


Não tenho dúvida. Se um sujeito saísse por aí carregando cartazes favoráveis à guerra e chamando Saddam, Fidel e Arafat de assassinos, seria generosamente espancado na primeira esquina por um grupo de pacifistas.
Minha lista de links estava tão grande que resolvi passá-la pra outra página. Deixei apenas seis links aqui, que mudarei de tempos em tempos, em sistema de rodízio.
É preciso ter bigode pra ser um grande ditador. E quanto mais ridículo o bigode, mais canalha é o ditador. Vejam os casos de Hitler, Stalin e Saddam. Mussolini não tinha bigode e foi enforcado em praça pública. É verdade que Mao também não tinha. Mas ele era chinês.
Quando, em 1922, perguntaram a George Mallory por que diabos ele queria escalar o Everest, o grande explorador britânico respondeu: porque ele está lá. É assim que me sinto em relação à vida. Se me perguntassem por que quero viver, responderia: bem, já que a vida está aqui e eu também...
Mallory se deu mal. Congelou a vinte sete mil pés de altitude. Foi longe, se levarmos em conta que estava minimamente equipado, com roupas inadequadas, um ou outro machado, corda, tanques de oxigênio e praticamente nenhum kit de sobrevivência.
Meu equipamento também não é lá grande coisa. Bochechas, clavículas, vesícula biliar...
Pensando bem, entrei numa baita fria.
No domingo, a Folha de S. Paulo publicou na capa uma foto enorme de uma criancinha inteira queimada, sob a manchete “Tropas dos EUA avançam para Bagdá, e bombas atingem civis”. Difícil encontrar maneira mais elegante e sutil de gritar que os Estados Unidos são uns filhos da puta. Para jornalistas e faculdades de jornalismo, é assim que se deve ser imparcial.
No dia seguinte, a Folha admitiu, numa notinha, que as queimaduras eram anteriores à guerra.
Conheço dois tipos de pacifista. O primeiro vive no mundo da fantasia, pra que brigar, poxa vida? Vamos todos sentar em círculos, nos dar as mãos e cantar All you need is love... Pessoal simpático, mas infantil, incapaz de compreender a complexidade do mundo.
O outro tipo é o dos pacifistas guerreiros. Fazem baderna, quebram vidraças, rasgam bandeiras. Não hesitam em difamar aqueles que pensam diferentemente deles e em incentivar o ódio aos Estados Unidos e Israel. Tentam esconder a intolerância, a agressividade e o ressentimento inerentes às suas almas de merda debaixo do tapete branco do pacifismo. Paz, Porra!
DUDE
Walter, you can't do that. These
guys're like me, they're pacificists.
Smokey was a conscientious objector.
WALTER
You know Dude, I myself dabbled with
pacifism at one point. Not in Nam,
of course--
DUDE
And you know Smokey has emotional
problems!
WALTER
You mean--beyond pacifism?
Entre uma pipoca e outra, ela comentou: A guerra é tão bonita. Pena que mata.
Quando os primeiros tiros da artilharia anti-aérea iraquiana soaram em surround, espetaculares e inofensivos na sala de tevê, eu e minha namorada paramos de conversar e apertamos instintivamente as mãos. Como nós, milhões de casais pelo mundo, sentados em seus sofás, bebendo coca-cola e olhando a guerra ao vivo, aturdidos, hipnotizados. Minha namorada tinha lágrimas nos olhos, não conseguia deixar de pensar na população iraquiana, antes atormentada por um ditador sanguinário, agora sob uma terrível tormenta de bombas. Que barulho triste, comentou. Abracei-a e mais uma vez ficamos quietos. Como réus na entrada do tribunal, não tínhamos, não temos, nada a declarar.
Tudo parecendo perecível como tudo sempre acaba parecendo.
Venha você também viver no planeta Terra! A vida nunca esteve tão barata! Deus enlouqueceu! Experimente uma incalculável quantidade de movimentos e mais de mil tipos de sentimentos diferentes.
“Eu vivi no Planeta Terra e gostei muito.”
“Eu nunca havia experimentado nada igual. É impressionante!”
“Um barato... uma coisa do outro mundo!”
Sinta as alegrias da infância, as descobertas da juventude, os prazeres da maturidade, as dificuldades da velhice. Você irá rir e chorar, sofrer e amar! Ódio, prazer, melancolia, ciúmes, depressão, euforia! Calor e frio! A maior variedade de sensações de todo o Universo! Escolha agora mesmo a sua raça predileta e decida onde nascer entre cinco continentes distintos e milhares de ilhas! Lugares dos mais variados estilos com cenários altamente realistas: montanhas, praias, desertos, tudo coberto por um céu cheio de estrelas! Impressionante! Seja anão na maravilhosa ilha de Madagascar! Um negro da tribo dos Hotentotes! Um caucasiano aleijado nas Américas! São centenas de opções pra você: consulte nosso agente. Você ainda escolhe entre ser homem, mulher e mais dois sexos totalmente exclusivos! E as vantagens de viver na Terra não param por aí: graças a um dispositivo absolutamente revolucionário, você terá o famoso livre-arbítrio! Seja bom, seja mau, faça caridades, exploda um prédio público: só depende de você! Quanto você pagaria por isso? Não responda ainda: nossa promoção de começo de século garante a você os primeiros 20 anos totalmente gratuitos! Caso você venha a falecer durante esse período, não se preocupe: nossa empresa lhe dará uma outra vida, inteiramente de graça! Nasça, cresça, se reproduza, envelheça e morra! Incrível! Seja um simples lixeiro, um humilde pescador, um poderoso industrial, um terrorista das arábias! Faça esporte, estude História, opine sobre um sem-número de assuntos!
“Eu não sabia que existir podia ser tão emocionante!”
“Há mais coisas no Planeta Terra do que sonha nossa vã filosofia.”
“É surpreendente. Não dá pra acreditar!”
Vida no Planeta Terra. Apenas 59 dólares e noventa e nove centavos! Uma pechincha! Deus enlouqueceu! O valor da vida nunca esteve tão baixo! Você não pode perder essa oportunidade!
Vida na Terra é trazida à você por Deus Entretenimento. Porque não há vida como a de Deus.
*
Extra! Extra! Deus Entretenimento vai à falência! Dono é processado por propaganda enganosa e estelionato. A vida é um mau negócio, afirmam especialistas. Bilhões de pessoas estão abandonadas na Terra. Reportagem completa na página oito.
Quando ela acendeu o cigarro e olhou nos seus olhos, ele pensou: diabos, como pude perder essa mulher? Durante vinte anos procurara inutilmente alguém que segurasse o cigarro de forma tão elegante. Ele, que detestava cigarro, fumaça, cinzeiro, tosse e drops de menta.
- Não acha que devia parar de fumar? Li em algum lugar que faz mal.
Ela sorriu. Sem dúvida, envelhecera. Nem ela conseguira escapar aos cinzéis e ponteiros do tempo. Estava mais gorda. A pele pontilhada de rugas, pintas e marcas. As mãos e braços carregavam veias coloridas.
Mas o sorriso. O sorriso permanecera exatamente o mesmo.
Ele pensou em como foram felizes juntos, e de novo, diabos, como pude perder essa mulher?
- Mas vamos, me conte. O que fez durante todos esse anos?
Ela contou. Fizera doutorado em Paris, fora consultora de moda, trabalhara numa agência de propaganda, casara com um arquiteto. Três filhos. Ele mal ouvia. Quer dizer, ouvia a voz, a voz que já não era mais tão delicada, um pouco rouca agora, uma voz com rugas foi a definição que lhe veio à mente. Mas não distinguia as palavras. Estava ocupado demais voltando no tempo, dentro do corcel branco-um ponto seis-duas portas, olhando-a pela última vez antes de beijá-la, assim como Swann olhara Odette no livro do Proust. E depois o beijo, a viagem para Londres, o tombo que levaram no meio da pista de dança naquela noite em que, segundo costumavam cantar bêbados, inventaram o champagne.
E o sorriso. E os cigarros.
Duas horas depois trocaram um abraço afetuoso e combinaram de não esperar mais vinte anos pra se verem de novo. Ele abriu a porta do táxi e ela entrou. Apesar da garoa, ficou na calçada olhando o táxi ir embora, como se nele estivesse o sentido perdido de sua vida, ou antes, a vida que deveria ter vivido, e não viveu, a felicidade que deveria ter sido sua, e não foi.
Diabos, diabos! Como pude perder essa mulher?
Só à noite, sozinho em casa, quando releu as cartas que trocaram e as anotações de seu velho diário é que se deu conta do tamanho do seu erro. Estava lá, escrito por seu prórpio punho, a descrição minuciosa do inferno que havia sido a vida com aquela mulher. As brigas sem sentido, as crises de ciúme, as lágrimas inúteis. E as cartas dela, repletas de grosserias e acusações absurdas.
Naquele táxi, que grande confusão, não ia a felicidade, ia uma louca. Ele pensou como o tempo podia não só curar feridas, mas também tornar cicatrizes brilhantes e bonitas. A memória é um biógrafo senil. Prometeu nunca mais se esquecer disso.
"O mal da ficção é que ela faz sentido demais. A realidade nunca faz sentido." Aldous Huxley, O Gênio e a Deusa.
Quando pequeno, queria conquistar o mundo. Depois desisti. O que faria com um trambolho desses? Meu apartamento já tem problema suficiente com encanamentos.
Escrevo porque sou feio e finito.
Fui à avant-première do filme Carandiru, de Hector Babenco, baseado no livro de Drauzio Varella. Maria Luiza Mendonça estava lá, mais bonita ao vivo do que na tela, o que é surpreendente. Já o Carandiru, acredito, é melhor na tela do que ao vivo. O filme tem defeitos: longo demais e sem ritmo, não mostra direito o funcionamento do presídio. Mas é feito com profissionalismo, bem atuado, fotografado e produzido. Lembra Cidade de Deus. Aliás, isso é engraçado. Antes os filmes brasileiros eram cheios de mulheres peladas, mas tão ruins que não dava pra assisti-los. Agora que só tem bandidos asquerosos, deixam-se ver. O Brasil é um país estranho.
Vi também Adaptação. Dante notou que Nicholas Cage faz duas vezes o papel de Gene Wilder. Hehe. Mas o filme é divertido.
Bom mesmo é A Pequena Loja da Rua Principal, produção tcheca de 1965, escondida na seção de dvds de algumas locadoras. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas hoje está injustamente esquecida. Kenneth Tynan escreveu que era o filme mais comovente já feito sobre anti-semitismo, o que ainda deve ser verdade. A meia hora final é inesquecível. Dez com louvor.
“(...) o pouco que ousava compreender das palavras amáveis das duas amigas lhe desagradava como vazio de sentido, tolo, fraco, em suma, feminino.” Stendhal, O Vermelho e o Negro.
Olha o Nostradamus aí gente! Um dia existirá o bloco de carnaval blindado. Pessoas sequestradas no porta-mala de carros-alegóricos. Trio-cadeira-elétrico.
Quarta-feira de cinzas. Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções / Ninguém passa mais brincando feliz.
Thanks god.
No ano passado, estive em Salvador e escrevi o texto abaixo para um site. Espero que gostem.
O cheiro de Salvador faz Veneza parecer uma perfumaria. Tudo é sujo, pobre e feio. No carnaval, a população sai às ruas sambando, cantando, roubando, brigando, cuspindo, mijando, matando. Não há época mais feliz.
No conhecido circuito Barra-Ondina (onde eu estive por algumas horas), os pretos pobres são empurrados e esmagados nas calçadas, enquanto paulistas e cariocas bem de vida, cercados de cordas e seguranças, passam celebrando a festa mais democrática do país.
Há os blocos de rua gratuitos, mas são ruins e perigosos. Um bom bloco custa ao folião (nunca pensei que um dia fosse escrever essa palavra, folião) pelo menos 200 reais. As pessoas que deixam pra última hora chegam a pagar 500. Não é muito, tendo em vista os inúmeros atrativos do encantador simba safári baiano. Veja só o que tem direito o folião (olha aí de novo!) num bloco pago:
- um “abadá” exclusivo (na verdade uma camiseta vagabunda igual a centenas de outras);
- dançar e cantar as coisas boas da vida pelas ruas e avenidas de Salvador, escoltado por alegres gorilas que garantem a murros a necessária distância que negros suados e demais espécimes da Bahia com H devem manter da felicidade alheia;
- beijar sete garotas diferentes que nunca lhe beijariam em seu habitat natural;
- dar banana pra baianada amontoada na calçada;
- cheirar diversos tubos de lança-perfume devidamente protegido pela polícia. Os mais traquinas podem se divertir denunciando algum cheirador abobalhado que estiver fora do bloco, e ver a polícia tomar-lhe o lança;
- com alguma sorte, assistir policiais descendo a borracha em meia dúzia de negrinhos sapecas;
Não é fabuloso? Não é o próprio retrato do Brasil? Os ricos cercados de cordas e seguranças, sambando e cantando, fazendo tudo o que querem e ainda protegidos pela polícia, e os pobres do lado de fora, vendo a banda (e o bonde) passar, cantando e vai rolar a festa, sem nem perceber que a festa não é pra eles?
É, meus caros amigos. Assim é o Brasil. Um país que finge que é democrático. Que finge que aboliu a escravidão. Que finge que é capitalista. Que finge que é aberto, sem preconceitos, sem racismo, onde todos são recebidos de braços abertos (e pro alto!).
E no carnaval, os ricos fingem que são pobres, ouvem as piores músicas do mundo, usam suas piores roupas, dançam num lugar fétido e procuram ficar louco e pegar a mulherada, que finge (nem precisa muito) que é prostituta. Já os pobres, esses fingem que são livres e que o carnaval é o melhor momento de suas malditas vidas.