Arquivo

Arquivo de fevereiro, 2003

É Preciso Formar-se Para Enformar

28, fevereiro, 2003 FDR Sem comentários

Quando o patrão explora o trabalhador, é capitalismo. Quando o governo explora o patrão e o trabalhador, é socialismo. Quando o trabalhador explora o patrão, o governo e o trabalhor, é sindicalismo. Quando o vagabundo explora o patrão, o governo, o trabalhador e o vagabundo, é sindicalismo de jornalismo.

Não sei se vocês sabem, mas até pouco tempo atrás era necessário ser formado em jornalismo pra ser jornalista. Quer dizer, na teoria. Na prática, com raras exceções, funcionava (e ainda funciona) assim: quem tem bons contatos, não precisa de diploma; quem não tem, precisa.

Um sujeito como eu, para ter a possibilidade de – talvez, um dia, quem sabe – trabalhar num jornal, tinha que pagar pra faculdade quinhentos reais por mês durante quatro anos. Ou seja, 24 mil reais. Sem falar no tempo perdido ouvindo professores de barba e bermuda e estudando para provas sobre pesquisas semiológicas de interações emissor-receptor.

Até que, em janeiro deste ano, uma juizada ajuizada deu um basta. Disse o óbvio: “A profissão de jornalista não requer qualificações profissionais específicas, indispensáveis à proteção da coletividade, diferentemente das profissões técnicas. O jornalista deve ter formação cultural sólida e diversificada, o que não se adquire apenas com a freqüência a uma faculdade, mas sim, pelo hábito da leitura e pelo próprio exercício prático da profissão.”; concluiu que a exigência do diploma era inconstitucional e um atentado à liberdade de expressão, e suspendeu-a.

Os sindicatos, claro, ficaram revoltados. Estão esperneando até agora. Hoje o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo distribuiu esta pérola por email (negritos meus):

“Sindicato inicia 2a fase da Campanha

em Defesado Jornalismo e prepara protesto

“Dando continuidade à segunda fase da Campanha em Defesa da Regulamentação Profissional, definida pela FENAJ, junto com outros 12 Sindicatos, no último dia 8, o Sindicato de São Paulo está organizando um protesto (…). A proposta é que em cada local de trabalho os jornalistas se reúnam por 15 minutos para ler um texto ou debater formas de luta para recuperar nossa regulamentação. No mesmo dia, será feita uma manifestação em frente ao prédio do Tribunal Regional Federal (na Paulista) quando tentaremos ser recebidos por seu presidente , para demonstrar nossa preocupação quanto à demora no julgamento da questão e a importância da nossa regulamentação profissional. Aguarde mais enformações sobre a manifestação.”

Não é incrível? O sujeito que escreve isso aí, o sujeito que escreve enformações, é um jornalista apto. Ele e o colunista do jornal do sindicato, um tal de Marcos Brogna. O Brogna é jornalista, o Millôr Fernandes não. O Millôr pode até fazer piadas razoáveis, mas falta-lhe o saber acadêmico; falta-lhe no rosto os perdigotos de professores fracassados e sobra-lhe na carteira o dinheiro economizado das mensalidades da faculdade que nunca cursou.

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Hardarik Bluhdorn, professor da USP,

27, fevereiro, 2003 FDR Sem comentários

Hardarik Bluhdorn, professor da USP, acabou de lançar a versão revisada do livro A Codificação de Informação Espacial no Alemão e no Português e no Português do Brasil – Adposições e Advérbios como Meios para Especificar Relações Estáticas. Parece piada, mas é sério. Terrivelmente sério. Imagine um sujeito desse dando aula. Não, não imagine. Deixemos pra lá os acadêmicos e suas inteligências sórdidas. Deixemos pra lá todos esses malditos gênios da burrice com suas teses e ensaios e pesquisas e seminários. I want life, I want laughter, I want gaiety! I want to ha-cha-cha-cha!

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Frase que ouvi outro dia

26, fevereiro, 2003 FDR Sem comentários

Frase que ouvi outro dia sobre o Michael Jackson:

Only in America can you be born a black man and end up a white woman.

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Uma Fantasia

26, fevereiro, 2003 FDR Sem comentários

Você diz que eu deveria trabalhar, que o trabalho ocuparia o meu tempo. Como se eu quisesse que algo além de mim ocupasse o meu tempo… Talvez, talvez algumas coisas… talvez o trabalho me desse dinheiro para eu ter algumas coisas… para eu viajar, ver as cidades que amo… mas as cidades que amo estão tomadas por gente vulgar, barulhenta… é terrível… seria como ver a mulher mais bonita, seria como ver a mulher que mais amei abraçada a marinheiros, abraçada a marinheiros e gigolôs, todos bêbados e rindo… E o que eu compraria com o dinheiro? A tevê não é feita pra mim, os filmes não são feitos pra mim, os shows, os microondas, os carros, as geladeiras de duas portas, que me importa tudo isso? Mesmo essa cidade, essa cidade que parecia minha, bastava eu sentar no banco da praça em frente pra me sentir no local exato do universo onde eu deveria estar… em casa, para eu me sentir em casa… mas hoje vejo tantos rostos sujos e repulsivos… é como se a casa onde morei durante toda minha vida tivesse sido aos poucos tomada por estranhos, que mudam os quadros, pintam as paredes, derrubam o jardim… há aqui e ali um pedacinho de memória, um pequeno vaso que é só meu, mas a flor está seca. Restam-me os livros, você diz. Ficará espantada se eu dizer que não leio mais? Eu daria tudo, eu daria tudo para encontrar uma página, uma linha, que me dissesse algo novo. Algo que eu não tenha ainda pensado. Algo que me mude. Que me mostre que a vida não é esse vazio, esse inútil interlúdio do nada. Ah, eu não me encaixo nesse mundo. O quebra-cabeça da vida está completo sem a minha peça. O moinho gira sozinho, eu não sou necessário nem a mim mesmo. Sente-se aqui. Vou tocar uma música pra você. (toca um trecho da Fantasia K.397, de Mozart). Não é esplêndida? Não é irresistivelmente bela e melancólica? E no entanto Mozart a abandonou. Deixou-a inacabada. Nos meus melhores momentos, quando me sinto feliz, é assim que vejo a vida. Bela, levemente triste como toda verdadeira beleza tem que ser, mas inacabada. Uma fantasia inacabada.

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“Hugo Chávez – um personagem

25, fevereiro, 2003 FDR Sem comentários

“Hugo Chávez – um personagem na metade do caminho entre o circo e o manicômio, um filho secreto dos amores ocultos entre Cantinflas e Che Guevara.” Carlos Alberto Montaner, definindo perfeitamente o idiota da Venezuela.

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Os pacifistas defendem o direito

24, fevereiro, 2003 FDR Sem comentários

Os pacifistas defendem o direito de ditadores e terroristas de massacrar a população de seus países e de explodir algumas cidades em Israel ou nos Estados Unidos. Tudo pacificamente, é claro.

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A verdade, a áspera verdade,

24, fevereiro, 2003 FDR 1 comentário

A verdade, a áspera verdade, é que o povo iraquiano não compartilha dos nobres sentimentos dos pacifistas. O povo iraquiano quer que os Estados Unidos e seus aliados explodam Sarney Hussein. Não é terrível? Povo miserável e ignorante.

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A Grande Guerra

22, fevereiro, 2003 FDR 3 comentários

A guerra ao Iraque está provocando uma batalha de outra guerra, muito mais importante, que se arrasta desde que o primeiro macaco ficou ereto e olhou com um sorrisinho de desdém seus semelhantes de quatro: a guerra da inteligência contra a burrice.

Os burros estão em maior número, sempre estiveram. E por serem muito parecidos uns com os outros, conseguem se organizar com enorme facilidade. Fazem passeatas, redigem manifestos a 32 mãos (that’s creepy!), fundam instituições, repassam emails, distribuem folhetos, organizam fóruns, publicam jornais, aparecem na tevê, etc.

Já os inteligentes são muito diferentes entre si. Só podem se reunir pra beber uísque. Se tentam tomar uma decisão, são capazes de ficar até o fim dos tempos discutindo. Há aquele inteligente desajeitado, que esquece seus compromissos, sai de casa com uma meia diferente da outra, tropeça no meio-fio. Há aquele outro que nem sair de casa sai. Passa os dias defendendo sua biblioteca e seu jardim como um cowboy defendia seu pequeno pedaço de terra no velho oeste. Há aqueles que estão no laboratório, cercado de cálculos, aparelhos e livros, e não lêem jornal há cerca de onze anos. Quando ouvem falar em guerra ao Iraque, acham que é a guerra de 1990.

Há, claro, os inteligentes práticos, sociáveis, preocupados em vencer cada uma das batalhas contra os burros. Mas são a minoria da minoria. Mesmo assim, conseguem vitórias importantíssimas.

Durante boa parte da história, os burros dominaram o sistema econômico e os inteligentes dominaram as artes. Recentemente houve uma inversão. Os inteligentes tomaram a área econômica no final do século XIX – sem dúvida, um triunfo memorável. É verdade que houve percalços e algumas posições foram perdidas; também é verdade que a União Soviética, a China e a Alemanha nazista se mostraram gigantescos bunkers da burrice. Mas uma área considerável permaneceu com os inteligentes e a miséria material foi extirpada de vários países. O problema é que descuidaram da cultura. Em meados do século XX, os burros, muito inteligentemente, atacaram de surpresa a música, a pintura, a literatura, etc. Foi devastador.

Mas a guerra ao Iraque. Enquanto burros do mundo inteiro zurram e pastam na frente de câmeras de tevê com cartazes xingando Bush, Israel e os Estados Unidos, os inteligentes mais práticos pensam em como conduzir o Iraque depois que o bigodudo genocida virar fumacinha. Para o bem dos burros de todo o mundo.

(Aliás, esse é um fato curioso dessa guerra. Quando os inteligentes vencem uma batalha, os burros também saem vitoriosos. Quando os burros vencem, todo mundo sai derrotado).

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“Pra mim, um dos grandes

21, fevereiro, 2003 FDR 1 comentário

“Pra mim, um dos grandes mistérios é como uma mulher é capaz de derramar cera quente nas pernas, arrancar os pêlos pelas raízes e ter medo de uma aranha.” Jerry Seinfeld.

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O que vou escrever agora

20, fevereiro, 2003 FDR 1 comentário

O que vou escrever agora é inverossímil, eu sei, eu sei. Mas lembrem-se que a verdade, às vezes, pode ser altamente inverossímil. Ou baixamente.

Três Sujeitos

O sujeito recita um soneto de Camões para a garota amada. Esse aqui, por exemplo:

Quem vê, Senhora, claro e manifesto

O lindo ser de vossos olhos belos,

Se não perder a vista só em vê-los,

Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto,

Mas eu, por de vantagem merecê-los,

Dei mais a vida e alma por querê-los,

Donde já me não fica mais de resto.

Assi que a vida e alma e esperança

E tudo quanto tenho, tudo é vosso,

E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança

O dar-vos quanto tenho e quanto posso,

Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.

A garota sente náuseas. Nunca ouviu tantos insultos juntos antes. Como ousa, o canalha? Só falta agora atormentá-la com uma serenata! Arrastá-la para um jantar à luz de velas! Abrir-lhe a porta do carro! Ó meu deus! Abrir-lhe a porta do carro! Intolerável!

O sujeito então lhe chama de vagabunda. Dá-lhe um bofetão. Proíbe-a de ver as amigas e obriga-a a colocar silicone. Existe afrodisíaco melhor? Ela se apaixona perdidamente.

Outro sujeito. Almoça com os pais todos os dias. Oferece-lhes presentes. Sempre foi excelente aluno, nunca roubou o carro, nunca vomitou pela sala; agora é trabalhador honesto, bem casado. Um trouxa! Um efeminado! Nem de futebol gosta! Imagine só, tem dinheiro pra frequentar os melhores restaurantes e vem almoçar com os pais! Se esconde do mundo! Um mané! Os pais o desprezam.

O sujeito então consegue um cargo no governo. Sai na Caras. Compra apartamento em Miami. Ameaça colocar a mãe num asilo. Grita com empregados, arranja uma amante cheia de seios.

Os pais conversam entre si: quem diria, hein? Gostava de ópera, publicava livros de poesia! Quem diria que esse idiota ia ser alguma coisa na vida! Que orgulho! Que orgulho! Onde está o testamento? Temos que incluí-lo.

Mais um sujeito. Violinista amador e professor de filosofia. Quando sai às ruas, as crianças atacam pedras em sua cabeça e as mulheres cochicham nas janelas: “Aquele ali ouve Wagner. Não é Fagner não. É Va-gue-ner. E não só isso. Ouvi dizer que lê Tolstoi. Não é uma vergonha, um homem dessa idade perdendo tempo com coisas tão inúteis?”

O sujeito passa a viver na mais completa solidão. Pára de tomar banho e deixa a barba crescer. Chega até a porta da insanidade e toca a campainha; consegue dar meia volta antes de ser atendido. É preciso manter a cabeça erguida, diz a si mesmo. Faz um rápido telefonema e dois dias depois recebe um enorme pacote pelo correio. Abre. Cds da Kelly Key, Roberto Carlos, Andrea Bocelli. Ouve-os a todo volume. Na livraria, adquire a coleção completa do Paulo Coelho e do Sidney Sheldon. Em pouco tempo, lê tudo, decora capítulos, escreve ensaios.

Passa a ser admirado no bairro. É cumprimentado efusivamente nas ruas. As mulheres abrem-lhe – primeiramente – sorrisos. As crianças pedem-lhe autógrafo.

*

Vamos lá, pessoal. Vamos exercitar um poquinho essa imaginação aí. Fechem os olhos. Respirem fundo. Silêncio, hein? Silêncio absoluto. (…). Agora pensem num país. Num país onde a educação, a gentileza e o bom gosto são vistos com maus olhos. Num país onde a malandragem, a ignorância e o exibicionismo são valores valorizados. (…). Pensaram? Todo mundo pensou? Agora abram lentamente os olhos.

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