Argumento
- Você não vai tocar pra eu ouvir?
- Pra você? Nunca! Desde pequeno você ri das minhas músicas.
- E daí? Desde pequena você ri das minhas piadas.
- Você não vai tocar pra eu ouvir?
- Pra você? Nunca! Desde pequeno você ri das minhas músicas.
- E daí? Desde pequena você ri das minhas piadas.
Um amigo me liga desesperado:
- Você recebeu o convite pro casamento do André?
- Recebi.
- Meu deus, todos os nossos amigos de colégio estão se casando.
- Quem diria. O Renatão, o Elemento, o Inácio. E agora o André.
- Me diz uma coisa. Esses caras sempre enchiam a cara, não é mesmo?
- É.
- E vomitavam nas festas?
- É verdade.
- E sempre batiam o carro.
- Sempre.
- E arranjavam briga nas boates.
- Pois é.
- A gente nunca fazia nada disso.
- Bem, quase nunca.
- E agora eles estão se casando.
- Quem diria.
- Não vai ser agora que a gente vai seguir esses caras.
Marta Suplicy foi à Sala São Paulo, domingo, assistir à Orquestra de Albuquerque tocar Brahms e Strauss. Todo mundo foi. Assistir, não ouvir. Ouvir é tão, tão passé.
Taxa do lixo.
E eu fui ontem ao Cultura Artística, que cada vez mais aparenta ser freqüentado pelas mesmas pessoas que freqüentam as melhores casas suspeitas da região, Skorpios, Vagão, Kilt. A orquestra era para ouvir, apesar das três instrumentistas loiras e lindas. Combattimento Consort Amsterdam, com Jacques Zoon solando na flauta. Entre animadas conversas e intermináveis fungadas de velhotes resfriados, era possível reconhecer o Grande Bach, o Padre Vivaldino, o Velho Telemann e mais três barroquinhos espevitados da porra.
Atrás de mim, uma senhora explicava à outra:
- Você não pode aplaudir entre os tempos da música (ela queria dizer movimentos).
E a outra:
- Ai, eu quase aplaudi.
Veio o primeiro bis. O spalla anunciou: ladies and gentlemen, Pur-cééééél.
E a outra:
- Não estou achando essa música no programa.
O comentário perspicaz desencadeou uma conversa que durou o tempo exato do bis. A outra levantou-se aplaudindo enlouquecidamente, bem na minha orelha. Quase fiquei surdo. Deu-se início à tradicional corrida ao estacionamento, mas para azar dos retardatários, os combattimenti voltaram ao palco. Desta vez, good Gluck.
Lição aprendida: poucos e efêmeros aplausos.
E a outra:
- Agora foi, né?
Agora foi!
Os músicos não voltaram, as luzes se acenderam e todo mundo comentando como fora maravilhoso o concerto, como tocara bem aquele… como se chama mesmo quem toca aquele instrumento? Aquele! Ah, sim, flautista.
Tenho as neuroses de São Paulo e a decadência do Rio de Janeiro.
Meu primeiro ato como prefeito seria mandar espancar e prender o coreano que vende yucksoba na avenida Paulista. Adolescentes bonitas se empanturram com aquilo e seus rostos derretem como plástico no fogo. O odor deixa Cubatão no chinelo. A vida se esquiva de todos os sentidos.
Os anúncios de emprego para jornalista aqui em São Paulo, quando existem, pedem fluência em inglês, às vezes espanhol. Hoje vi um anúncio lá de Cuiabá. Pede fluência em português. Juro.
Eu confesso. Tentei escrever comentários com pseudônimo para o meu próprio blog. É claro! Escrevi o post abaixo, pensei que ia causar tumulto e o pessoal dos naum e dos entaum iam me xingar e atacar erros gramaticais na minha cabeça… mas nada, nada. C’mon guys! Eu estava defendendo traficantes ali embaixo! Sim, a honesta e saudável profissão de passar drogas à garotada! Só o Danilo Amaral comentou e ele concordou comigo! Não que eu não concorde comigo, mas diabos, eu queria… tumulto! Queria dar uma sacudida nisto aqui, é isso, bagunçar o coreto, chutar o pau da barraca… tumultuar!
Mas nada, nada. Então tentei forjar um tumulto. Escrever algo como vc naum pode dizer isso, seu canalha! Mas vc naum pode dizer isso, seu canalha não é muito interessante, é convencional, um verdadeiro idiota nunca escreveria assim. O verdadeiro idiota é muito mais sofisticado. Faz erros de gramática e lógica onde você menos espera, usa as palavras de um modo genialmente… tumultuado.
Eu não consegui. Tenho que admitir, não sei escrever idiotices de propósito. Só escrevo idiotices sem querer.
É mais fácil escrever Hamlet do que Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei.
Você está numa ilha com a sua garota e ela lhe pede um grampo de cabelo e não há um único maldito grampo de cabelo na ilha inteira. A sua sorte é que você encontra um índio que acabou de conseguir um – trocou lá no continente por uma canoa cheia de melancias. Você compra o grampo do índio.
Ou você e sua garota estão morrendo de vontade de comer banana-da-terra. O solo da ilha não é bom pra banana-da-terra. Um marujo aporta na ilha, você negocia com ele e ele lhe promete arranjar uma caixa amanhã mesmo.
OK. Sua namorada está com o cabelo preso e vocês se entupiram de banana-da-terra. Querem se divertir um pouco, sei lá, nada muito agitado, apenas fumar um baseado e olhar as estrelas. Vocês não têm um baseado. Talvez o índio ou o marujo possam arranjar. Mas daí eles não seriam índio nem marujo, seriam, ó meu deus, traficantes. Não se fala em traficante de grampos de cabelo: é o índio que troca melancias por grampos de cabelo e pode arranjar alguns pra você. Não se fala em marujo traficante de banana-da-terra: é o marujo que amanhã mesmo consegue uma caixa de banana pra você. Mas um baseado, um simples baseado, é coisa de traficante. E traficante, pra população da ilha, é a encarnação do mal, é o responsável pelos naufrágios, pelas tempestades, por toda e qualquer violência que ocorre na ilha.
É preciso admitir que um traficante de baseado, ou de coca ou de qualquer outro barato, não é beato de novela da Globo. É mais mal educado do que um operador da bolsa; tem mais mau gosto do que um garçom de cantina; é quase tão inteligente quanto um jogador de basquete; em suma, é um advogado on drugs armado até os dentes.
É preciso admitir tudo isso, a maior parte dos traficantes não é gente boa e coisa e tal, mas o ato em si de traficar, veja bem, o ato em si é tão louvável quanto o ato de se arranjar um grampo de cabelo ou uma caixa de banana-da-terra. Você e sua namorada querem ver as estrelas chapados, querem viajar e aquele sujeito disse que pode arranjar o bagulho. Viva o sujeito. Três hurrays pro sujeito.
Conto essa pequena história de quando você e sua namorada passaram um tempo naquela ilha pra dizer que sou absolutamente contra punir ou mesmo repreender o traficante pelo crime de tráfico de droga. Se o sujeito mata, rouba, seqüestra, deve ser punido por assassinato, roubo, seqüestro. Mas não há crime de tráfico de droga. Há pessoas que querem comprar e pessoas que vendem. Por que o governo se mete?
Os naufrágios e as tempestades não são provocados pelo índio e pelo marujo. São provocados pela natureza – e pelo governo da ilha.
- Primeiro os cientistas descobrem que o humano é macaco. Agora descobrem que o macaco é humano.
- Daqui a pouco vão descobrir que o macaco é mais humano do que o nosso vizinho.
- Os cientistas estão sempre atrasados.
- Eles falaram alguma coisa sobre alma?
- Quem?
- Os cientistas.
- Falaram que a alma do macaco também é humana. Só que um pouquinho mais peluda.
- E a alma do homem?
- A alma do homem é símia. Só que um pouquinho mais magra.
- E a da mulher?
- A alma da mulher é bem mais magra.
- E menos peluda?
- E menos peluda.
- E a do nosso vizinho?
- A do nosso vizinho veste um terno roxo da Mesbla.
- Será que um dia eles vão descobrir que deus é macaco?
- Eles quem?
- Os cientistas.
- Os cientistas são capazes de descobrir qualquer coisa que já tenha sido descoberta.
- Eu já descobri coisa que nunca foi descoberta.
- O quê?
- Não sei. Nunca foi descoberta.
- Eu já fui um cientista.
- Você já foi um cientista?
- Já.
- O que você descobriu?
- Eu descobri que eu já fui um cientista.
- É uma grande descoberta.
- Mas já tinha sido descoberta antes.
- Os cientistas estão sempre atrasados. Imagine, eles descobriram que o nosso vizinho não é humano.
- Ainda bem que eu não sou mais um cientista.
- Você não é mais um cientista?
- Eu descobri que eu não sou mais um cientista.
- Isso eu já sabia.
- E a alma do gato? O que os cientistas dizem sobre a alma do gato?
- De qual gato?
- Do nosso gato.
- Sua alma tem cauda.
- A minha?
- A do nosso gato.
- O nosso gato é o menos humano dos humanos.
- E o menos macaco dos macacos.
- E o menos vizinho dos vizinhos.
- Eu não queria ser macaco.
- Eu não queria ser humano.
- Eu não queria ser meu vizinho.
- Eu não queria ser seu vizinho.
- Eu não queria ser cientista.
(continuam, ad infinitum, dizendo eu não queria ser uma faca de cozinha, eu não queria ser um aparelho de som, eu não queria ser uma porta giratória, etc.)
Toda a sociedade está reunida em um enorme salão. Um sujeito bate com o martelo em uma mesa:
- Silêncio! Silêncio! Agora é a vez da Gisele Bündchen.
Êêêêêêêê!, gritam as pessoas, jogando seus chapéus para cima.
- Silêncio! Silêncio! Quanto vocês dão?
Uma multidão de carteira em punho se aproxima ruidosamente de uma urna. Algumas mulheres com a barba por fazer tentam impedi-la de depositar o dinheiro. Uma tal de Maria da Conceição Tavares senta em cima da urna, gritando:
- Ninguém vai dar dinheiro para essa mulherzinha! Há gente passando fome no mundo!
Alguém responde:
- A Gisele também passa fome!
Gargalhadas. A multidão derruba e pisoteia a tal da Maria da Conceição Tavares. Êêêêêêêê!
- Silêncio! Silêncio! O próximo é o Gugu Liberato.
Algumas faixas são levantadas.
Não financiem o mau gosto!
Há fome no mundo!
Vão tomar no Gugu!
Intelectuais enfiados em ternos amarrotados, os rostos escondidos sob óculos do tamanho de observatórios lunares, protestam enquanto são arrastados pela multidão. Alguns acabam sendo depositados na urna.
- Silêncio! Silêncio!
- Quem é agora?
- Agora é o Fabio. Ele está tentando escrever um livro. Vamos lá, pessoal. Literatura é importante.
Finalmente faz-se um rápido silêncio.
- Desculpe, estou sem nada aqui.
- Esqueci minha carteira em casa.
- Puxa vida, se eu soubesse que poderia ajudar a Literatura teria trazido mais dinheiro.
E alguém, a pleno pulmões:
- Que literatura porra nenhuma!
Êêêêêêêêêêêêêêêê!
Um velhinho caridoso tira uma moeda do bolso e a joga em minha direção.
- Go get a candy bar, kid.
E assim, Gisele Bündchen ganha em um desfile de meia hora o que eu ganho em oito anos. E Gugu Liberato recebe anualmente o que eu levaria cinco mil anos de trabalho ininterrupto para receber.