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Arquivo de junho, 2003

Textículos

26, junho, 2003 FDR 5 comentários

Depois da parada gay, seguiram para uma festa de arromba.

Cara, a parada zoófila foi animal.

As mulheres vão à parada gay porque é cool ir à parada gay. Os homens vão à parada gay porque é um ambiente de pouca concorrência para catar mulher. Os gays… bom, que diabos os gays vão fazer ali? Caiam fora, suas bichas.

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Sertão

26, junho, 2003 FDR 1 comentário

Isolado, me perco na turba dos nevróticos vulgares.

A Terra é o exílio insuportável, o morto um bem-aventurado sempre.

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Saudades do George Burns

25, junho, 2003 FDR 3 comentários

Jim Carrey é um conhecido repórter televisivo e namora a Jennifer Aniston. Vida de cão. Inconformado, insulta Deus.

Deus é preto. E faxineiro. Apieda-se do pobre repórter. Apieda-se a ponto de tirar umas férias e colocá-lo em seu lugar.

Jim Carrey se torna deus.

Deus bebe vinho com o dedo mindinho levantado. Dirige Ferrari. Ouve Snap!. Num arroubo de magnanimidade, atende às preces de todos os habitantes de sua cidade que sonham em ganhar na loteria. O diabo é que o valor do prêmio fica abaixo do esperado, os vencedores se revoltam e há um terrível quebra-quebra.

Jim Carrey aprende que não é nada fácil ser deus.

É mais ou menos esse o enredo de Todo Poderoso. Complexo. Não consegui acompanhar direito. Tive que me concentrar na pipoca. Quase duas horas de pipoca. Quando o filme acabou, meu maxilar doía e meus lábios estavam inchados pelo excesso de sal. Eu parecia o Morgan Freeman.

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Um conselho e uma ajuda

24, junho, 2003 FDR 1 comentário

Paulo esperava a mulher sair do dentista, ouvindo Revolver dos Beatles, batucando com os dedos no volante. Exatamente na passagem de uma música para a outra, viu um vulto com os cantos dos olhos. O que não cabe em um segundo? Toda uma vida cabe em um segundo, em menos até. O vulto, a porrada no vidro, a arma apontada pra sua cabeça.

Destrava essa merda, fica na boa. Um homem no banco de passageiro, dois no banco de trás. Um deles deu-lhe uma coronhada no ombro, só pra te deixar esperto. A dor foi terrível. Inveja da mulher no dentista. Look at all the lonely people.

Liga essa merda, vamos dar uma volta. Duas ruas adiante, Paulo passou pro banco de trás. Olhou tristemente um brinquedo do filho, esquecido no chão.

- Se quiser ver seu filho brincar de novo, colabora.

Paulo colaborou. Retirou dinheiro de três caixas eletrônicos. Uma hora e meia de bico calado, a dor no ombro, três vezes Revolver.

O carro parou numa rua de terra, deserta, não parecia São Paulo. O ladrão do volante virou-se e disse:

- Nunca mais fique esperando dentro do carro. Conselho de amigo. Agora se manda.

Antes de se mandar, quase agradeceu o conselho. Caminhou durante muito tempo, a mão no ombro como se pudesse estancar a dor. Algumas casinhas, alguns botecos. Um orelhão quebrado. De repente, dois carros frearam bruscamente, o vidro fumê de um deles descendo.

- Ei, Paulo, tá perdido?

Era Rodolfo, um conhecido de bairro, ex-pobretão, agora vereador, como ficar rico em um único mandato. Percorria a periferia, campanha pra reeleição, sácuméquié? Paulo contou rapidamente o que acontecera.

- Toma cinquenta reais. Aceita, porra. É pra você pegar um táxi. Sua mulher deve estar trincando os dentes de preocupação.

- Obrigado. É muita gentileza sua.

Os carros arrancaram. Paulo deu sorte, encontrou um táxi somente duas horas depois. No caminho pra casa, ficou pensando nessas duas espécimes tão comuns na mata brasileira: o bandido gente boa, o canalha generoso.

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Hoje botei um ponto final

24, junho, 2003 FDR 2 comentários

Hoje botei um ponto final no meu primeiro livro. Acho que é um dos melhores livros que já escrevi.

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A vidente

23, junho, 2003 FDR 4 comentários

Um dia, voltando a pé do trabalho, Afonso reparou numa pequena porta perto de sua casa, e na plaquinha que balançava sobre ela: Vidente. Lê-se o passado.

Afonso não conteve uma gargalhada. Vidente do passado! Então tá bom! Passou na padaria e levou o assunto e dois pães franceses à mesa de jantar. Disse à esposa:

- Aposto que o lugar vive às moscas. O passado nunca é tão interessante quanto o futuro.

A esposa discordou:

- Acho que é mais difícil compreender o passado do que adivinhar o futuro. E quanto mais a gente compreende o passado, menos interesse a gente tem pelo futuro.

Afonso ficou com aquilo na cabeça. Será que a vidente lia mesmo o passado? E se lia, explicava? E como fazia? Lia o dorso da mão?

Uma semana depois, parou em frente àquela pequena porta, coçou o cabelo, fumou um cigarro, olhou dez vezes o relógio em dez minutos, certificou-se de que ninguém na rua o veria entrar, e entrou. Uma voz caquética lhe disse boa noite, e por trás de uma nuvem de maquiagem barata ele reconheceu um enxame de rugas e cicatrizes, e por trás do enxame de rugas e cicatrizes ele reconheceu uma senhora; na verdade, uma velhinha, a mulher mais velha que já vira. “De passado ela deve entender”, pensou, e quase riu do próprio pensamento. Retribuiu o boa noite.

- A leitura dos últimos dez anos custa cinquenta reais. Dos últimos vinte, cem. Qual você quer?

- Cem reais? Meu passado não vale tanto, respondeu Afonso. Quero o de cinquenta.

A velha suspirou e o encaminhou a uma salinha minúscula, onde sentaram em almofadões vermelhos, separados por uma mesa que ostentava uma bola de vidro.

- Não preciso de bola de cristal. Pra ler o passado, qualquer copo de requeijão serve.

Afonso perguntou por quê.

- Passado é coisa comum. Não há quem não tenha. Mas futuro. Isso é coisa pra poucos.

Disse isso e riu uma risada sinistra. Afonso estremeceu. Tentou falar alguma coisa, mas a velhinha levantou uma mão espalmada e gritou:

- Silêncio!

Ficaram em silêncio. Dois, cinco, dez minutos. Então a velhinha se pôs a falar.

- Há dez anos você se casou com uma garota, filha de um amigo de infância do seu pai. Tiveram um filho logo depois, mas ele morreu antes de completar um ano. A garota nunca mais quis engravidar de novo. Para apagar as lembranças do filho morto, ela o convenceu a aceitar um emprego em São Paulo.

A velhinha foi falando e falando e Afonso simplesmente não podia acreditar no que ouvia. Ela sabia mais do que ele de sua própria vida! A velhinha contou tudo, até o momento em que ele ficara ali na porta, pensando se entraria ou não, fumando um cigarro, olhando as horas, envergonhado de entrar.

- Você tocou a campainha e eu o atendi. Mas…

A velhinha fez um suspense terrível após o mas, esticando o “s” durante muito tempo, como se estivesse representando a mais absurda caricatura de um carioca… sssssss.

- Mas?

- Mas… se você, há dez anos, tivesse conversado com aquela garota ruiva naquele bar perto de sua casa, se você tivesse tomado coragem pra trocar duas ou três palavras com ela, vocês teriam se casado um ano depois… você não estaria em São Paulo agora, teria conseguido uma transferência pra Nova York. A garota lhe daria três filhos em três anos, e você sentiria uma força que não supunha haver dentro de você. Em pouco tempo…

Afonso interrompeu a velha. Ele lembrava daquela ruiva. Daquele rosto. Embora o tempo o tivesse embaçado, sua memória insistia em dizer que era o rosto mais bonito que ele já tinha visto.

- Eu pensei que você lesse o passado, e não o futuro de um passado que não aconteceu.

- Você não estaria aqui, se tivesse trocado duas ou três palavras com ela. Nem teria essas olheiras. Nem esse jeito triste.

Afonso se irritou e teve que se controlar para não bater na velha. Tirou a carteira do bolso, jogou uma nota de cinquenta reais em cima da mesa e saiu batendo a porta.

Em casa, sua esposa o esperava com a mesma comida insossa de sempre. Comeram em silêncio, até ele falar:

- Sabe, estive pensando sobre o que você me disse. Sobre compreender o passado. Acho isso uma grande bobagem. Eu prevejo o futuro daquela vidente: vai morrer de fome.

E abocanhou com fúria um pedaço de bife duro e sem sal.

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I’ve never been in Paris

22, junho, 2003 FDR 4 comentários

I’ve never been in Paris for the summer

I’ve never drunk a Scotch with this bouquet

My life is such a mess, let’s have a Brahma

I’m happy that you called, I really feel touché oh

It’s been a long, a very long time

Since a Brazilian has been in Paris com você

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Vista curta

13, junho, 2003 FDR 11 comentários

Os pais achavam que o menino era retardado. Demorara tanto para andar e falar! E agora, na escola, não aprendia, não brincava, não tinha um único amiguinho. Levaram-no a um psicólogo. Após uma rápida análise, o doutor chamou os pais e explicou:

- O problema não está na cabeça. Está nos olhos.

- Os olhos ficam na cabeça, gracejou o pai.

O doutor suspirou.

- O menino não enxerga um palmo a frente do nariz. Pelo visto, vocês também não.

Os pais saíram ofendidos com o psicólogo, isso era jeito de falar? No entanto, confiaram em sua palavra e levaram o menino a um oculista. O oculista se espantou.

- Mas ele está quase cego! Como vocês não perceberam antes?

- Achamos que ele era retardado, doutor.

- Acharam que ele era retardado?

Mandaram fazer um óculos enorme (pagaram, claro, à vista). Ao colocá-lo, o menino abriu um largo sorriso – era seu primeiro sorriso – e exclamou:

- Como o mundo é bonito!

A mãe ficou emocionada e não conteve uma lágrima, mas o pai cochichou:

- Estávamos certos. Além de cego, é retardado.

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Medida de contenção populacional, em

11, junho, 2003 FDR 3 comentários

Medida de contenção populacional, em caráter de urgência: incineração de todos os casais que saem para comemorar o dia dos namorados.

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O Entregador

10, junho, 2003 FDR 8 comentários

Não era a melhor profissão do mundo.

A primeira vez foi a mais difícil. Antônio parou em frente à porta de Amanda Albuquerque e ficou lá parado durante dez ou quinze minutos. Quando tomou coragem para tocar a campainha, sua mão tremia.

- Boa tarde. Eu poderia falar com a sra. Albuquerque, por favor?

- Pois não?

A sra. Albuquerque ali à sua frente, de avental branco, o cabelo preso com um lenço xadrez, um pedacinho de batata grudado na bochecha rosada. Antônio lembrou durante muito tempo daquela imagem. O pedacinho de batata grudado na bochecha rosada! Teve vontade avisá-la – senhora, a sua bochecha– mas diabos, ele estava lá para dizer que o sr. Albuquerque, jovem tenente da aeronáutica, tenente como o próprio Antônio, Carlos Albuquerque Jr., 26 anos, sujeito amável que gostava de jogar sinuca e beber cerveja com os amigos, pai de duas crianças, marido daquela senhora de avental branco, o cabelo preso com um lenço xadrez e um pedacinho de batata grudado na bochecha rosada, o tenente Albuquerque simplesmente não existia mais, morrera em um acidente às dez horas e dezessete minutos daquela manhã.

Definitivamente não era a melhor profissão do mundo.

Mas, apesar do nervosismo que sacudia todo o seu corpo naquelas primeiras vezes, Antônio era tão delicado com as palavras e conseguia passar tanta calma que foi contratado para comunicar oficialmente às esposas ou pais ou parentes mais próximos os falecimentos ocorridos durante o cumprimento do dever. A cidade ficava em uma região pródiga em incêndios florestais e nela estava instalada a base nacional dos bombeiros aéreos. Em certos anos, mais de trinta bombeiros perdiam a vida no cumprimento do dever.

No começo, Antonio era bem visto. Seu rosto extremamente pálido parecia reunir as dores de todas as viúvas da cidade, que o chamavam de “o padre militar”, ou “o militar de batina”. Não eram poucos os que o agradeciam publicamente pela sua consideração.

O apreço por Antônio, no entanto, não durou muito. Os bombeiros passaram a evitá-lo e as mulheres sentiam o coração gelar cada vez que o viam. Ele parecia estar sempre de mãos dadas com a morte, levando-a para passear antes de apresentá-la às pessoas. Olá, senhora Salgueiro! Já conhece a dona Morte? Não seria adorável se tomássemos chá juntos um dia desses? A Morte tem tantas histórias para contar!

Antônio, o jovem e pálido tenente Antônio, começou a envelhecer e a tomar feições cada vez mais sombrias. Aqueles olhos de lua cheia! Aquele ar fantasmagórico! Quando seus dedos finos, feitos quase só de ossos, esticavam-se para tocar a campainha, parecia que a morte em pessoa estava ali, sobre o capacho, pisando em cima do escrito de bem-vindo da casa de alguém que, se não fosse a visita dele, teria sido feliz.

Logo os habitantes da cidade o odiavam, embora ninguém tivesse coragem de despedi-lo daquele terrível cargo – a morte podia não gostar. A superstição era maior do que o ódio.

Negavam-lhe um simples olá – como se fosse ele o responsável pelas fatalidades, e não os aviões, os helicópteros, os pára-quedas, os incêndios! Antônio foi obrigado a viver na mais completa solidão. Saía de casa apenas para dar as notícias fúnebres e acompanhar os enterros com seu uniforme militar. Passou a desprezar a população e a sentir prazer com as notícias que dava.

Às vezes se passavam um, dois, três ou mesmo quatro meses sem acidentes fatais, e Antônio entrava em profunda depressão. Mas com que alegria recebia a notícia da explosão de uma aeronave!

Um dia, porém, quando a jovem esposa do major Campos abriu aquela porta de madeira pintada de branco daquela casa cheia de flores e porta-retratos, quando aquela garota linda de não mais de vinte e dois anos, verdadeiramente angelical, com cabelos loiros encaracolados escorrendo-lhe sobre os ombros, quando ela o viu e aquele rostinho tão lindo se contraiu em terror, Antônio, pela primeira vez desde aquelas primeiras vezes, sentiu seu coração acelerar, o suor escorrer pelas palmas da mão, a pressão cair. Gaguejou:

- Me… me.. desculpe… incomodá-la, sra. Campos. Eu estava passando nas redondezas e acho que o calor baixou a minha pressão. A sra. poderia… teria… um pouco… de… sal…

- Por favor, entre, seu Antônio. Sente-se no sofá. Vou buscar pra você.

E lá estava ele, sentado no sofá da casa do defunto… subitamente apaixonado pela viúva.

Não teve coragem de dar a notícia. Conversou sobre o calor. Sobre os incêndios. Sobre o bravo trabalho dos bombeiros aéreos.

Amaldiçoou sua profissão e sua vida. Teria sido preferível arriscá-la nas selvas fumegantes do que ter carregado a morte nas costas, despejando-a de casa em casa. Havia o leiteiro, havia o jornaleiro, e havia ele! O entregador de morte! Ah, que inveja sentia do major Campos, do seu trabalho heróico, da sua esposa linda, da sua casinha cheia de flores e porta-retratos… era verdade que agora Campos não passava de uma pasta vermelha esparramada pelo chão da floresta, mas e daí? Ele vivera! Ele vivera e deixara aquela, aquela, viúva.

Antônio se levantou, agradeceu, disse que precisava ir andando. Estava decidido a pedir demissão.

Na calçada, lembrou que ainda tinha uma última notícia funesta a comunicar. Era a última, depois adeus a essa vida de mortes! A última maldita notícia! Atravessou a rua, subiu uma ladeira, desceu outra, pegou uma pequena escadaria de pedras e parou em cima do capacho de uma casa de paredes descascadas, feia e silenciosa. Estava ofegante. Esperou um pouco, tomou fôlego e então tocou a campainha. A última! A última notícia!

Quando a porta abriu, meu deus, meu deus, era ele, era ele próprio quem estava do outro lado da porta.

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