhã e perceber que o que irei fazer, já fiz ontem, e anteontem, e toda a maldita semana. Por isso sou um escritor. Não suporto a rotina, ela nos arranca a personalidade, nos mata deixando-nos vivos... Você entende, não é? Claro, você entende tudo...
Fico quieto. É a última vez que venho aqui, penso. O homem à minha frente coça a barba com um gesto discreto e instintivo. Fala:
"Hoje não é três de maio."
Dois amigos sentados na varanda de um apartamento. Na rua, uma pequena multidão carrega faixas e faz um barulho dos diabos.
- O que é isso?
- Você não tá sabendo? O pessoal do bairro organizou uma passeata contra a guerra ao Iraque.
- Mas que que o pessoal do bairro tem a ver com a guerra ao Iraque?
- Não precisa ter algo a ver. Basta ser pacifista.
- Ah.
- Ei, aquele ali com o megafone exigindo paz no mundo não é o Robertão?
- Que Robertão?
- Aquele que espancava a mãe paralítica. Lembra? Um dia ele vendeu a cadeira de rodas pra comprar cocaína e deixou a velha no quintal da casa por dois dias. Você passava na rua e via a velha ao lado dos anões de jardim. Chegaram a chamar a polícia.
- Claro que lembro. E aquela lá, não é a Renata?
- Vadia. Deu pra todo mundo do bairro. Fez dezenove abortos.
- Dizem que uma vez ela jogou o feto na privada e deu descarga.
- Não duvido.
- Olha o Sampaio!
- Onde, onde?
- Segurando a faixa Bush Assassino!
- Que cara de pau, o Sampaio!
- Quantos mendigos ele já deve ter queimado? Uns quinze?
- Pelo menos. Mas o negócio dele é pegar moleque de rua. Queimam que é uma beleza. Foi o ele que disse.
- Ó só quem tá com ele!
- Quem que é?
- A Carol.
- Diga-me com quem andas e te direi quem és.
- Ouvi dizer que ela deu um trambique na empresa da família. Tomou tudo de todo mundo. E depois internou o pai num asilo de indigentes lá em Minas Gerais.
- Nunca gostei dela. Desde criança ela era escrota.
- Mas que barulho infernal eles fazem quando ligam a câmera de tevê.
- Inacreditável. Não dá pra ficar aqui na varanda.
- Malditos pacifistas. Vamos entrar e jogar gamão.
- Vamos.
Alguém digitou no Google Encontrar o livro Morte na Praça do Dalton Trevisan, e acabou caindo aqui. Imagino a decepção do sujeito. O Google não só não encontrou o livro como lhe mostrou o link para o meu blog.
É engraçado essas pessoas que falam com sistemas de busca como se estivessem falando com um robô de filme de ficção científica dos anos cinquenta. Ah, se o Google pudesse realmente atender os nossos pedidos.
Criar mulher com corpo da Malu Mader e cérebro da Hannah Arendt
Depositar dez milhões, quatrocentos e trinta e dois mil dólares e cinquenta e sete centavos em minha conta
Explodir José Wilker
“Pense num garoto de 13 anos sentado na sala de estar de sua residência estudando matemática com os fones de ouvido do walkman ligados ou então assistindo à televisão. Está usufruindo as liberdades duramente conquistadas ao longo de séculos pela aliança do gênio filosófico e do heroísmo político, consagrada pelo sangue dos mártires. Goza de conforto e de ócio, graças à economia com a maior produtividade que a história já conheceu; a ciência penetrou nos segredos da natureza para lhe proporcionar som eletrônico e reprodução de imagem que imita a vida. E, afinal, em que culminou o progresso? Uma criança púbere cujo corpo vibra com ritmos orgásmicos, cujos sentimentos se articulam em hinos às alegrias do onanismo ou à morte dos pais, cuja ambição é ficar famoso e rico imitando a rainha das marafonas, que faz a música. Resumindo, a vida se transformou numa interminável fantasia masturbatória pré-empacotada.
“(...) Os estudantes acabarão esquecendo esta música ou pelo menos a exclusiva paixão por ela. Mas o farão da mesma maneira como Freud dizia que os homens aceitam o princípio da realidade: como algo impiedoso, cruel e basicamente sem atrativos, mera necessidade. Estudarão assiduamente economia, medicina, engenharia ou direito, deixando cair a roupa de Michael Jackson para mostrar por baixo um terno completo. Querem vencer na vida e viver com conforto. A vida presente, no entanto, é tão vazia e tão falsa como aquela que abandonaram. A solução não reside em remédios fáceis e cálculos imprecisos. É o que a ‘educação liberal’ pretende mostrar. Mas, enquanto tiverem o walkman ligado, não conseguirão ouvir o que a grande tradição tem a dizer. De resto, quando retirarem, após tão demorado uso, os fones dos ouvidos, vão descobrir que estão surdos.”
Allan Bloom, O Declínio da Cultura Ocidental.
The man that hath no music in himself,
Nor is not moved with concord of sweet sounds,
Is fit for treasons, stratagems and spoils;
The motions of his spirit are dull as night
And his affections dark as Erebus:
Let no such man be trusted. Mark the music.
Shakespeare, O Mercador de Veneza.
Meu nariz é tão grande que quando respiro fundo as pessoas ao meu redor sentem falta de ar. Podiam ter me apelidado de napa, cyrano, peixe-espada. Mas o fato é que nunca tive apelido. Sempre fui chamado pelo meu nome, sempre fui apenas eu mesmo, completa e amargamente eu mesmo. Mas não é bem disso que eu queria falar. Estava pensando era no Aleijadinho. Em como é engraçado o nosso maior escultor se chamar Aleijadinho. Imagino se Homero e Beethoven fossem brasileiros. Seriam o Ceguinho e o Surdinho ou, como eu, escapariam do apelido?
Em algum lugar, não sei bem onde, vive um velho chamado Nabu.
Nabu sabe o que é o homem, o que é a vida e o que é deus.
Nabu considera seus conhecimentos uma desgraça. Uma doença repulsiva. A mais negra das pestes. Por isso fugiu do contato com os homens.
Nabu escreveu numa folha de bananeira:
“Nem sempre os ignorantes almejam a sabedoria, mas os verdadeiramente sábios sempre almejam a ignorância”.
Nabu quer sua ignorância de volta.
Nabu sabe que só a morte pode livrá-lo do que sabe.
Nabu sabe tudo, tem em sua mente todos os dados do problema, conhece cada variável da equação; ainda assim, não consegue resolver a conta.
Nabu não sabe o que fazer.
Nabu passa o dia a observar o mar e à noite dorme numa pequena cama de palha.
Às vezes sonha que é o sucessor de deus e acorda chorando.
Há uma verdadeira preciosidade nos DVDs d’A Vida Como Ela É. Não falo da Malu Mader. Nem da Cláudia Abreu. Nem da Gabriela Duarte. Nem da Giulia Gam. (embora, certamente, elas sejam sensacionais). Falo da entrevista que Otto Lara Resende fez com Nelson Rodrigues em 1977. Lamentavelmente ela foi picotada pela Globo, que preferiu incluir um documentário com a Glória Maria a incluir a entrevista completa. Deve ser o tal padrão Globo de qualidade (dove sia? nessun lo sa).
De qualquer forma, em meia hora de entrevista há mais graça e inteligência do que nas vinte e quatro horas diárias de qualquer canal televisivo (de tv aberta, cabo, o que for) de hoje em dia.
Nelson Rodrigues estava com 65 anos, recém-recuperado de uma doença que o deixara quinze dias em coma. No início da entrevista, relembra que anos atrás, quando também estivera muito doente, um jornalista da Última Hora lhe perguntou no “leito de morte” quais seriam suas últimas palavras.
Ele conta que. Não, esperem. Antes ele diz uma frase que preciso citar: “O homem só não anda de quatro porque morre”. É uma frase inteligente. Estúpida, porque vê qualidade numa coisa intrinsecamente detestável, mas inteligente. Agora sim, às últimas palavras:
“No momento em que todo sujeito não faz pose, ouviu?, porque na hora de morrer o sujeito está atribuladíssimo com a própria morte, e eu também sem fazer a menor pose, ouviu?, e achando que ia morrer, eu disse o que seriam as minhas últimas palavras: o Marx é uma besta.”
O Otto comenta: “No fundo, nós vivemos a cada dia, desde que nascemos, tentando dizer as últimas palavras. Dizer as palavras essenciais, dizer alguma coisa, balbuciar. O que é a arte senão essa necessidade de dizer as últimas palavras?”
Bonitinho e nada ordinário esse Otto. Mais pra frente eles conversam sobre os jovens, que Nelson Rodrigues considera “cretinos fundamentais”. Ele diz: “Aos 18 anos o sujeito não sabe como se diz a uma mulher boa noite. Eu era de uma ignorância enciclopédica. Em matéria de amor e de tudo o mais.”
E logo depois: “A razão é um bem laborioso, dilacerado, conquista espiritual. É uma conquista espiritual que o sujeito leva meio século, ouviu?, para ter. Não se improvisa a razão.”
Eles discutem acaloradamente sobre o valor da juventude e Otto apazigua: “Nós estamos numa conversa e não numa competição, e longe de mim pretender te dar uma chave de rim ou ganhar discussão. Porque da discussão não nasce a luz, nascem os perdigotos.”
Fast foward.
Nelson Rodrigues: “E qual o maior acontecimento do século XX? É a rebelião dos cretinos fundamentais. Antes, Otto, o cretino fundamental raspava a parede da sua humildade e na consciência de sua inépcia, ouviu?, mas agora... e agora conseguiram finalmente pela superioridade numérica, porque para cada um gênio há dez milhões de imbecis, você sabe disso.”
Fast foward de novo.
Otto: “Você acha que essa capacidade de apaixonar-se acompanha a gente até o túmulo?”
Nelson: “Até o túmulo, exatamente. Até o Gates, aos oitenta e tantos anos, amou uma menina de 19. Se ele amasse uma senhora de oitenta e tantos anos, isso seria abominável”.
Pretty funny, hã? Só a entrevista vale os oitenta e tantos reais dos DVDs. E ainda tem a Malu Mader, a Cláudia Abreu...
- Você gosta dela, não?
- Gosto. Gosto muito.
- E vocês estão se dando bem?
- Olha, estamos juntos há seis meses e nunca brigamos. Ela ri das minhas piadas, eu a ajudo a lavar louça, transamos todos os dias.
- Tirando a parte das piadas e da louça, parece bom.
- Vou ser sincero com você. Eu nunca estive tão feliz antes.
- Nunca esteve tão feliz antes? Meu deus, o que você está me dizendo? Isso é terrivelmente perigoso.
- Eu sei, eu sei. Às vezes fico preocupado comigo.
- Preocupado? Você devia estar em pânico. Felicidade é a pior coisa que pode acontecer na vida de alguém.
- Pode ser. Mas nesta vida os melhores queijos estão dentro de ratoeiras. Não tem jeito.
Assisti a Hollywood Ending. What can one say but... Woody Allen?
Relativismo é filosofia de pessoas relativamente idiotas.
I don't know what they have to say,
it makes no difference anyway,
whatever it is, I'm against it.
No matter what it is, or who commenced it,
I'm against it.
Your proposition may be good,
but let's have one thing understood,
whatever it is, I'm against it.
And even when you've changed it or condensed it,
I'm against it.
Alguém aí lembra do seriado Super-herói americano, que passava no SBT? O super-herói do título era um professor de segundo grau que, certo dia, encontra pela primeira vez extraterrestres fora da sala de aula. Não se sabe por que diabos, os pequenos homens verdes vão com a cara do professor e lhe oferecem uma roupa de presente. Claro que não uma roupa normal. Ninguém viaja sete milhões de anos-luz para dar uma roupa normal de presente. A roupa é mágica. Dá superpoderes ao professor. Se você tem superpoderes, sabe que não é nada fácil aprender a usá-los. Por isso o professor também recebe um manual. Ele perde o manual. Passa então a voar trombando em outdoors e a cometer outras trapalhadas, enquanto tenta combater o mal e a injustiça.
Eu desci a Terra em 1974 e ainda não aprendi a viver direito. Também perdi o meu manual. Seu título era: Como se comportar durante sua infeliz vida no Planeta Terra. Alguém aí ainda o tem? Poderia me enviar uma cópia?
Agora as escolas são obrigadas a ensinar (ou o que quer que elas façam dentro das salas de aula) cultura afro-brasileira. Eu te digo uma coisa, meu caro. Cultura afro, na minha escola, só afro-dite.
Dois dvds. Claudio Abbado regendo o Requiem de Mozart e Claudio Abbado regendo a segunda e a quinta sinfonias de Beethoven. Música fantástica, orquestra (Filarmônica de Berlim) fantástica, interpretação fantástica. Mas fiquei deprimido. Ao reger o requiem em 99, Abbado era um sujeito forte e saudável. Ao reger as sinfonias em 2001, um velhinho calvo e acabado.
Um dia a gente acorda e nosso corpo está podre. A velhice é uma coisa terrível. E só com sorte se chega lá.
"O que romancistas, compositores, cantores têm em comum é a alma a quem seu apelo é lançado, seja ela fértil ou estéril, cheia ou vazia, e que a alma saiba alguma coisa, sinta alguma coisa, ame alguma coisa.
"Em nosso mundo, parece que, tão logo surja uma necessidade clara, ela é satisfeita de modo falso. Torna-se uma nova oportunidade para exploração. Sabemos que isto é verdade em todos os níveis. Começando nas instâncias triviais, não nos vendem maçãs de verdade, sorvetes autênticos, nos vendem a idéia de uma maçã, a memória de um sorvete. A maioria das pessoas compra a idéia de um jornal por 15 centavos. Em outros níveis, ouvem a idéia da música nos elevadores. Na política, são obsequiadas com idéias de honra, patriotismo; na lei, as sombras da justiça. Os meios de comunicação oferecem idéias frágeis de ligações humanas, os filmes produzem espectros de amor e paixão. Assim existem empresários, montadores, atores, pintores e escritores que oferecem, em variados formatos, a mais apurada recordação, o fantasma da arte. Muitos artistas contemporâneos parecem sentir que basta atirar pérolas artificiais para porcos autênticos. É assim que o mundo moderno vai ao encontro das necessidades humanas mais profundas - por meio da fraude, da demagogia, do oportunismo e da exploração.
"A coisa autêntica terá que ser preservada por pequenas minorias até que tais abusos, provavelmente inevitáveis nas condições atuais da nossa civilização, sejam afastados por um crescimento da estabilidade e pelo desenvolvimento do gosto e do discernimento. Digo ´afastados´, mas sei que este aprimoramento espetacular pode nunca vir a ocorrer.
"Não sou um profeta, apenas um observador. Observo, por exemplo, a avidez de vastas platéias, que se exprimem em tempestades de aplausos no instante em que a última nota de um concerto foi executada. Ouve-se isso no rádio. A multidão no Mozarteum em Salzburg ou Londres ou Nova York mal pode esperar para detonar seus aplausos, urrando num entusiasmo primitivo, fazendo que à harmonia da orquestra siga-se uma manifestação caótica. Esta explosão, uma grande descarga humana de tudo ao mesmo tempo, o desempenho da platéia após o desempenho dos músicos, é um ciclone de liberação coletiva. Estão berrando, com voz rouca, 'Sim, é isso o que todos nós queremos!'
"Esses urros e uivos são nossa gratidão por Aida, uma moça que jamais pôs os pés no Boulevard Michigan. Por Otelo, um negro angustiado vestido de brocados e cantando em italiano, totalmente estranho para nós, exceto pela música e pela humanidade. O desejo está aí, e a comoção atinge muitos milhares de pessoas. O barulho exprime um desejo de ter essas coisas estranhas, e de lhes prestar homenagem. Uma donzela etíope, um general veneziano ciumento, interpretados por um compositor do século 19 e apresentados por cantores italianos podem possuir uma realidade maior para as pessoas do bairro de Ravenswood, em Chicago, do que as próprias ruas de Chicago. E é imperativo que essas pessoas tenham uma realidade mais bela do que essas ruas - algo que não seja prático, algo gratuito, algo que não engane, explore, ou acrescente mais fantasmas a uma vida já repleta de fantasmas, seduções e engodos."
Saul Bellow, Tudo Faz Sentido.
"(...) vou revelar-me como realmente sou: um quadrado. Acredito em coisas que são repudiadas pelos maiores intelectos de nossos dias. Creio que a ordem é melhor que o caos, que a criação é melhor que a destruição. Prefiro a gentileza à violência, o perdão à vingança. Acredito que a instrução humana é preferível à ignorância e tenho certeza de que a simpatia humana é mais valiosa do que a ideologia. Creio que, apesar dos mais recentes triunfos da ciência, os homens não mudaram muito nos últimos dois mil anos e, consequentemente, temos de procurar aprender com a História. A História somos nós. Sustento ainda uma ou duas crenças mais difíceis de resumir. Por exemplo, eu creio na cortesia, ritual pelo qual evitamos ferir os sentimentos de outras pessoas na satisfação de nossos egos. E creio que não devemos esquecer que fazemos parte de um grande todo a que, por conveniência, chamamos natureza. Todas as coisas vivas são nossos irmãos e irmãs. Acima de tudo, acredito em indivíduos dotados de gênio por Deus e dou valor à sociedade que torna sua existência possível."
Sir Kenneth Clark, Civilização.
Um número surpreendente de aristocratas marcou a história do jazz. Duke Ellington. Count Basie. Rei Charles.
É inverossímil, é inadmissível, é verdade. Os estabelecimentos comerciais de Sumpaulo estão proibidos de abrir suas portas aos domingos, a não ser que tenham permissão do sindicato. É a máfia institucionalizada. Quer vender banana, meu filho? Tem que falar com o Corleone, ou melhor, com o Da Silva ali. Os sindicalistas afirmam que desta maneira conseguirão criar 80 mil novos empregos. 80 mil novos palhaços. O que eles não contavam era com o fechamento do Circo Garcia.
Hoje vi a Feiticeira. Não a Elizabeth Montgomery, um taco, pena que já morta. A feiticeira brasileira, aquela que é marca de catuaba e participa da casa dos autistas. Estava de cama há três dias, levemente febril, tosse, dor de garganta, o diabo. Estou falando de mim, não da Feiticeira. Precisava sair de casa, nem que por cinco minutos pra ir até a esquina. Fui ao supermercado comprar chocolate e vi a Feiticeira. Estou acostumado a ver coisas vulgares. Impossível não estar, morando em São Paulo, capital da vulgaridade. Imito Tamino e atravesso suas ruas assobiando Mozart. Boa parte das coisas vulgares é urânio comum. Melhor manter distância, mas não serve pra bomba atômica. A Feiticeira é urânio enriquecido. Tirei da carteira uma foto da Audrey Hepburn e a segurei como se eu fosse um caça-vampiro e a foto uma cruz. A Feiticeira urrou de dor e caiu sobre a prateleira de detergentes. Saí correndo e voltei pra cama. Abençoada febre, abençoada tosse, abençoada dor de garganta.
"A presunção é doença natural e inata em nós. De todas as criaturas, a mais frágil e miserável é o homem, mas ao mesmo tempo, como diz Plínio, a mais orgulhosa. Ele se sente e se vê colocado na lama e no esterco do mundo, amarrado, pregado à pior parte do universo, à mais morta, à mais afastada dos céus, junto com os animais da mais baixa categoria das três existentes, e ei-lo que pela imaginação se alça acima da órbita da lua e supõe o céu a seus pés!"
Montaigne, Apologia de Raymond Sebond.
Namoradas são absolutamente essenciais por causa de suas bolsas. Sem elas, namoradas e bolsas, eu teria que andar por aí carregando drops, cigarro, isqueiro, carteira, celular, agenda, bloco de anotação, chave de carro, chave de casa, etc. Não é possível viver uma vida feliz com tantas coisas nos bolsos da calça e da camisa.
Long time no see, hã? Passei dez dias na praia, longe de internet e tv. Minto. No dia primeiro assisti a um pedaço da posse do Lula. Bebendo champagne. Um provérbio francês diz que entre a calamidade e a catástrofe há sempre espaço para uma taça de champagne. Bebi oito.