


Segui a recomendação da Veja São Paulo e fui a uma lanchonete interessantíssima, B&B - Burger e Bistrot, na rua Bela Cintra.
Os manobristas empilham Mercedes na calçada. Os garçons são solícitos e incompetentes. Os clientes, ao som de música lounge (tão lounge, tão perto), comem com talheres de prata hambúrguer com queijo prato.
De entrada, é possível pedir coxinha. Mas cuidado. Seria um terrível faux pas pronunciar coxinha, palavra tão cozinha, tão vulgar. Deve-se dizer pingo de galinha.
Juro. Pingo de galinha. Você pede pingo de galinha e o garçom traz rindo uma porção de coxinhas.
Encantador.
Mas o melhor são os preciosos ridículos que adubam o local. Gente que faz curso de vinho e assiste a corrida de Stock Car.
De rolar de rir.
Nota nove.
(E agora me pergunto por que escrevo sobre isso em vez de falar de Mazeppa, do Liszt, ou do concerto para órgão do Poulenc, duas obras espetaculares que tenho ouvido com cada vez mais fascínio. Bem, talvez por um motivo semelhante ao que faz você estar lendo esse blog agora, e não Shelley ou Shakespeare)
Pingo de galinha!
Calma, garotas. Não se desesperem. O Alexandre Soares Silva não abandonou o blog, apenas mudou de endereço. Calma, calma! Vou passar o novo endereço pra vocês, mas antes me prometam se comportar civilizadamente. Prometem? Muito bem. Façam fila aqui. É pra entrar uma por vez. Soaressilva.wunderblogs.com
Empacotei meus arquivos e chamei a Granero. Adeus, Blogger. Como cantam lá na ópera do velho Ludwig, mir ist so wunderblog.
Às vezes, às vezes, penso que os brasileiros são como nopáleas e cactus.
Afeiçoaram-se aos regimes bárbaros; repelem os climas benignos em que estiolam e definham. Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos culturais parece estimular melhor a circulação da seiva entre os seus cladódios túmidos.
Bastam os primeiros minutos do Dies Irae do Verdi para que todas as bandas de heavy metal, com seus morcegos decepados e suas caixas de som a todo volume, coloquem o rabo entre as pernas e saiam fazendo “caim, caim, caim”.
Há momentos em que se duvida seriamente da existência de um mínimo de bem neste mundo miserável. São momentos terríveis, de angústia infinita, mas se você prestar bem atenção, se você olhar bem lá no fundo de você mesmo, talvez perceba, passeando pelas sombras da alma, de fraque e cartola, assobiando e olhando distraidamente para os lados, a glória, a majestosa glória, a glória de se sentir o melhor ser humano vivo.
Há uma enorme alegria escondida sob os escombros de nossas ilusões.
Sábato Magaldi diz ao Estado de S. Paulo que o governo deve subsidiar o teatro, essa gloriosa instituição que nos deu Shakespeare e Ibsen, destruída impiedosamente pelo “neoliberalismo”. Magaldi é mais uma das bestas bem intecionadas que galopam pelo palco podre deste mundo. Não tenho dúvida, é com as melhores intenções que ele defende que o governo tome dinheiro das pessoas para investir justo no seu ramo profissional. Pois subsídio, não se engane não, é dinheiro tomado de uns pra dar a outros. É o seu dinheiro que vai parar no bolso do Zé Celso (se o Zé Celso usasse roupa). É o dinheiro do pobre coitado que acorda às quatro e meia da manhã, come um pedaço de pão com gordura, caminha sete quilômetros, toma um trem e três ônibus e... bom, chega, acho que deu pra você pegar o recado. O governo pega dinheiro desse sujeito e dá ao filho viado de uma produtora cultural amicíssima do minissssstro (ela diz minissssstro, cuspindo salivas douradas em nossos olhos), para que ele monte uma versão superrrmoderrrrna de Hécuba, onde o próprio Eurípedes aparece como uma bicha velha, bêbada e barriguda, deprimida com os rumos da civilização e sofrendo amargamente pelo teatro, essa gloriosa instituição que nos deu Shakespeare e Ibsen, destruída impiedosamente pelo “neoliberalismo”.
E o pior é que o Brasil nunca teve nada sequer parecido com o que se chama de neoliberalismo. Da mesma forma que nunca teve nada sequer parecido com o que se chama de teatro.
Coelhinhos, ovos de chocolate, ressurreição de Cristo... francamente. Feriados religiosos são de um ridículo atroz. Poderíamos trocá-los todos por feriados da Turma da Mônica.
Bach não teve em sua época a fama que tem hoje. Em 1740, um jornal fez uma enquete (a enquete é uma praga antiga) sobre os melhores músicos alemães. Telemann ficou com o primeiro lugar. Händel com o segundo. Bach com o sétimo. Atualmente, apesar de mais conhecido e festejado, ficaria atrás da Nina Hagen.
Os historiadores costumam contar uma célebre historieta como se fosse motivo de honra e orgulho ao compositor. Em 1747, Bach foi convidado a tocar na corte de Potsdam. Ao saber de sua chegada, Frederico, o Grande, exclamou: “O velho Bach está aqui! O velho Bach está aqui!”. Mas convenhamos. Nenhum rei chega aos pés do velho Bach.
Motivo de orgulho é a Oferenda Musical, composição que Bach dedicou a Frederico. Olha só eu chamando o rei pelo primeiro nome, como se ele fosse um conhecido e costumasse beber caipirinha comigo no Guarujá. Outro dia, ouvi uma mulher falando sobre o apresentador Luciano Huck. Ela dizia: “Porque o Luciano, sabe, o Luciano está construindo uma pousada em Noronha”. Parecia que ela era íntima do Luciano. E não só isso. Parecia que ela era amicíssima de Fernando de Noronha.
E os esquerdinhas que chamam Fidel Castro de Fidel e Che Guevara de Che?
Fidel simplesmente matou milhares de pessoas. Não importa. O pessoal tem com ele a maior intimidade, e um carinho impressionante: “Como eu dizia, o Fidel...”.
É com ilimitada alegria que recebo a notícia de que quatro filmes com músicas de Cole Porter estão sendo lançados em DVD no Brasil: Alta Sociedade, Dá-me um beijo, Meias de Seda e Les Girls. O único disponível em vídeo é Alta Sociedade, que sempre assisto quando bate aquela tristeza que me impele ao nó da forca. A beleza de Grace Kelly, o trompete de Louis Armstrong, as vozes de Frank Sinatra e Bing Crosby! Ah, bem melhor que Prozac. Os outros são os filmes que nunca vi e mais quero ver.
Já sei como vou passar a Páscoa.
"É fiquição, né?". Comentário de um ex-presidiário do Carandiru sobre o filme Carandiru.
No Estado de S. Paulo, sobre a transmissão do suicídio de um PM em frente ao Palácio dos Bandeirantes:
As imagens revoltaram telespectadores. A organizadora de eventos Sônia Bogos disse que se desesperou quando viu as cenas. Ao ligar para a emissora pedindo que as imagens fossem tiradas do ar, foi informada de que “nada podia ser feito”. “Meus sobrinhos, de 4 e 6 anos, estavam na frente da televisão e a mãe deles não conseguiu evitar que eles assistissem”, disse. “Começaram a repetir: ‘olha, mamãe, também vou me matar’.”
O The Onion não faria melhor.
"É preciso muito pouco para tornar a vida intolerável. Uma pedrinha no sapato, uma barata no espaguete, a risada de uma mulher." H. L. Mencken.
Alguém pode me explicar por que diabos o Morgan Freeman é secretário-geral da ONU?
- Bom dia, bom dia, hora da escola!
Assim ele acordava os filhos, gritando, batendo palmas, acendendo a luz e puxando os lençóis.
- Bom dia, bom dia, hora da escola!
Com a filha era mais gentil. Entrava silencioso em seu quarto, agachava ao lado da cama e acariava os cabelos loiros da menina.
- Bom dia, minha querida. Quem é que vai levantar correndo pra comer a panqueca do papai?
Desta vez não foi diferente. Acordou-os e desceu pra preparar o café da manhã. Estava de ressaca, inercialmente bêbado, exalando uísque e cigarro. Não tinha dormido mais do que meia hora.
Seu cérebro repetia, roboticamente: fazer panquecas; deixar os filhos; voltar pra casa; dormir.
Eis tudo. Dormir, dormir.
- Pô, pai. Ainda tá escuro lá fora.
- Não me venha com essa de pô pai. Popeye era o marido da Olivia Palito. Vamos, engole isso aí. Cadê seu irmão?
Comeram rapidamente. Na garagem, o pai cantou:
Eu sou o marinheiro...
E os filhos completaram em coro:
Pô pai!
Eu sou o marinheiro...
Pô pai!
Entraram rindo no carro. Realmente estava escuro lá fora.
- O sol está atrasado. Serviço público é isso aí.
Não havia praticamente ninguém nas ruas. Um ou outro carro, um outro sujeito caminhando pela calçada. A menina dormia, a cabeça apoiada no ombro do filho mais novo.
- Todo mundo está atrasado hoje. Vocês vão chegar cedo na escola.
Cedo demais. A escola estava fechada. Nem o porteiro havia chegado.
Foi então que lembrou.
Horário de verão.
- Pô, pai. Puta merda. Ainda são seis da manhã.
- Não tem problema, a gente espera a escola abrir. Prometo que daqui a uma hora vamos estar no horário certo.
O filho mais novo disse:
- Por que a gente vai ter aula de sábado?
Sábado. Além de ser seis da manhã, era sábado.
O pai encostou a cabeça no volante e:
- Puta que pariu!
Os filhos começaram a rir da loucura do pai. A menina acordou e riu também.
- Ê, pai. Você é foda.
Ele riu também. Começava a amanhecer. Alguns passarinhos gritavam. Olhou-se no espelho e viu sua barba por fazer, a falta de cabelo, o rosto estranho. Eu não me reconheceria se me visse na rua, pensou. Não sei me reconhecer.
Seu riso se transformou - com espantosa naturalidade - em choro. Disse, quase ininteligivelmente:
- Por que a mãe de vocês foi morrer? Por quê, por quê?
Os meninos ficaram em silêncio. A menina lembrou de uma frase que ouvira o pai dizer certa vez, e a repetiu:
- A mamãe não combinava com o mundo.
Ele a olhou, freando o choro, as bochechas tremendo. Sua mulher realmente não combinava com esse mundo. Era um quadro de Rafael num banheiro de rodoviária. Algumas almas nascem por equívoco.
E como sua filha era parecida com a mãe, que delicadeza tinha em seus gestos, em seu tom de voz.
Ele suspirou fundo. Levou as mãos ao rosto. Quando as baixou, estava sorrindo.
- Que tal se a gente aproveitasse pra ir ao Simba Safari, hein? Que me dizem?
Houve revolta.
- Que Simba Safari! Vamos pra casa dormir.
- Não acredito que a gente veio pra escola às seis da manhã de sábado.
- Pô, pai!
Foram pra casa dormir. No caminho, cantaram:
Eu sou o marinheiro pô pai
Eu sou o marinheiro pô pai...
Medida de contenção populacional, em caráter de urgência: enforcamento com gravata Hermès de todos os brasileiros que usam gravata Hermès.
Vivo em estado permanente de indignação. Do meu vizinho ao chinês mais longínquo, do país mais pobre ao país mais rico, tudo o que vejo são erros, mau-gosto, loucuras, burrices, neuroses, misérias. Exclamo a deus: “Mas que bela criação!” E parece que o ouço responder: “Em seis dias, o que diabos você queria?!”.
"Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera." Nelson Rodrigues.
"O que é preferível para o homem e para a sociedade, abundância ou escassez?
“‘O quê!’, as pessoas talvez exclamem. "Como pode haver alguma dúvida sobre isso? Alguém já sugeriu, ou é possível sustentar, que a escassez é a base do bem-estar do homem?’.
“Sim, isso foi sugerido; sim, isso foi sustentado e é sustentado todos os dias, e não hesito em dizer que a teoria da escassez é de longe a mais popular de todas as teorias. (...)
“Há um antagonismo fundamental entre o vendedor e o comprador. O primeiro quer que os bens no mercado sejam escassos, com pouca oferta, e caros. O segundo quer que eles sejam abundantes, com farta oferta, e baratos.
“Nossas leis, que deveriam pelo menos ser neutras, tomam o lado do vendedor contra o comprador, do produtor contra o consumidor, dos preços altos contra os preços baixos, da escassez contra a abundância.
“Elas agem, se não intencionalmente, pelo menos logicamente, na crença de que uma nação é rica quando há falta em tudo. (...)
“Apenas suponha que, no presente momento, quando essas leis estão com força total, seja feito um inventário completo, não em termos de valores monetários, mas em termos de peso, tamanho, volume e quantidade de todos os objetos existentes na França que são capazes de satisfazer as vontades e os gostos de sua população – carne, roupa, combustível, trigo, produtos coloniais, etc.
“Depois suponha que no dia seguinte todas as barreiras à importação de bens estrangeiros para a França sejam removidas.
“Finalmente suponha que, para determinar as consequências dessa reforma, um segundo inventário seja feito três meses mais tarde.
“Não é verdade que haverá na França mais trigo, gado, roupa, linho, ferro, carvão, açúcar, etc., no momento do segundo inventário do que no momento do primeiro?
“Isso é tão verdadeiro que nossas tarifas protecionistas não têm outra intenção senão a de nos impedir de importar todas essas coisas, de limitar suas ofertas, de evitar um declínio de seus preços, e impedir sua abundância.
“Agora, nós iremos acreditar que as pessoas estão mais bem alimentadas sob as leis que prevalecem no presente, porque há menos pão, carne e açúcar no país? Elas estão mais bem vestidas, porque há menos linho e roupas de lã? Suas casas estão mais bem aquecidas, porque há menos carvão? Seus trabalhos foram facilitados, porque há menos ferro e menos cobre, ou porque há menos ferramentas e máquinas?
“Mas, você diz, se os estrangeiros nos inundarem com seus produtos, eles levarão embora todo nosso dinheiro!
“Bem, que diferença isso faz? Homens não se alimentam de dinheiro, não se vestem com ouro, nem aquecem suas casas com prata. Que diferença faz se há mais ou menos dinheiro no país, contanto que haja mais pão na mesa, mais carne na despensa, mais roupa no closet, e mais madeira no lenheiro?"
Frédéric Bastiat, Sophismes Économiques.