


Depois da parada gay, seguiram para uma festa de arromba.
Cara, a parada zoófila foi animal.
As mulheres vão à parada gay porque é cool ir à parada gay. Os homens vão à parada gay porque é um ambiente de pouca concorrência para catar mulher. Os gays... bom, que diabos os gays vão fazer ali? Caiam fora, suas bichas.
Isolado, me perco na turba dos nevróticos vulgares.
A Terra é o exílio insuportável, o morto um bem-aventurado sempre.
Jim Carrey é um conhecido repórter televisivo e namora a Jennifer Aniston. Vida de cão. Inconformado, insulta Deus.
Deus é preto. E faxineiro. Apieda-se do pobre repórter. Apieda-se a ponto de tirar umas férias e colocá-lo em seu lugar.
Jim Carrey se torna deus.
Deus bebe vinho com o dedo mindinho levantado. Dirige Ferrari. Ouve Snap!. Num arroubo de magnanimidade, atende às preces de todos os habitantes de sua cidade que sonham em ganhar na loteria. O diabo é que o valor do prêmio fica abaixo do esperado, os vencedores se revoltam e há um terrível quebra-quebra.
Jim Carrey aprende que não é nada fácil ser deus.
É mais ou menos esse o enredo de Todo Poderoso. Complexo. Não consegui acompanhar direito. Tive que me concentrar na pipoca. Quase duas horas de pipoca. Quando o filme acabou, meu maxilar doía e meus lábios estavam inchados pelo excesso de sal. Eu parecia o Morgan Freeman.
Paulo esperava a mulher sair do dentista, ouvindo Revolver dos Beatles, batucando com os dedos no volante. Exatamente na passagem de uma música para a outra, viu um vulto com os cantos dos olhos. O que não cabe em um segundo? Toda uma vida cabe em um segundo, em menos até. O vulto, a porrada no vidro, a arma apontada pra sua cabeça.
Destrava essa merda, fica na boa. Um homem no banco de passageiro, dois no banco de trás. Um deles deu-lhe uma coronhada no ombro, só pra te deixar esperto. A dor foi terrível. Inveja da mulher no dentista. Look at all the lonely people.
Liga essa merda, vamos dar uma volta. Duas ruas adiante, Paulo passou pro banco de trás. Olhou tristemente um brinquedo do filho, esquecido no chão.
- Se quiser ver seu filho brincar de novo, colabora.
Paulo colaborou. Retirou dinheiro de três caixas eletrônicos. Uma hora e meia de bico calado, a dor no ombro, três vezes Revolver.
O carro parou numa rua de terra, deserta, não parecia São Paulo. O ladrão do volante virou-se e disse:
- Nunca mais fique esperando dentro do carro. Conselho de amigo. Agora se manda.
Antes de se mandar, quase agradeceu o conselho. Caminhou durante muito tempo, a mão no ombro como se pudesse estancar a dor. Algumas casinhas, alguns botecos. Um orelhão quebrado. De repente, dois carros frearam bruscamente, o vidro fumê de um deles descendo.
- Ei, Paulo, tá perdido?
Era Rodolfo, um conhecido de bairro, ex-pobretão, agora vereador, como ficar rico em um único mandato. Percorria a periferia, campanha pra reeleição, sácuméquié? Paulo contou rapidamente o que acontecera.
- Toma cinquenta reais. Aceita, porra. É pra você pegar um táxi. Sua mulher deve estar trincando os dentes de preocupação.
- Obrigado. É muita gentileza sua.
Os carros arrancaram. Paulo deu sorte, encontrou um táxi somente duas horas depois. No caminho pra casa, ficou pensando nessas duas espécimes tão comuns na mata brasileira: o bandido gente boa, o canalha generoso.
Hoje botei um ponto final no meu primeiro livro. Acho que é um dos melhores livros que já escrevi.
Um dia, voltando a pé do trabalho, Afonso reparou numa pequena porta perto de sua casa, e na plaquinha que balançava sobre ela: Vidente. Lê-se o passado.
Afonso não conteve uma gargalhada. Vidente do passado! Então tá bom! Passou na padaria e levou o assunto e dois pães franceses à mesa de jantar. Disse à esposa:
- Aposto que o lugar vive às moscas. O passado nunca é tão interessante quanto o futuro.
A esposa discordou:
- Acho que é mais difícil compreender o passado do que adivinhar o futuro. E quanto mais a gente compreende o passado, menos interesse a gente tem pelo futuro.
Afonso ficou com aquilo na cabeça. Será que a vidente lia mesmo o passado? E se lia, explicava? E como fazia? Lia o dorso da mão?
Uma semana depois, parou em frente àquela pequena porta, coçou o cabelo, fumou um cigarro, olhou dez vezes o relógio em dez minutos, certificou-se de que ninguém na rua o veria entrar, e entrou. Uma voz caquética lhe disse boa noite, e por trás de uma nuvem de maquiagem barata ele reconheceu um enxame de rugas e cicatrizes, e por trás do enxame de rugas e cicatrizes ele reconheceu uma senhora; na verdade, uma velhinha, a mulher mais velha que já vira. “De passado ela deve entender”, pensou, e quase riu do próprio pensamento. Retribuiu o boa noite.
- A leitura dos últimos dez anos custa cinquenta reais. Dos últimos vinte, cem. Qual você quer?
- Cem reais? Meu passado não vale tanto, respondeu Afonso. Quero o de cinquenta.
A velha suspirou e o encaminhou a uma salinha minúscula, onde sentaram em almofadões vermelhos, separados por uma mesa que ostentava uma bola de vidro.
- Não preciso de bola de cristal. Pra ler o passado, qualquer copo de requeijão serve.
Afonso perguntou por quê.
- Passado é coisa comum. Não há quem não tenha. Mas futuro. Isso é coisa pra poucos.
Disse isso e riu uma risada sinistra. Afonso estremeceu. Tentou falar alguma coisa, mas a velhinha levantou uma mão espalmada e gritou:
- Silêncio!
Ficaram em silêncio. Dois, cinco, dez minutos. Então a velhinha se pôs a falar.
- Há dez anos você se casou com uma garota, filha de um amigo de infância do seu pai. Tiveram um filho logo depois, mas ele morreu antes de completar um ano. A garota nunca mais quis engravidar de novo. Para apagar as lembranças do filho morto, ela o convenceu a aceitar um emprego em São Paulo.
A velhinha foi falando e falando e Afonso simplesmente não podia acreditar no que ouvia. Ela sabia mais do que ele de sua própria vida! A velhinha contou tudo, até o momento em que ele ficara ali na porta, pensando se entraria ou não, fumando um cigarro, olhando as horas, envergonhado de entrar.
- Você tocou a campainha e eu o atendi. Mas...
A velhinha fez um suspense terrível após o mas, esticando o “s” durante muito tempo, como se estivesse representando a mais absurda caricatura de um carioca... sssssss.
- Mas?
- Mas... se você, há dez anos, tivesse conversado com aquela garota ruiva naquele bar perto de sua casa, se você tivesse tomado coragem pra trocar duas ou três palavras com ela, vocês teriam se casado um ano depois... você não estaria em São Paulo agora, teria conseguido uma transferência pra Nova York. A garota lhe daria três filhos em três anos, e você sentiria uma força que não supunha haver dentro de você. Em pouco tempo...
Afonso interrompeu a velha. Ele lembrava daquela ruiva. Daquele rosto. Embora o tempo o tivesse embaçado, sua memória insistia em dizer que era o rosto mais bonito que ele já tinha visto.
- Eu pensei que você lesse o passado, e não o futuro de um passado que não aconteceu.
- Você não estaria aqui, se tivesse trocado duas ou três palavras com ela. Nem teria essas olheiras. Nem esse jeito triste.
Afonso se irritou e teve que se controlar para não bater na velha. Tirou a carteira do bolso, jogou uma nota de cinquenta reais em cima da mesa e saiu batendo a porta.
Em casa, sua esposa o esperava com a mesma comida insossa de sempre. Comeram em silêncio, até ele falar:
- Sabe, estive pensando sobre o que você me disse. Sobre compreender o passado. Acho isso uma grande bobagem. Eu prevejo o futuro daquela vidente: vai morrer de fome.
E abocanhou com fúria um pedaço de bife duro e sem sal.
I've never been in Paris for the summer
I've never drunk a Scotch with this bouquet
My life is such a mess, let's have a Brahma
I'm happy that you called, I really feel touché oh
It's been a long, a very long time
Since a Brazilian has been in Paris com você
Os pais achavam que o menino era retardado. Demorara tanto para andar e falar! E agora, na escola, não aprendia, não brincava, não tinha um único amiguinho. Levaram-no a um psicólogo. Após uma rápida análise, o doutor chamou os pais e explicou:
- O problema não está na cabeça. Está nos olhos.
- Os olhos ficam na cabeça, gracejou o pai.
O doutor suspirou.
- O menino não enxerga um palmo a frente do nariz. Pelo visto, vocês também não.
Os pais saíram ofendidos com o psicólogo, isso era jeito de falar? No entanto, confiaram em sua palavra e levaram o menino a um oculista. O oculista se espantou.
- Mas ele está quase cego! Como vocês não perceberam antes?
- Achamos que ele era retardado, doutor.
- Acharam que ele era retardado?
Mandaram fazer um óculos enorme (pagaram, claro, à vista). Ao colocá-lo, o menino abriu um largo sorriso – era seu primeiro sorriso – e exclamou:
- Como o mundo é bonito!
A mãe ficou emocionada e não conteve uma lágrima, mas o pai cochichou:
- Estávamos certos. Além de cego, é retardado.
Medida de contenção populacional, em caráter de urgência: incineração de todos os casais que saem para comemorar o dia dos namorados.
Não era a melhor profissão do mundo.
A primeira vez foi a mais difícil. Antônio parou em frente à porta de Amanda Albuquerque e ficou lá parado durante dez ou quinze minutos. Quando tomou coragem para tocar a campainha, sua mão tremia.
- Boa tarde. Eu poderia falar com a sra. Albuquerque, por favor?
- Pois não?
A sra. Albuquerque ali à sua frente, de avental branco, o cabelo preso com um lenço xadrez, um pedacinho de batata grudado na bochecha rosada. Antônio lembrou durante muito tempo daquela imagem. O pedacinho de batata grudado na bochecha rosada! Teve vontade avisá-la – senhora, a sua bochecha– mas diabos, ele estava lá para dizer que o sr. Albuquerque, jovem tenente da aeronáutica, tenente como o próprio Antônio, Carlos Albuquerque Jr., 26 anos, sujeito amável que gostava de jogar sinuca e beber cerveja com os amigos, pai de duas crianças, marido daquela senhora de avental branco, o cabelo preso com um lenço xadrez e um pedacinho de batata grudado na bochecha rosada, o tenente Albuquerque simplesmente não existia mais, morrera em um acidente às dez horas e dezessete minutos daquela manhã.
Definitivamente não era a melhor profissão do mundo.
Mas, apesar do nervosismo que sacudia todo o seu corpo naquelas primeiras vezes, Antônio era tão delicado com as palavras e conseguia passar tanta calma que foi contratado para comunicar oficialmente às esposas ou pais ou parentes mais próximos os falecimentos ocorridos durante o cumprimento do dever. A cidade ficava em uma região pródiga em incêndios florestais e nela estava instalada a base nacional dos bombeiros aéreos. Em certos anos, mais de trinta bombeiros perdiam a vida no cumprimento do dever.
No começo, Antonio era bem visto. Seu rosto extremamente pálido parecia reunir as dores de todas as viúvas da cidade, que o chamavam de “o padre militar”, ou “o militar de batina”. Não eram poucos os que o agradeciam publicamente pela sua consideração.
O apreço por Antônio, no entanto, não durou muito. Os bombeiros passaram a evitá-lo e as mulheres sentiam o coração gelar cada vez que o viam. Ele parecia estar sempre de mãos dadas com a morte, levando-a para passear antes de apresentá-la às pessoas. Olá, senhora Salgueiro! Já conhece a dona Morte? Não seria adorável se tomássemos chá juntos um dia desses? A Morte tem tantas histórias para contar!
Antônio, o jovem e pálido tenente Antônio, começou a envelhecer e a tomar feições cada vez mais sombrias. Aqueles olhos de lua cheia! Aquele ar fantasmagórico! Quando seus dedos finos, feitos quase só de ossos, esticavam-se para tocar a campainha, parecia que a morte em pessoa estava ali, sobre o capacho, pisando em cima do escrito de bem-vindo da casa de alguém que, se não fosse a visita dele, teria sido feliz.
Logo os habitantes da cidade o odiavam, embora ninguém tivesse coragem de despedi-lo daquele terrível cargo – a morte podia não gostar. A superstição era maior do que o ódio.
Negavam-lhe um simples olá – como se fosse ele o responsável pelas fatalidades, e não os aviões, os helicópteros, os pára-quedas, os incêndios! Antônio foi obrigado a viver na mais completa solidão. Saía de casa apenas para dar as notícias fúnebres e acompanhar os enterros com seu uniforme militar. Passou a desprezar a população e a sentir prazer com as notícias que dava.
Às vezes se passavam um, dois, três ou mesmo quatro meses sem acidentes fatais, e Antônio entrava em profunda depressão. Mas com que alegria recebia a notícia da explosão de uma aeronave!
Um dia, porém, quando a jovem esposa do major Campos abriu aquela porta de madeira pintada de branco daquela casa cheia de flores e porta-retratos, quando aquela garota linda de não mais de vinte e dois anos, verdadeiramente angelical, com cabelos loiros encaracolados escorrendo-lhe sobre os ombros, quando ela o viu e aquele rostinho tão lindo se contraiu em terror, Antônio, pela primeira vez desde aquelas primeiras vezes, sentiu seu coração acelerar, o suor escorrer pelas palmas da mão, a pressão cair. Gaguejou:
- Me... me.. desculpe... incomodá-la, sra. Campos. Eu estava passando nas redondezas e acho que o calor baixou a minha pressão. A sra. poderia... teria... um pouco... de... sal...
- Por favor, entre, seu Antônio. Sente-se no sofá. Vou buscar pra você.
E lá estava ele, sentado no sofá da casa do defunto... subitamente apaixonado pela viúva.
Não teve coragem de dar a notícia. Conversou sobre o calor. Sobre os incêndios. Sobre o bravo trabalho dos bombeiros aéreos.
Amaldiçoou sua profissão e sua vida. Teria sido preferível arriscá-la nas selvas fumegantes do que ter carregado a morte nas costas, despejando-a de casa em casa. Havia o leiteiro, havia o jornaleiro, e havia ele! O entregador de morte! Ah, que inveja sentia do major Campos, do seu trabalho heróico, da sua esposa linda, da sua casinha cheia de flores e porta-retratos... era verdade que agora Campos não passava de uma pasta vermelha esparramada pelo chão da floresta, mas e daí? Ele vivera! Ele vivera e deixara aquela, aquela, viúva.
Antônio se levantou, agradeceu, disse que precisava ir andando. Estava decidido a pedir demissão.
Na calçada, lembrou que ainda tinha uma última notícia funesta a comunicar. Era a última, depois adeus a essa vida de mortes! A última maldita notícia! Atravessou a rua, subiu uma ladeira, desceu outra, pegou uma pequena escadaria de pedras e parou em cima do capacho de uma casa de paredes descascadas, feia e silenciosa. Estava ofegante. Esperou um pouco, tomou fôlego e então tocou a campainha. A última! A última notícia!
Quando a porta abriu, meu deus, meu deus, era ele, era ele próprio quem estava do outro lado da porta.
Beethoven tinha mais de 40 anos quando, pela primeira e única vez, amou uma mulher que o amava. Já estava praticamente surdo, o que deve ter facilitado bastante.
Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos me empurraram para o abismo. Consegui me segurar na raiz de uma planta e fiquei ali, balançando em desespero, até Otto Lara Resende chegar e cortar o mal pela raiz. Foi uma queda e tanto.
Pobre de mim. As crônicas me fascinavam tanto que, ainda criança, resolvi que seria cronista. Durante as aulas de matemática e estudos sociais, preenchia cadernos e mais cadernos com rascunhos de crônicas sobre passarinhos e amores perdidos.
Cursei faculdade de jornalismo e enfim entrei em uma redação de jornal. A redação não tinha o barulho de máquinas de escrever, nenhum jornalista usava terno com nó de gravata frouxo, fumar era absolutamente proibido. Não era uma redação ideal, pensei, mas ainda assim era uma redação.
Meu primeiro texto foi sobre lojas de vela. Descobri uma velhinha suíça que fazia velas em forma de animais. Vela-foquinha. Vela-coelhinho. Vela-gatinho. Outra senhora, descendente de libaneses, fabricava velas com pinturas incrivelmente detalhadas. Tinha uma coleção inteira de velas que reproduziam quadros de Van Gogh.
Escrevi um texto falando sobre “o charme das velas contra a frieza das lâmpadas”, sobre “as chamas do passado que insistiam em iluminar a modernidade”.
O editor quase teve um treco.
- Essa merda está em primeira pessoa! Jogue fora e escreva de novo! Sem falar de você e da porra dos seus sentimentos. E coloque o preço das velas! E a porra do endereço das lojas.
Descobri que havia se criado na imprensa um verdadeiro ódio à crônica e à primeira pessoa. Não conseguia entender o porquê. Crônica era o que fazíamos de melhor! Rubem Braga! Fernando Sabino! Paulo Mendes Campos! Otto Lara Resende!
Tentei arduamente, mas não consegui abandonar a primeira pessoa. Eu era, tenho que confessar, apaixonado por ela. Escrever em terceira pessoa seria uma traição, seria como ter um caso – me desculpem – com terceiros. Meu editor berrou comigo na frente de todos. Me humilhou.
- Quem você pensa que é para escrever em primeira pessoa? A primeira pessoa é arrogante! É ultrajante! É... é... politicamente incorreta!
Fui pra casa, naquele dia, com a sensação de que minha vida tinha acabado. Queimei todos os antigos cadernos de escola e caí em um sono profundo.
Então, a coisa mais extraordinária aconteceu.
Cláudio acordou em terceira pessoa. Simplesmente acordou em terceira pessoa. Os gostos, os desejos, os princípios, as ilusões, tudo o abandonara. Ele não era mais eu, era ele. Caminhou até a redação do jornal e disse ao editor:
- Cláudio pede desculpas.
O editor lhe deu mais uma chance. Cláudio a aproveitou, e como! Em breve, não só era o mais bem sucedido jornalista do jornal, como era o jornal. Quinhentos mil exemplares de Cláudio eram vendidos todos os dias nas bancas. Prêmios e mais prêmios eram-lhe conferidos.
- Cláudio agradece a todos aqui presentes. Sem vocês, Cláudio nunca seria quem é, nunca chegaria aonde chegou. Cláudio está comovido.
Cláudio morreu no auge da carreira, rico e famoso. Velas em forma de rotativa foram acessas sobre seu túmulo e o enterro deu-se com muita pompa e circunstância. O presidente da república não pôde comparecer, mas enviou uma nota de pesar, “pela imensa perda do jornalista cuja obra representa a verdadeira crônica do nosso tempo”.
*
Dias depois do enterro, um sujeito arrombou o caixão atrás de dentes de ouro. Tomou um susto. Não havia ouro, não havia dentes, não havia corpo. Tinham enterrado um jornal de domingo.
Morre Cláudio, a Primeira Pessoa do jornalismo nacional
Mais informações na página doze.
É uma reunião solene. Os quatros amigos estão em silêncio, sentados ao redor de uma mesa oval em uma sala sem janelas. Observam uma série de documentos.
- Ok, diz o amigo 1. Estão todos prontos?
- Sim, responde o amigo 2.
- Estou, responde o amigo 3.
- Vamos lá, responde o amigo 4.
O amigo 1 se levanta e abre uma pequena porta de ferro.
- Vanessa, você pode entrar.
Vanessa entra lentamente, sem olhar ninguém. Pára em frente à mesa, esfregando nervosamente uma mão na outra.
- Sente-se, por favor, diz o amigo 1.
Ela senta. O amigo 1 continua:
- Pois muito bem. Analisamos seus boletins, seus diários, os relatórios de suas amigas, os depoimentos de seus ex-namorados, etc. Só precisamos fazer algumas perguntas.
Vanessa começa a falar, pára, volta, gagueja.
- O que... o que... vocês... acharam?
- Notas altas demais no colegial, diz o amigo 2.
- Namoros tumultuados, diz o amigo 3.
- Amigas feias, diz o amigo 4.
O amigo 1 interrompe.
- Silêncio! Quem faz as perguntas somos nós. Posso lhe adiantar que há pontos favoráveis e pontos contrários a você. Mas tudo dependerá desta entrevista. Fique calma e responda o mais sinceramente possível.
- Está bem.
- Quem quer começar?
O amigo 2 levanta a mão.
- Vanessa. Quantos jogos de futebol você já assistiu?
Vanessa tenta ser sincera. Os amigos a cobrem de perguntas. Você gosta de cerveja? Você sente ciúmes? Já jogou pôquer? O que levaria para uma ilha deserta? O que faria se seu namorado desaparece durante o fim de semana? Como seria a vida ideal para você?
A entrevista dura cerca de cinco horas. Vanessa sai acabada, contendo as lágrimas. A porta de ferro bate atrás dela.
- E então? pergunta o amigo 1.
- Nada feito. Ela vai causar problemas.
- Vai destruir nossas noites.
- Vai nos proibir de entrar em sua casa
- Vai reclamar dos cigarros.
- Do pôquer.
- Da bebida.
- Das nossas amigas.
- Dos nossos amigos.
- Da gente! Meu deus do céu! Vai reclamar da gente!
- Nunca mais veremos o Renatão.
- Ele será esmagado.
- Trucidado.
- Terá filho atrás de filho.
- Quatro filhos em quatro anos!
- Passará os fins de semana em um sítio sem piscina em Hortolândia.
- Viajará para o Guarujá nas férias.
- Começará a comer verdura.
- Reclamará dos churrascos!
- Abominará nossas piadas!
- Participará de passeatas pela preservação da Mata Atlântica!
- Pela camada de ozônio!
- Pelo mico-leão-dourado!
- Pelo mico-leão-dourado, meu deus do céu!
- Meu voto é não.
- Meu voto é não.
- Meu voto é não.
O amigo 1 se levanta.
- Pois muito bem.
Abre a porta de ferro.
- Vanessa! Renatão!
Vanessa entra de mão dada com Renatão.
- Depois de analisar exaustivamente os documentos, discutir a entrevista, ponderar sobre cada faceta da personalidade da srta. Vanessa Almeida e deliberar com absoluto rigor e imparcialidade sobre o caso em questão, chegamos a um veredicto unânime. Pensando no bem das partes envolvidas, assim como no de seus amigos, entre os quais temos a enorme honra de estar incluídos, julgamos improcedente o pedido de união e vetamos, em caráter irrevogável, o casamento.
Vanessa irrompe em lágrimas. Os amigos se cumprimentam. Renatão olha incrédulo.
- Vocês vetaram? Vocês vetaram? O que que eu faço agora?
O amigo 1 responde:
- Agora? Meu caro, já são onze horas. Se apressa que temos uma festa na casa do Davi.
Ah, o mundo ideal.
No céu, existem religiões que pregam a existência do Homem. No começo eram bastante primitivas, frutos da intuição de anjos selvagens, que promoviam rituais estranhos nos quais espíritos de bodes eram sacrificados, danças executadas e cuias cheias de mandioca incorpórea oferecidas ao Grande Homem Quadrúpede. Com o tempo, as religiões ganharam sólidas bases filosóficas, graças aos esforços de anjos intelectuais que dedicaram uma eternidade ao estudo religioso e escreveram milhares de ensaios sobre a matéria, o estado corporal, o paraíso e o inferno (ou Brasil, como eles dizem). Fato marcante na história das religiões do céu foi a vinda d’O Filho do Homem, popularmente conhecido como Você Sabe Com Quem Está Falando?. O Filho do Homem contribuiu decisivamente para o sucesso das religiões ao dizer, entre outras coisas, que o Homem não era quadrúpede, sendo os anjos feitos à Sua imagem e semelhança. Os Homens, claro, tinham asas e eram assexuados. Igrejas foram construídas por todo o céu para propagar A Palavra do Homem. Anjos pastores prometiam mundos e fundos:
Garanta tua casinha com jardim lá embaixo! Sejas uma boa alma e viverás uma existência física plena de prazeres!
Hosana nas Profundezas!
Assim no céu como no Chão!
Aos poucos, as religiões foram se vulgarizando até se tornarem uma versão estilizada daquelas primitivas. Em vez das cuias cheias de mandioca, musiquinhas dois-acordes aprenda-hoje-mesmo eram tocadas em harpas vagabundas, e multidões de espíritos - especialmente daqueles que estiveram em coma, entre a vida e a vida – passaram a escrever livros contando suas experiências lá embaixo. Retumbantes best-sellers como Minhas Vidas no Reino Orgânico, É Fé na Matéria e Eu Sou Eu Sou de Carne e Osso Agora Eu Sou acabaram por desacreditar qualquer idéia religiosa nos meios mais esclarecidos.
Hoje, estatísticas mostram que as religiões estão em baixa mesmo entre os anjos proletários. Alguns acadêmicos afirmam que o ciclo religioso está prestes a se fechar. Pode ser exagero. Mas uma coisa é certa: está cada vez mais difícil acreditar no Homem.
Era uma experiência. Uma espécie de Casa dos Artistas – sem câmeras e sem artistas. Apenas eu, Estela e meu gato, naquela casa de janelas altas e corredores longos. Parecia um bom lugar. Desfizemos as malas, consertamos o chuveiro, distribuímos beijos de boa sorte e boa noite.
Logo de manhã percebi que algo estava errado. Acordei na sala de jantar – eu havia dormido no quarto. Levantei e chamei Estela. Estela estava enrolada no lustre. Era um lustre grande, mas e daí?
Peguei a escada e acordei-a.
- Que diabos está havendo?
Estela desceu, ainda sonolenta.
- Você me colocou no lustre?
- Eu? Por acaso você me colocou em cima da mesa de jantar? O lustre é muito mais confortável do aquela maldita mesa redonda. Pelo menos não bate vento.
- Claro que bate.
Em vez de café da manhã, tomamos chá. E na hora do chá, tomamos café da manhã. Não só isso. Jantamos durante o almoço e almoçamos durante o jantar. Estranho, muito estranho.
No outro dia, acordei de ponta-cabeça, dentro do armário. Estela estava ao meu lado, pendurada em um cabide. A sala estava na cozinha, a cozinha estava na garagem, a garagem estava no banheiro, o banheiro tinha simplesmente desaparecido.
Os cômodos mudarem de lugar não era nada. A casa começou a mudar de número, depois de rua, de bairro... Quando dei por mim, estávamos morando em Mogiguaçu. Eu nem sabia onde diabos ficava Mogiguaçu.
Não demorou muito e o meu gato se transformou em cachorro. Pior! Em poodle, em um maldito poodle. No lugar do meu equipamento de alpinismo, surgiu uma cesta de piquenique.
Estela só aceitou apertar o botão de alerta vermelho, de pânico total, quando vestiu seu vestido-longo-preto-caro-decotadíssimo, foi se olhar no espelho e voilà: um avental de flanela cobria-lhe o corpo.
Finalmente deu-se conta de que a coisa havia passado de todo e qualquer limite.
Resolveu trazer sua mãe para morar conosco. A velha jurava que podia dar um jeito na casa. Dizia já ter morado em lugares muito piores. Eu avisei que aquela casa não era um lugar adequado para mães. Além do mais, o combinado era só nós dois – e o gato, ou cachorro. Quem Estela pensava que era? Deus? Silvio Santos? Estela não me ouviu. A simpática mãezinha expandiu-se em dezenas de simpáticas mãezinhas. Passavam o dia a tagarelar entre em si. Uma perpétua convenção de mães.
Convenci Estela de que precisávamos contratar parapsicólogos. A convivência com eles me acalmou um pouco. Noites inteiras tomando cerveja, dando risada e jogando pôquer. Estela, ao contrário, passou a detestá-los. Eu os defendi. Brigamos. Estela atacou a parede em um abajur.
Os parapsicólogos insistiam que a nossa casa era normal, normalíssima.
Como vocês explicam o pudim feito de pedra? eu perguntava.
Eles riam.
Como vocês explicam as duzentas e trinta e sete toalhas molhadas? Estela perguntava.
Eles riam.
Acabamos por trancá-los no sótão, que na verdade era o porão, e eles passavam a noite a me chamar fantasmagoricamente:
- Mááááá-ri-oooooooo, Mááááá-ri-oooooo!
A única solução era mudar de casa. Continuar a experiência em outro lugar. Mudamos. A casa foi junto.
Então um dia, ao sair de um demorado banho quente, Estela viu uma criança surgir em meio ao vapor. A criança disse:
- Mamãe!
Estela gritou. Fui correndo socorrê-la.
- Papai!
Na porta do boxe, a criança havia desenhado com o dedinho um coração todo torto.
Foi aí que compreendemos.
Havíamos nos casado.
Maria.
Maria era moderadamente bonita e moderadamente competente. Era boa esposa e mãe dedicada. Nunca falava alto, nunca defendia nada com paixão, nunca deixava de lavar a louça logo após o jantar.
A ênfase e a inconstância eram-lhe alienígenas.
Maria.
Uma bela e longa linha reta.
Trabalhei anos com Maria em uma revista de distribuição gratuita. A revista, na verdade, era um catálogo de propaganda cultural e gastronômica. Um guia bem-feito, mas vazio, para as pessoas checarem o horário da sessão de cinema ou o cartão de crédito aceito no restaurante.
Um dia a revista recebeu convite para o lançamento de um cd do barítono Alfredo Orsi. Maria disse que Alfredo era ótimo cantor, além de amigo de longa data. Infelizmente o recital era no dia do aniversário do seu marido, com quem ela teria que jantar.
- Mas se a gente der só uma passadinha, acho que tudo bem.
Não tocamos mais no assunto. No dia do lançamento, Maria apareceu para trabalhar em um vestido longo, negro, e seus pés buscavam arduamente manter a naturalidade sobre sapatos de saltos altíssimos.
- Vocês vão sair para jantar? perguntei.
- Jantar?
- Hoje não é aniversário do seu marido?
Ela riu.
- Não sei por que a gente chama de aniversário. Ele simplesmente se recusa a envelhecer! Mas não, não. A gente vai jantar em casa mesmo.
- Mande meus parabéns.
- Mandarei, claro. Você vai comigo ao lançamento do cd do Alfredo, não vai?
Eu não estava nem um pouco a fim de ir. O dinheiro andava curto e seria indelicado não comprar o cd. Ainda havia o trânsito e um resto de ressaca que insistia em subsistir. Eu sonhava com a idéia de me esparramar no sofá, tomar chocolate quente na companhia de um livro e dormir.
- Não sei, não sei.
- Só uma passadinha. Você precisa ouvi-lo! A gente vai no meu carro, te deixo em casa depois.
- Você não vai acabar se atrasando para o jantar?
Maria insistiu. Maria não era o tipo de pessoa dada a insistências. Acabei por ceder.
*
Chegamos cedo. Alfredo Orsi estava sentado em frente a uma pilha de cds.
- Alfredo, quanto tempo!
Alfredo sorriu o sorriso que sorrimos quando alguém de quem não lembramos o nome nos cumprimenta. Hesitou um pouco antes de levantar, levantou, e a cumprimentou com um abraço.
- Espero que gostem do cd.
Compramos o cd.
Espero que goste. Um abraço do Alfredo.
Fez-se um silêncio embaraçoso. Um grupo de pessoas se aproximou e Alfredo nos deu as costas para cumprimentá-lo.
Puxei Maria pela mão.
- Vamos pegar uma bebida.
Pegamos prosecco e Maria, Maria que nunca deixava de lavar a louça logo após o jantar, Maria moderada nos gestos e nos gostos, Maria jornalista medíocre de vida feliz... Maria bebeu duas taças em cinco minutos – e depois uma terceira, e uma quarta. Alfredo, sabe, Alfredo é uma pessoa incrível. Fazia uns três anos que não o via. Continua igual o desgraçado. É um grande cantor. Se fosse europeu, sabe, seria mundialmente famoso. Acho até que hoje – hoje, atualmente – não existe ninguém, mas ninguém mesmo, com o talento do Alfredo.
O talentosíssimo Alfredo anunciou que faria um pequeno e improvisado recital. Cantaria algumas músicas do cd, acompanhado ao teclado por sua grande amiga Viviane Qualquer-Coisa.
- Vou começar com uma música muito bonita e muito especial para mim. Ave Maria, de Caccini.
Maria tinha os olhos inusitadamente abertos, fixos em Alfredo. Suas pupilas pareciam peixinhos azuis nadando na superfície de um aquário. Aos primeiros acordes, o aquário transbordou.
A-ve Ma-riiiii-a
A-ve Maaaa-riiiii-a
Todos os familiares de Alfredo e Viviane irromperam em aplausos e gritos de bravo, bravíssimo. Maria me perguntou que horas eram.
- Nossa. Estou atrasada para o aniversário.
Disse isso e riu. Tomou mais uma taça em dois goles.
- Vamos? Eu te deixo em casa.
Quando estávamos saindo, ela parou, olhou para trás, olhou para mim. Os peixinhos azuis inquietos.
- Você se importaria de pegar o carro? Quero ouvir mais uma música.
Claro que não me importo. Caminhei lentamente ao estacionamento, ziguezagueando, imaginando o marido de Maria sozinho à mesa e convencido de que não existe neste mundo uma única, uma mísera, uma maldita linha reta.
E que Maria, naquela noite, não lavaria a louça após o jantar.