Não era a melhor profissão do mundo.
A primeira vez foi a mais difícil. Antônio parou em frente à porta de Amanda Albuquerque e ficou lá parado durante dez ou quinze minutos. Quando tomou coragem para tocar a campainha, sua mão tremia.
- Boa tarde. Eu poderia falar com a sra. Albuquerque, por favor?
- Pois não?
A sra. Albuquerque ali à sua frente, de avental branco, o cabelo preso com um lenço xadrez, um pedacinho de batata grudado na bochecha rosada. Antônio lembrou durante muito tempo daquela imagem. O pedacinho de batata grudado na bochecha rosada! Teve vontade avisá-la – senhora, a sua bochecha– mas diabos, ele estava lá para dizer que o sr. Albuquerque, jovem tenente da aeronáutica, tenente como o próprio Antônio, Carlos Albuquerque Jr., 26 anos, sujeito amável que gostava de jogar sinuca e beber cerveja com os amigos, pai de duas crianças, marido daquela senhora de avental branco, o cabelo preso com um lenço xadrez e um pedacinho de batata grudado na bochecha rosada, o tenente Albuquerque simplesmente não existia mais, morrera em um acidente às dez horas e dezessete minutos daquela manhã.
Definitivamente não era a melhor profissão do mundo.
Mas, apesar do nervosismo que sacudia todo o seu corpo naquelas primeiras vezes, Antônio era tão delicado com as palavras e conseguia passar tanta calma que foi contratado para comunicar oficialmente às esposas ou pais ou parentes mais próximos os falecimentos ocorridos durante o cumprimento do dever. A cidade ficava em uma região pródiga em incêndios florestais e nela estava instalada a base nacional dos bombeiros aéreos. Em certos anos, mais de trinta bombeiros perdiam a vida no cumprimento do dever.
No começo, Antonio era bem visto. Seu rosto extremamente pálido parecia reunir as dores de todas as viúvas da cidade, que o chamavam de “o padre militar”, ou “o militar de batina”. Não eram poucos os que o agradeciam publicamente pela sua consideração.
O apreço por Antônio, no entanto, não durou muito. Os bombeiros passaram a evitá-lo e as mulheres sentiam o coração gelar cada vez que o viam. Ele parecia estar sempre de mãos dadas com a morte, levando-a para passear antes de apresentá-la às pessoas. Olá, senhora Salgueiro! Já conhece a dona Morte? Não seria adorável se tomássemos chá juntos um dia desses? A Morte tem tantas histórias para contar!
Antônio, o jovem e pálido tenente Antônio, começou a envelhecer e a tomar feições cada vez mais sombrias. Aqueles olhos de lua cheia! Aquele ar fantasmagórico! Quando seus dedos finos, feitos quase só de ossos, esticavam-se para tocar a campainha, parecia que a morte em pessoa estava ali, sobre o capacho, pisando em cima do escrito de bem-vindo da casa de alguém que, se não fosse a visita dele, teria sido feliz.
Logo os habitantes da cidade o odiavam, embora ninguém tivesse coragem de despedi-lo daquele terrível cargo – a morte podia não gostar. A superstição era maior do que o ódio.
Negavam-lhe um simples olá – como se fosse ele o responsável pelas fatalidades, e não os aviões, os helicópteros, os pára-quedas, os incêndios! Antônio foi obrigado a viver na mais completa solidão. Saía de casa apenas para dar as notícias fúnebres e acompanhar os enterros com seu uniforme militar. Passou a desprezar a população e a sentir prazer com as notícias que dava.
Às vezes se passavam um, dois, três ou mesmo quatro meses sem acidentes fatais, e Antônio entrava em profunda depressão. Mas com que alegria recebia a notícia da explosão de uma aeronave!
Um dia, porém, quando a jovem esposa do major Campos abriu aquela porta de madeira pintada de branco daquela casa cheia de flores e porta-retratos, quando aquela garota linda de não mais de vinte e dois anos, verdadeiramente angelical, com cabelos loiros encaracolados escorrendo-lhe sobre os ombros, quando ela o viu e aquele rostinho tão lindo se contraiu em terror, Antônio, pela primeira vez desde aquelas primeiras vezes, sentiu seu coração acelerar, o suor escorrer pelas palmas da mão, a pressão cair. Gaguejou:
- Me… me.. desculpe… incomodá-la, sra. Campos. Eu estava passando nas redondezas e acho que o calor baixou a minha pressão. A sra. poderia… teria… um pouco… de… sal…
- Por favor, entre, seu Antônio. Sente-se no sofá. Vou buscar pra você.
E lá estava ele, sentado no sofá da casa do defunto… subitamente apaixonado pela viúva.
Não teve coragem de dar a notícia. Conversou sobre o calor. Sobre os incêndios. Sobre o bravo trabalho dos bombeiros aéreos.
Amaldiçoou sua profissão e sua vida. Teria sido preferível arriscá-la nas selvas fumegantes do que ter carregado a morte nas costas, despejando-a de casa em casa. Havia o leiteiro, havia o jornaleiro, e havia ele! O entregador de morte! Ah, que inveja sentia do major Campos, do seu trabalho heróico, da sua esposa linda, da sua casinha cheia de flores e porta-retratos… era verdade que agora Campos não passava de uma pasta vermelha esparramada pelo chão da floresta, mas e daí? Ele vivera! Ele vivera e deixara aquela, aquela, viúva.
Antônio se levantou, agradeceu, disse que precisava ir andando. Estava decidido a pedir demissão.
Na calçada, lembrou que ainda tinha uma última notícia funesta a comunicar. Era a última, depois adeus a essa vida de mortes! A última maldita notícia! Atravessou a rua, subiu uma ladeira, desceu outra, pegou uma pequena escadaria de pedras e parou em cima do capacho de uma casa de paredes descascadas, feia e silenciosa. Estava ofegante. Esperou um pouco, tomou fôlego e então tocou a campainha. A última! A última notícia!
Quando a porta abriu, meu deus, meu deus, era ele, era ele próprio quem estava do outro lado da porta.