É Preciso Formar-se Para Enformar
Quando o patrão explora o trabalhador, é capitalismo. Quando o governo explora o patrão e o trabalhador, é socialismo. Quando o trabalhador explora o patrão, o governo e o trabalhor, é sindicalismo. Quando o vagabundo explora o patrão, o governo, o trabalhador e o vagabundo, é sindicalismo de jornalismo.
Não sei se vocês sabem, mas até pouco tempo atrás era necessário ser formado em jornalismo pra ser jornalista. Quer dizer, na teoria. Na prática, com raras exceções, funcionava (e ainda funciona) assim: quem tem bons contatos, não precisa de diploma; quem não tem, precisa.
Um sujeito como eu, para ter a possibilidade de – talvez, um dia, quem sabe – trabalhar num jornal, tinha que pagar pra faculdade quinhentos reais por mês durante quatro anos. Ou seja, 24 mil reais. Sem falar no tempo perdido ouvindo professores de barba e bermuda e estudando para provas sobre pesquisas semiológicas de interações emissor-receptor.
Até que, em janeiro deste ano, uma juizada ajuizada deu um basta. Disse o óbvio: “A profissão de jornalista não requer qualificações profissionais específicas, indispensáveis à proteção da coletividade, diferentemente das profissões técnicas. O jornalista deve ter formação cultural sólida e diversificada, o que não se adquire apenas com a freqüência a uma faculdade, mas sim, pelo hábito da leitura e pelo próprio exercício prático da profissão.”; concluiu que a exigência do diploma era inconstitucional e um atentado à liberdade de expressão, e suspendeu-a.
Os sindicatos, claro, ficaram revoltados. Estão esperneando até agora. Hoje o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo distribuiu esta pérola por email (negritos meus):
“Sindicato inicia 2a fase da Campanha
em Defesado Jornalismo e prepara protesto
“Dando continuidade à segunda fase da Campanha em Defesa da Regulamentação Profissional, definida pela FENAJ, junto com outros 12 Sindicatos, no último dia 8, o Sindicato de São Paulo está organizando um protesto (…). A proposta é que em cada local de trabalho os jornalistas se reúnam por 15 minutos para ler um texto ou debater formas de luta para recuperar nossa regulamentação. No mesmo dia, será feita uma manifestação em frente ao prédio do Tribunal Regional Federal (na Paulista) quando tentaremos ser recebidos por seu presidente , para demonstrar nossa preocupação quanto à demora no julgamento da questão e a importância da nossa regulamentação profissional. Aguarde mais enformações sobre a manifestação.”
Não é incrível? O sujeito que escreve isso aí, o sujeito que escreve enformações, é um jornalista apto. Ele e o colunista do jornal do sindicato, um tal de Marcos Brogna. O Brogna é jornalista, o Millôr Fernandes não. O Millôr pode até fazer piadas razoáveis, mas falta-lhe o saber acadêmico; falta-lhe no rosto os perdigotos de professores fracassados e sobra-lhe na carteira o dinheiro economizado das mensalidades da faculdade que nunca cursou.
