


- Você não vai tocar pra eu ouvir?
- Pra você? Nunca! Desde pequeno você ri das minhas músicas.
- E daí? Desde pequena você ri das minhas piadas.
Um amigo me liga desesperado:
- Você recebeu o convite pro casamento do André?
- Recebi.
- Meu deus, todos os nossos amigos de colégio estão se casando.
- Quem diria. O Renatão, o Elemento, o Inácio. E agora o André.
- Me diz uma coisa. Esses caras sempre enchiam a cara, não é mesmo?
- É.
- E vomitavam nas festas?
- É verdade.
- E sempre batiam o carro.
- Sempre.
- E arranjavam briga nas boates.
- Pois é.
- A gente nunca fazia nada disso.
- Bem, quase nunca.
- E agora eles estão se casando.
- Quem diria.
- Não vai ser agora que a gente vai seguir esses caras.
Marta Suplicy foi à Sala São Paulo, domingo, assistir à Orquestra de Albuquerque tocar Brahms e Strauss. Todo mundo foi. Assistir, não ouvir. Ouvir é tão, tão passé.
Taxa do lixo.
E eu fui ontem ao Cultura Artística, que cada vez mais aparenta ser freqüentado pelas mesmas pessoas que freqüentam as melhores casas suspeitas da região, Skorpios, Vagão, Kilt. A orquestra era para ouvir, apesar das três instrumentistas loiras e lindas. Combattimento Consort Amsterdam, com Jacques Zoon solando na flauta. Entre animadas conversas e intermináveis fungadas de velhotes resfriados, era possível reconhecer o Grande Bach, o Padre Vivaldino, o Velho Telemann e mais três barroquinhos espevitados da porra.
Atrás de mim, uma senhora explicava à outra:
- Você não pode aplaudir entre os tempos da música (ela queria dizer movimentos).
E a outra:
- Ai, eu quase aplaudi.
Veio o primeiro bis. O spalla anunciou: ladies and gentlemen, Pur-cééééél.
E a outra:
- Não estou achando essa música no programa.
O comentário perspicaz desencadeou uma conversa que durou o tempo exato do bis. A outra levantou-se aplaudindo enlouquecidamente, bem na minha orelha. Quase fiquei surdo. Deu-se início à tradicional corrida ao estacionamento, mas para azar dos retardatários, os combattimenti voltaram ao palco. Desta vez, good Gluck.
Lição aprendida: poucos e efêmeros aplausos.
E a outra:
- Agora foi, né?
Agora foi!
Os músicos não voltaram, as luzes se acenderam e todo mundo comentando como fora maravilhoso o concerto, como tocara bem aquele... como se chama mesmo quem toca aquele instrumento? Aquele! Ah, sim, flautista.
Tenho as neuroses de São Paulo e a decadência do Rio de Janeiro.
Meu primeiro ato como prefeito seria mandar espancar e prender o coreano que vende yucksoba na avenida Paulista. Adolescentes bonitas se empanturram com aquilo e seus rostos derretem como plástico no fogo. O odor deixa Cubatão no chinelo. A vida se esquiva de todos os sentidos.
Os anúncios de emprego para jornalista aqui em São Paulo, quando existem, pedem fluência em inglês, às vezes espanhol. Hoje vi um anúncio lá de Cuiabá. Pede fluência em português. Juro.
Eu confesso. Tentei escrever comentários com pseudônimo para o meu próprio blog. É claro! Escrevi o post abaixo, pensei que ia causar tumulto e o pessoal dos naum e dos entaum iam me xingar e atacar erros gramaticais na minha cabeça... mas nada, nada. C’mon guys! Eu estava defendendo traficantes ali embaixo! Sim, a honesta e saudável profissão de passar drogas à garotada! Só o Danilo Amaral comentou e ele concordou comigo! Não que eu não concorde comigo, mas diabos, eu queria... tumulto! Queria dar uma sacudida nisto aqui, é isso, bagunçar o coreto, chutar o pau da barraca... tumultuar!
Mas nada, nada. Então tentei forjar um tumulto. Escrever algo como vc naum pode dizer isso, seu canalha! Mas vc naum pode dizer isso, seu canalha não é muito interessante, é convencional, um verdadeiro idiota nunca escreveria assim. O verdadeiro idiota é muito mais sofisticado. Faz erros de gramática e lógica onde você menos espera, usa as palavras de um modo genialmente... tumultuado.
Eu não consegui. Tenho que admitir, não sei escrever idiotices de propósito. Só escrevo idiotices sem querer.
É mais fácil escrever Hamlet do que Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei.
Você está numa ilha com a sua garota e ela lhe pede um grampo de cabelo e não há um único maldito grampo de cabelo na ilha inteira. A sua sorte é que você encontra um índio que acabou de conseguir um – trocou lá no continente por uma canoa cheia de melancias. Você compra o grampo do índio.
Ou você e sua garota estão morrendo de vontade de comer banana-da-terra. O solo da ilha não é bom pra banana-da-terra. Um marujo aporta na ilha, você negocia com ele e ele lhe promete arranjar uma caixa amanhã mesmo.
OK. Sua namorada está com o cabelo preso e vocês se entupiram de banana-da-terra. Querem se divertir um pouco, sei lá, nada muito agitado, apenas fumar um baseado e olhar as estrelas. Vocês não têm um baseado. Talvez o índio ou o marujo possam arranjar. Mas daí eles não seriam índio nem marujo, seriam, ó meu deus, traficantes. Não se fala em traficante de grampos de cabelo: é o índio que troca melancias por grampos de cabelo e pode arranjar alguns pra você. Não se fala em marujo traficante de banana-da-terra: é o marujo que amanhã mesmo consegue uma caixa de banana pra você. Mas um baseado, um simples baseado, é coisa de traficante. E traficante, pra população da ilha, é a encarnação do mal, é o responsável pelos naufrágios, pelas tempestades, por toda e qualquer violência que ocorre na ilha.
É preciso admitir que um traficante de baseado, ou de coca ou de qualquer outro barato, não é beato de novela da Globo. É mais mal educado do que um operador da bolsa; tem mais mau gosto do que um garçom de cantina; é quase tão inteligente quanto um jogador de basquete; em suma, é um advogado on drugs armado até os dentes.
É preciso admitir tudo isso, a maior parte dos traficantes não é gente boa e coisa e tal, mas o ato em si de traficar, veja bem, o ato em si é tão louvável quanto o ato de se arranjar um grampo de cabelo ou uma caixa de banana-da-terra. Você e sua namorada querem ver as estrelas chapados, querem viajar e aquele sujeito disse que pode arranjar o bagulho. Viva o sujeito. Três hurrays pro sujeito.
Conto essa pequena história de quando você e sua namorada passaram um tempo naquela ilha pra dizer que sou absolutamente contra punir ou mesmo repreender o traficante pelo crime de tráfico de droga. Se o sujeito mata, rouba, seqüestra, deve ser punido por assassinato, roubo, seqüestro. Mas não há crime de tráfico de droga. Há pessoas que querem comprar e pessoas que vendem. Por que o governo se mete?
Os naufrágios e as tempestades não são provocados pelo índio e pelo marujo. São provocados pela natureza – e pelo governo da ilha.
- Primeiro os cientistas descobrem que o humano é macaco. Agora descobrem que o macaco é humano.
- Daqui a pouco vão descobrir que o macaco é mais humano do que o nosso vizinho.
- Os cientistas estão sempre atrasados.
- Eles falaram alguma coisa sobre alma?
- Quem?
- Os cientistas.
- Falaram que a alma do macaco também é humana. Só que um pouquinho mais peluda.
- E a alma do homem?
- A alma do homem é símia. Só que um pouquinho mais magra.
- E a da mulher?
- A alma da mulher é bem mais magra.
- E menos peluda?
- E menos peluda.
- E a do nosso vizinho?
- A do nosso vizinho veste um terno roxo da Mesbla.
- Será que um dia eles vão descobrir que deus é macaco?
- Eles quem?
- Os cientistas.
- Os cientistas são capazes de descobrir qualquer coisa que já tenha sido descoberta.
- Eu já descobri coisa que nunca foi descoberta.
- O quê?
- Não sei. Nunca foi descoberta.
- Eu já fui um cientista.
- Você já foi um cientista?
- Já.
- O que você descobriu?
- Eu descobri que eu já fui um cientista.
- É uma grande descoberta.
- Mas já tinha sido descoberta antes.
- Os cientistas estão sempre atrasados. Imagine, eles descobriram que o nosso vizinho não é humano.
- Ainda bem que eu não sou mais um cientista.
- Você não é mais um cientista?
- Eu descobri que eu não sou mais um cientista.
- Isso eu já sabia.
- E a alma do gato? O que os cientistas dizem sobre a alma do gato?
- De qual gato?
- Do nosso gato.
- Sua alma tem cauda.
- A minha?
- A do nosso gato.
- O nosso gato é o menos humano dos humanos.
- E o menos macaco dos macacos.
- E o menos vizinho dos vizinhos.
- Eu não queria ser macaco.
- Eu não queria ser humano.
- Eu não queria ser meu vizinho.
- Eu não queria ser seu vizinho.
- Eu não queria ser cientista.
(continuam, ad infinitum, dizendo eu não queria ser uma faca de cozinha, eu não queria ser um aparelho de som, eu não queria ser uma porta giratória, etc.)
Toda a sociedade está reunida em um enorme salão. Um sujeito bate com o martelo em uma mesa:
- Silêncio! Silêncio! Agora é a vez da Gisele Bündchen.
Êêêêêêêê!, gritam as pessoas, jogando seus chapéus para cima.
- Silêncio! Silêncio! Quanto vocês dão?
Uma multidão de carteira em punho se aproxima ruidosamente de uma urna. Algumas mulheres com a barba por fazer tentam impedi-la de depositar o dinheiro. Uma tal de Maria da Conceição Tavares senta em cima da urna, gritando:
- Ninguém vai dar dinheiro para essa mulherzinha! Há gente passando fome no mundo!
Alguém responde:
- A Gisele também passa fome!
Gargalhadas. A multidão derruba e pisoteia a tal da Maria da Conceição Tavares. Êêêêêêêê!
- Silêncio! Silêncio! O próximo é o Gugu Liberato.
Algumas faixas são levantadas.
Não financiem o mau gosto!
Há fome no mundo!
Vão tomar no Gugu!
Intelectuais enfiados em ternos amarrotados, os rostos escondidos sob óculos do tamanho de observatórios lunares, protestam enquanto são arrastados pela multidão. Alguns acabam sendo depositados na urna.
- Silêncio! Silêncio!
- Quem é agora?
- Agora é o Fabio. Ele está tentando escrever um livro. Vamos lá, pessoal. Literatura é importante.
Finalmente faz-se um rápido silêncio.
- Desculpe, estou sem nada aqui.
- Esqueci minha carteira em casa.
- Puxa vida, se eu soubesse que poderia ajudar a Literatura teria trazido mais dinheiro.
E alguém, a pleno pulmões:
- Que literatura porra nenhuma!
Êêêêêêêêêêêêêêêê!
Um velhinho caridoso tira uma moeda do bolso e a joga em minha direção.
- Go get a candy bar, kid.
E assim, Gisele Bündchen ganha em um desfile de meia hora o que eu ganho em oito anos. E Gugu Liberato recebe anualmente o que eu levaria cinco mil anos de trabalho ininterrupto para receber.
Devido à crítica publicada neste blog no último dia 22, o maestro Wolfgang Sawallisch cancelou suas apresentações com a Orquestra da Filadélfia aqui no Brasil. Será substituído por Yakov Kreizberg.
Camilo gostava de estar cercado por livros - gostava do ambiente, do clima, de livrarias, sebos e bibliotecas. Quanto mais velhas e empoeiradas eram as estantes, mais em casa se sentia. Ficava horas em pé, lendo devagarzinho romances policiais ou folheando livros de filosofia e história. Às vezes levantava os olhos por cima das páginas para observar outros clientes. Fantasiava. Uma garota linda, uma Luana Piovani com oclinhos escorregando pelo nariz, lendo – em pé, como ele - um livro sensacional. Ela – como ele – levantaria os olhos por cima das páginas. Ela olharia para ele, ele olharia para ela, ela sorriria para ele, ele sorriria para ela. Enfim, ela se aproximaria e diria:
- Você está lendo Wittgenstein? Eu sou apaixonada por Wittgenstein.
E ele, arqueando as sobrancelhas como Groucho Marx:
- Só por Wittgenstein, hein, hein?
Mas Camilo só era abordado – quando era abordado – por velhinhas, homossexuais e gordas – gordas que a-do-ra-vam Paulo Coelho e similares. Se a espécie humana dependesse de livrarias, sebos e bibliotecas para se perpetuar, adeus humanidade.
Mas um dia. Pode parecer incrível, e é realmente incrível, mas um dia.
Camilo estava no sebo do Saber, um sebo sujo escondido em uma rua ainda mais suja do centro de São Paulo. Lia Simenon. O inspetor Maigret jantava em suas mãos. Camilo ouviu um barulho e levantou os olhos por cima da sala de jantar.
Ela.
Era linda. E tinha óculos. E segurava um livro. Camilo tentou ver qual livro era – fundamental descobrir qual livro era. Aproximou-se cautelosamente, fingindo ler o Simenon. Entortou o pescoço para olhar o precioso nome na capa... h... er... man.... he... Herman Hesse.
Torcicolo.
E então, a voz. Ela falava. E como ele.
- Joãozinho?
Ele olhou pra ela e ela abriu um largo sorriso.
- Joãozinho Motta?
Ele sorriu de volta, temendo que seu rosto formasse uma expressão apalermada.
- Não lembra de mim? Daniella. Do colégio São Benedito. A Daniella com dois eles.
- Daniella! Estou sem palavras.
- Faz quanto tempo que a gente não se vê? Quinze anos? Quinze anos, hein, seu João Motta com dois tês.
Foi aí que veio o lampejo. A idéia de gênio. O turning point de sua vida de rato ensebado de sebo.
- Quinze anos... sabe, Daniella, você.. você é uma das poucas pessoas que ficaram na minha memória depois do acidente.
Que maravilha de acidente. Ele contou tudo para ela. De como fora estimulante escalar aquela montanha. Da sensação de paz que sentira. Fora lá, lá no topo da montanha, que lera Sidarta pela primeira vez. Três dias no topo do mundo, a alma alta, em contato direto com a natureza e as estrelas. Os três melhores dias da sua vida. Então veio a volta, e aquela tempestade e daí ele não lembrava direito, mas rolara, batera a cabeça, quebrara a bacia, os braços, as costelas... Um grupo de índios o encontrara desacordado e o levara a um hospital. Até hoje ele era obrigado a fazer fisioterapia, mas estava praticamente cem por cento, exceto por uma parte de sua memória, que despencara montanha abaixo e nunca mais fora resgatada.
- Esqueci quase tudo da minha infância e da minha juventude. Mas algumas pessoas, as mais importantes, meus familiares, você... você eu nunca esqueci... minha primeira paixão. Você sabia que eu era apaixonado por você no colégio, não sabia?
- Apaixonado? Pensei que gostasse da Clarisse!
- Clarisse? Não lembro de nenhuma Clarisse.
Camilo se surpreendeu com sua própria desenvoltura. Era incrível. Ele nunca se dera muito bem como Camilo. O negócio era ser Joãozinho.
A conversa continuou em um Fran’s Café. Pela primeira vez Camilo gostou do café do Fran’s Café.
*
A vida de Camilo mudou completamente. Apartamento, telefone, amigos – tudo foi mudado. Aquela mulher era dele agora, e ele era Joãozinho. O medo de encontrar conhecidos na rua – Camilo! Ei, Camilo! – o levou a deixar a barba crescer e a evitar certos lugares. Mesmo assim, houve um incidente. Ela o convencera a levá-la a um show da Marisa Monte. Ele nunca entendera por que todas as mulheres gostavam da Marisa Monte. De qualquer forma, perto deles, a poucas mesas de distância, estava uma ex-namorada. Ele tinha a teoria de que, ao fim do namoro, as ex-namoradas deveriam explodir como bolha de sabão – puf!. Era simplesmente intolerável que elas continuassem a andar por aí. A maioria delas, em especial aquela ali, era incapaz de compreender que a vida muda, que um dia você se chama Camilo e no outro Joãozinho. Simples assim. Aquela ali o viu. Acenou. Camilo controlou o pânico e acenou de volta. Às vezes as dores do acidente voltam, é preciso tomar remédios e dormir.
Depois desse susto, Camilo decidiu mudar de cidade.
- Você vai adorar Curitiba, minha querida. Nada da poluição, do trânsito, da constante loucura de São Paulo.
Poucos meses depois, Camilo sonhou que caminhava com Daniella em uma praia. Um sósia apareceu e disse:
- Daniella! Olá Daniella! Lembra de mim? João. Joãozinho.
- Você não pode ser o Joãozinho. Ele é o Joãozinho.
- Não, Daniella. Você está morando com um impostor. Camilo, o impostor. Eu é que deveria estar morando com você. Ele nem gosta de Herman Hesse!
Camilo acordou gritando:
- Eu sou o Joãozinho! Eu juro que sou o Joãozinho!
Daniella achou que ele estava tendo uma crise de identidade às três da manhã.
A idéia de encontrar o verdadeiro Joãozinho passou a atormentá-lo. Não conseguia dormir direito, comia pouco, se atrapalhava no trabalho.
Resolveu ir atrás do sujeito.
Inventou uma viagem de negócios e voltou a São Paulo. Ligou para a associação dos ex-alunos do colégio São Benedito. Nós não estamos informando dados dos ex-alunos, senhor. Mas é um caso de vida ou morte! Pior, é um caso de vidas ou mortes! Nós não estamos informando dados dos ex-alunos, senhor.
Olhou a lista telefônica. João Alberto Motta. João Motta Gonçalves. Reginaldo João Motta. Vinte e sete Joões Mottas com dois tês.
Começou a telefonar. Nós vamos estar fazendo um recadastramento de ex-alunos, senhor. O senhor pode estar cooperando? O senhor estudou no colégio São Benedito, senhor?
Na décima terceira ligação, bingo!
- Sim, estudei. Vocês organizam encontros de ex-alunos ou algo do tipo?
- Sim, senhor. Estaremos entrando em contato assim que a data do próximo encontro estiver sendo marcada, senhor.
No dia seguinte de manhã, Camilo estacionou seu carro em frente à casa do João e esperou-o sair. O sujeito era realmente parecido com ele. Um pouco mais bonito, é preciso admitir. Camilo pensou em atropelá-lo. Desaparecer com o corpo. Assumir a sua vida. Era uma idéia absurda, mas diabos, ele já não havia assumido a sua vida não vivida?
Depois pensou em contar tudo pra ele. Eu assumi o seu nome, estou morando com a Daniella, ela realmente gosta de você. Por favor, não estrague tudo. Nunca vá a Curitiba. Quando eu vier pra São Paulo, eu te aviso, você não sai de casa. Eu te pago. Eu pago pra ser você.
Camilo logo se convenceu de que estava enlouquecendo.
*
Uma semana depois, ligou para o João Motta e disse que o encontro dos ex-alunos fora marcado. Deu data e endereço - o seu endereço.
Voltou ao sebo do Saber. Viu aquelas estantes cheias de pó e nomes de mortos, cheias de histórias absurdas e fascinantes, cheias de amor, assassinato, alegria e loucura. Quase chorou. Caminhou até a letra S.
George Simenon.
Maigret ainda não havia terminado de jantar.
Wolfgang Sawallisch, o último dos grandes maestros, o dinossauro batuta, e a Orquestra da Filadélfia, uma das melhores dos Estados Unidos – melhor até que a Orquestra dos Meninos de Delaware!, se apresentam sábado e domingo aqui na maior cidade do interior do mundo, La Gran San Pablo.
Os ingressos variam de R$ 100 a R$ 300. Pechincha! O mais barato dá livre acesso à senzala - você entra sem camisa, tem as mãos amarradas na cadeira e recebe chibatadas de capatazes amantes da música. Sensacional! Pague um pouco mais e ouça fascinantes histórias contadas por velhinhas verdadeiramente quatrocentonas de sobrenomes pomposos – a sra. Tuiuiú, a madame Rolinha-Caldo-de-Feijão, a socialite Pintassilva –, embaladas pela deliciosa música ambiente de Strauss e Wagner. Pechincha!
Eu já vi Sawallisch regendo a Orquestra da Filadélfia, anos atrás, no imponente Theatro de Macaubal. Executaram a sétima do Beethoven – com a frieza de um carrasco. Os violistas conversavam sobre o fim de semana; o spalla bocejava; uma cellista lia a People.
O concerto foi como um jogo de futebol de um campeonato já decidido. Cumprimento de tabela. Vamos lá, pessoal, só falta uma sinfonia pra terminar a turnê na América Latina. Vamos lá!
Quando ainda soava o último acorde, o público explodiu em palmas e bravos e bravíssimos. Escravos se jogaram das galerias. Paus-brasis foram arremessados ao palco. Na platéia, Silvas e silvícolas choravam e arrancavam os próprios cabelos.
R$ 300! Pechincha! Que concerto esplêndido! Bravo! Bravíssimo! Vamos correr pra não pegar fila no estacionamento! Dane-se o bis!
- Meu querido, me leva ao show do Bruno e Marrone?
- Levo, claro. Busco também, se você quiser.
" - Pois bem, discutamos - começou o príncipe André. - Falas em escolas - prosseguiu contando nos dedos, - no ensino, etc., isto é, queres arrancá-lo - apontou um mujik que passava diante deles e tirava o chapéu - de seu estado bestial e dar-lhe necessidades morais, quando eu entendo que a única felicidade possível é a do animal, e tu queres privá-lo dela. Eu o invejo e tu queres fazê-lo semelhante a mim, mas sem dar-lhe meus meios. Outra coisa. Dizes: facilitar seu trabalho, quando eu acho que o trabalho físico é para ele uma necessidade, da mesma condição de sua existência como é o pensamento para ti e para mim. Tu não podes deixar de pensar. Eu só adormeço às três da manhã, e diversos pensamentos me assaltam e não me deixam dormir. Revolvo-me na cama e não consigo adormecer antes da madrugada porque penso e não posso deixar de pensar, assim como ele não pode deixar de lavrar a terra, ceifar o trigo, pois se assim fizer irá para a taverna e cairá doente. Assim como eu não suportaria seu pesado trabalho físico e morreria ao cabo de uma semana, ele também não suportaria minha ociosidade física, engordaria e acabaria morrendo. Em terceiro lugar, o que foi que disseste? (O príncipe André dobrou o terceiro dedo.) Ah, sim, os hospitais, os remédios. Ele tem um ataque de apoplexia, vai morrer, e tu cuidas e o cura; ele será inválido e um fardo para todo mundo durante dez anos. Para ele teria sido preferível morrer; outros nascem e existe tanta gente. Se tu lamentasses ter um operário a menos ainda se poderia compreender, mas não, tu cuidas dele por amor ao próximo. E isso lhe é desnecessário. E além disso, por que razão acreditas que a medicina já tenha curado alguém? Matado, sim! - disse ele, franzindo as sobrancelhas com cólera e desviando o olhar de Pedro."
Tolstoi, Guerra e Paz (tradução de Gustavo Nonnenberg, editora Ediouro).
Mozart agora é um wunderblogger! Sposi, amici, al ballo, al gioco, alle mine date foco! Ed al suon di lieta marcia corriam tutti a festeggiar!
A cama diminui de tamanho de propósito para me fazer cair. É a oitava vez na semana. Acordo com as costas machucadas, algumas baratas cochichando e soltando risinhos abafados pelas patinhas na frente da boca. Arremesso minha mão direita e desta vez acerto. Duas delas são esmagadas e esmagadas permanecerão até os vermes varrerem-nas pra baixo do tapete do tempo.
Lá fora uma chuva dos diabos pisoteia a cidade. Gosto de chuva da janela pra fora. Arrasto meus pés até a geladeira. A geladeira está fria comigo. Dou-lhe um chute na porta. Ela cospe uma lata de cerveja. A cerveja está quente. Noites frias e cervejas quentes. História da minha vida. Vida que vai acabar me matando, mas que vida não acaba, matando? Hein, hein? Geladeira de merda.
Desabo no sofá e a televisão liga sozinha. Mais um daqueles desenhos animados daquele maluco do Asdrúbal Fino. Vocês lembram dele, não lembram? O Anti-Disney. O Desenhista do Inferno. “Sempre fui e sempre serei um eremita sociável, cabisbaixo, indo pra baixo, no meio da multidão”. Foi o que ele disse na Dead Valium e eu anotei num guardanapo porque também me sinto assim. Mas o que faço? Estou mentindo pra vocês. Ele nunca disse isso nem nada sequer semelhante. Asdúbral Fino era um idiota. Olhem a tevê. Eu já vi esse desenho. Um gato homossexual, adido cultural da embaixada da Gatolândia no Marrocos, percorre o subúrbio de Tânger atrás do avestruz assassino, que não sabe onde enfiar a cabeça. O problema é que o gato é um fucking freak.
- Justiça e bondade são irreconciliáveis. O justo não pode ser bom, nunca, nunca, diz o gato mal dublado enquanto tortura os coelhinhos chineses que esconderam o avestruz na clínica de acupuntura.
Vou pra máquina de escrever. Ela se esforça com um resto de tinta velha. Catarina, Catarina, Catarina, Catarina, Catarina. Minha máquina de escrever ainda está apaixonada por Catarina. Aquela mesma Catarina que ensinou a cama a diminuir e a geladeira a esquentar a cabeça. Aquela puta.
Batem na porta. CATARINA, grita a máquina.
É Charleto, o entregador de cartas noturnas.
- Oi, Caio. Comocêtá?
- Ainda funcionando. Quetetrazaqui?
Ele coça o cabelo. É o cabelo mais absurdo que já vi. Lembra pele de girafa. Charleto acende um Gitane e pede para entrar. Mi casa, su casa.
- Essa chuva é de matar, você não acha?
- Há coisas piores.
- Sempre há coisas piores, não é?
O gato gay acha o avestruz. Minha mão direita ainda está em cima das baratas. Peço licença para lavá-la.
- Precisa de uma mãozinha?, pergunta Charleto, rindo esganiçadamente.
Calo a boca da tevê.
- Alguma carta pra mim?
Charleto abre uma mochila do Mickey Mouse e tira um pequeno envelope. O envelope sorri. Avanço sobre a máquina de escrever. Ela grita antes de se esborrachar no chão.
- Por que você fez isso?
- É o fim dela, pode escrever.
- Mas por quê?
- Ela não tinha ponto final.
Volto ao envelope.
Vazio.
Vazio.
A chuva pára e a Charleto sugere uma lanchonete. A calçada nos leva primeiro a um rapaz que faz serenata com um violão.
Eu te amo, alma minha
Eu te amo, minha ama
Espanco o rapaz até minha mão direita desencaixar. Hoje ela tá que tá. Quebro o violão em dezessete pedaços. Rapaz idiota. Sem vergonha na cara-de-pau. Amor nada mais é do que vontade de foder os outros. Não se torna isso público.
O vento frio corre como um demente, tropeçando nas pessoas e esfolando minha pele fraca como jornal velho. A lua cheia disso tudo ameaça cair lá de cima. A lanchonete pisca pra gente e a gente pula pra ela. Na área de fumantes ninguém fuma, o gerente vai reclamar. Charleto pede qualquer coisa, eu idem, e nos servem indigestões em pão de forma.
Olho para Charleto bocejando, eu bocejando, mas logo Charleto também. Conto que não tenho conseguido dormir. A cama. A puta. O chão.
- E eu, diz Charleto. E eu que entrego cartas que não dizem nada. Que vida de merda. A gente se esforça pra viver e o diabo é que a gente vive sem esforço. Olha só! Estou aqui. Vivo. Não preciso fazer nada. Simplesmente vivo. Respiro sem pensar em respirar e não consigo parar de respirar apenas pensando em não respirar mais. Somos obrigados a viver e é tão fácil.
- Somos condenados e isso é difícil, Charlie.
O garçom joga a conta à nossa frente, a conta que nunca sai em conta. Arranco uns trocados das mãos do meu bolso, levanto da cadeira, Catarina, Catarina, a porta se abre e a calçada já está mais uma vez sob nossos pés. A lua lá em cima, presa por um fio.
Passamos pelo rapaz da serenata, ainda caído, segurando alguns pedaços do violão, murmurando meio tonto:
- Ela nem desceu pra me ajudar... nem desceu...
- Bem-vindo ao mundo real, meu caro.
Lar doce lar. Charleto diz que tem que ir embora, eu caio de novo no sofá e a tevê se liga.
O avestruz está morto. O gato recebe um prêmio das mãos do prefeito.
Justiça foi feita.
A máquina de escrever continua estatelada, o envelope vazio, as baratas mortas, as cervejas quentes. Volto pra cama. Enquanto ela não me faz cair de novo, fecho os olhos.
Ponto final.
"O sujeito que escreve deixa de ser ele mesmo. Uma simples frase nos falsifica ao infinito." Nelson Rodrigues (?)
Pedro estava sempre com o cabelo mal cortado. Alimentara durante muito tempo esperanças de que seu barbeiro melhoraria com a prática e o tempo. Esperanças amargamente infundadas. Pagou-lhe cursos e comprou-lhe equipamentos. Chegou a mandá-lo estudar em Paris. O barbeiro voltou como foi, com o agravante da modéstia perdida.
Não podia simplesmente mudar de barbeiro. Era-lhe por demais penosa a idéia de magoar aquela pobre criatura. Além de esforçado, dedicava-lhe verdadeira estima.
Às vezes, Pedro se aborrecia com o que chamava, gracejando, de a maldição do barbeiro. Mas tal maldição não se contentava com os limites estreitos da pequena barbearia.
Vejamos o seu médico. Sujeito pequeno e desengonçado, velho amigo de sua família, seria engraçado se não lidasse com matéria tão frágil e preciosa. Era incapaz de curar uma gripe. A uma tia idosa, castigada por longa enfermidade, preparara “uma receita infalível, secreta e sagrada, meu chá especial de maconha”. Na mesma noite, a tia viajou para o outro mundo.
Pedro apiedava-se do amigo médico. Uma vez, exibindo perfeita saúde mas acusado de estar severamente doente, se expôs de propósito a condições adversas, com a intenção de adoecer e evitar-lhe o desgosto de mais um diagnóstico errado.
Havia ainda o alfaite com príncipio de Parkinson, o mordomo surdo, o jardineiro debilóide, o motorista caolho, as amantes ressentidas, os amigos mesquinhos.
Pedro sentia-se preso a essas pessoas. Procurou ajuda. Anos e anos de análise e tudo o que conseguira fora curar alguns traumas do analista. Não podia precisar exatamente quando houvera a inversão de papéis. Sabia apenas que um dia chegara atrasado a uma consulta e encontrara o analista em pânico, batendo a cabeça contra o volume cinco das obras completas de Freud.
Mas nada disso o atormentava tanto quanto o fato de ter se casado com uma mulher que não amava. Era certo que lhe causava enorme satisfação a lembrança dos seus primeiros encontros, das primeiras cartas trocadas, da confissão da mulher, das lágrimas com deleite derramadas. Admirava seu amor, e conquanto não lhe fosse natural amá-la também, sempre se esforçou para forjar um “sentimento racional” (como o definia sigilosamente) e alcançar a reciprocidade de sentimentos.
Era preciso vê-lo em seus últimos dias: o terno mal talhado, o cabelo lembrando a folhagem de um coqueiro, a barba por fazer, a perna coxeando graças a uma intervenção cirúrgica desastrada, seus inúmeros outros problemas de saúde refletindo-se nas tosses, na lentidão de movimentos, no rosto precocemente envelhecido e cansado. Sempre com a mulher ao lado, cercando-lhe de cuidados e carinhos; sempre impondo a si mesmo um amor a tudo e a todos que nunca existira.
Quando finalmente não pôde levantar-se mais da cama e percebeu que a hora da morte não tardaria a chegar, pediu ao médico e aos criados que o deixassem a sós com a mulher. Ela segurou-lhe a mão fria e suada e ao suor fez juntar uma lágrima. Após alguns segundos de silêncio, ele confessou que nunca a havia amado, nem gostado de seus amigos, nem aprovado as obras dos outros; tudo, disse, tudo sempre lhe parecera mal feito, desde o corte de seu cabelo aos seus próprios sentimentos. “Fingi amar, adorar, aprovar, apenas por me sentir incapaz de magoar as pessoas; por enxergar com demasiada clareza suas fraquezas e loucuras, e querer minimizá-las de alguma maneira”.
A mulher levantou-se e em seu rosto Pedro viu pela primeira vez os músculos rascunharem a terrível caricatura do ódio. Os lábios atormentados tremeram e como um vulcão hesitante expeliram um grito de desespero.
- Uma farsa! Foi tudo então uma farsa!
- Não, minha querida! Você não foi feliz? Eu não te fiz feliz?
- Você me deu uma felicidade fajuta. Nada mais humilhante do que uma felicidade fajuta.
- Ela era real, minha querida.
A mulher não ouviu a última frase. Caminhava de um lado para o outro, seu espírito balançando entre a loucura e a sanidade como o pêndulo de um relógio. Onde pararia? De repente, olhou para Pedro e gritou:
- Vá para o inferno!
Gritou, abriu a porta, bateu a porta. Pedro ficou a meditar, enquanto a morte lhe esfriava o corpo e desacelerava o coração. Não que concordasse com a mulher, não que achasse que incorrera em falta, não que considerasse pecado seu excesso de gentileza e sua falta de amor, não que...
Não queria, nem podia, infligir mais um desgosto à mulher.
Antes do derradeiro suspiro, decidiu-se.
Iria para o inferno.
A maior desgraça é nascer com bom gosto.
"Monsenhor fê-lo entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lunático. Perdoava-lhe a incoerência das idéias ou o assombro das invenções; pode ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que meteu medo ao pacato clérigo. Que podiam fazer ele e o preto, ambos velhos, contra qualquer agressão de um homem forte e louco? Enquanto esperava o auxílio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados."
Machado de Assis, "A segunda vida".
Fui uma criança que não gostava de sorvete. Ao saber disso, um amigo me disse: “Extraordinário! Daria para começar um conto: era uma vez uma criança que não gostava de sorvetes”. Ah, retruquei, ninguém acreditaria. Há limites para a ficção.
Mas é verdade, eu realmente fui uma criança que não gostava de sorvete. Passei a gostar quando conheci o de doce de leite da Häagen-Dazs, empresa que, apesar do nome absurdo (ou talvez por isso mesmo), é novaiorquina. Fiquei viciado. A Häagen-Dazs faz mais de 65 sabores de sorvete. Experimentei todos que pude, exceto, claro, os sabores de fruta. Poucas pessoas conseguem conciliar o genuíno apreço por quartetos de Beethoven e sorvetes de morango. A maioria absoluta tem que escolher entre um e outro.
De qualquer forma, cheguei à teoria de que a Häagen-Dazs é um excelente termômetro de civilização. Simples: quanto mais variedades de Häagen-Dazs você consegue encontrar em um lugar, mais civilizado ele é. Aqui em São Paulo dá pra encontrar meia-dúzia. Somos um pouquinho civilizados. Quase 10% civilizados.
Ainda temos que comer muito sorvete pra chegar perto de Nova York.
Seu maior sonho era levar o cinema aos pobres.
Mas para isso teria que enfrentar o pior de seus pesadelos.
Seu Miyagi Contra os Cineastas do Mal
Estrelando Luiz Gushiken, Cacá Diegues, Barretão, José Lewgoy e grande elenco.
Participação especial Gilberto Gil.
Não perca. Breve. Em um cinema perto de você.
É ridículo aplaudir uma tela de cinema, mas quando terminou o documentário Nelson Freire, de João Moreira Salles, eu quase, quase, aplaudi.
Sou amigo de um artista. Ele escreve, desenha, pinta, fotografa, filma, toca guitarra e compõe. Já publicou um livro de poesia neopráxis, montou uma instalação em um acampamento do MST (a instalação foi invadida) e ganhou, há três anos, um concurso de contos em Faxinal dos Guedes, SC.
Sua obra mais intrigante é a barba por fazer. Ele está sempre – sempre! - com uma barba de três dias. Não faço idéia de como consegue mantê-la assim.
Meu amigo lê história em quadrinhos, é fascinado por Pollock e coleciona filmes do Dogma, mas o que ele gosta mesmo é de compor. O diabo é que não estuda - e nem sequer escuta - música. Tudo o que faz é tocar, na guitarra, as próprias composições.
Já ouvi bastante Stockhausen e Jeff Buckley, mas hoje não ouço mais nada. Não quero ser influenciado. Quero que minhas músicas sejam completamente originais.
Minha avó diria com seu sotaque da Mooca:
Ma esse menino é mesmo um artista, viu?
Eis aí o principal problema da arte de hoje em dia. Além de artista, o artista é um artista. É artista demais! É artista quando vai ao banheiro, é artista quando lava a louça, é artista quando sai do restaurante sem pagar. O estudo e o trabalho se tornaram não só irrelevantes mas empecilhos à criação da obra de arte, considerada uma forma de expressão puramente intuitiva. O negócio é não fazer nada e esperar a genialidade se manifestar em uma música minimalista, em um quadro abstrato, em uma poesia concreta, em um romance sobre traficantes de droga, em uma instalação com tampinhas de Grapette, fotos da Audrey Hepburn e estrume de bode.
O negócio é acreditar que o gênio é genial em um estalo, sem esforço, sem trabalho.
Snap! E Tolstoi escreve Guerra e Paz.
Snap! E temos As Senhoritas de Avignon.
Snap! Óóóó! A capela Sistina!
Bach costumava dizer:
Fui obrigado a trabalhar arduamente; quem for igualmente industrioso, conseguirá fazer música como eu faço.
Apesar da evidente modéstia, a afirmação mostra que Bach, talvez o maior músico de todos os tempos, não tinha dúvidas quanto à áspera verdade de que não existe genialidade sem muito estudo e trabalho.
Mozart concordava com ele. Vejam só:
É um erro pensar que a prática de minha arte veio fácil para mim. Asseguro-lhe, caro amigo, que ninguém deu tanta atenção ao estudo da composição quanto eu. Dificilmente existe algum mestre famoso na música cujas obras eu não tenha estudado frequente e diligentemente.
Ou
Eles (os seis quartetos dedicados a Haydn) são, de fato, o fruto de um trabalho longo e árduo; mas a esperança que alguns de meus amigos despertaram em mim, de que minha obra seria recompensada pelo menos parcialmente, me deu coragem e a crença lisonjeadora de que estes meus rebentos algum dia me trarão conforto.
Meu amigo artista quer a recompensa sem o trabalho longo e árduo. Não posso culpá-lo, eu também gostaria disso. A recompensa pode até chegar, como chegou ao Leminski, ao Arnaldo Antunes, ao Andy Warhol. Mas meu amigo continuará sendo, infelizmente, apenas mais um artista, viu?