


"Ninguém que compreende a minha música pode ser completamente infeliz." Ludwig van Beethoven.
We said goodbye with a highball
Then I got as high as a steeple
But we were intelligent people
No tears, no fuss
Hurray for us
So thanks for the memory
And strictly entre nous
Darling, how are you?
And how are all those little dreams
That never did come true?
Awf’lly glad I met you
Cheerio and toodle-oo
And thank you so much.
José Dirceu diz a Veja que é católico. E ateu. Além de socialista, e democrata. José Dirceu é um homem dois em um. Tem sempre convicções opostas. Nos anos 70, vendia calças jeans no Paraná com o nome de Carlos Henrique, sem no entanto deixar de ser comunista guerrilheiro fã de Fidel Castro. Comunismo é quando o que é meu é seu, e o que é seu, é do José Dirceu.
- Eu vi a Betty Faria andando no calçadão. Ela ainda tem sex appeal.
- Ela tem é sixty appeal.

"Filme brasileiro bom é filme brasileiro morto." Paulo Salles.
No SBT, propaganda de Juventude Transviada: estrelando James Dean, o maior ídolo de todos os tempos da história do cinema.
A classe média brasileira é a mais generosa do mundo. Dá metade do que produz para o governo (a) distribuir entre seus dez milhões de funcionários públicos; (b) fazer ruas para os pobres, sistema de transporte para os pobres, hospitais para os pobres, escolas para os pobres etc; (c) conservar privilégios de monopolistas, oligarcas e canalhas subsidiados.
Todo mundo agradece a espantosa generosidade, assaltando a classe média.
*
A classe média brasileira é capaz de promover passeatas contra guerras no outro lado do mundo, mas nunca contra os impostos, a incompetência e a corrupção que afetam sua vida. Quer a paz para os outros. É uma classe de santos.
Tolstoi escreveu que a vida era uma tartine de merde que somos obrigados a comer lentamente.
Faltou dizer que nos trazem a conta enquanto ainda estamos comendo. E que cobram a mais.
John Cage compôs 4’ 33’’ em 1952. Desde a invenção do agogô, o mundo musical não via nada tão revolucionário: três belíssimos movimentos em que nenhum som é produzido. Até surdos podem ouvir e apreciar. Basta um espírito sensível. É o auge da música – the rest, my dear, is silence.
Dez anos depois, Cage apareceu com 4’ 33’’ número 2. “Para ser tocado de qualquer jeito por qualquer um”. Foi um estouro. A obra de arte mais executada de todos os tempos.
Mas o primeiro 4’ 33’’ é o número 1. Ouçam a brilhante gravação de Frank Nappa.
Por isso fiquei revoltado quando li que um tal de Mark Batt o plagiou na cara dura. Em meados do ano passado, Batt gravou Um Minuto de Silêncio, claramente uma versão reduzida (e mais pop) da obra-prima de Cage. Ele a incluiu no disco de sua banda, lançou-a em single e contratou uma saxofonista para não tocá-la em suas apresentações ao vivo. Tudo sem pagar um puto de royalties. Se não bastasse, ele ainda teve o topete de dizer que sua “música” era muito melhor que a de Cage: “Eu consegui dizer em um minuto o que ele só pôde dizer em quatro minutos e trinta e três segundos”.
Dá pra acreditar? Batt, claro, foi processado e acabou pagando cem mil libras para os atuais donos da partitura em branco.
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Esse plágio me lembrou uma história. Eu estava com um amigo em um museu de arte moderna. Cansado de andar, me apoiei em uma parede. Um segurança apareceu e me disse que eu não podia tocar na obra. Achei que o museu estava em obras. Não, não. A parede é uma obra, de arte, senhor. Se chama A Parede em Branco. Faz parte da exposição.
Ah, sim, claro.
Meu amigo ficou vermelho de raiva. Gritou:
- Mas é uma falsificação grosseira! A original está lá em casa!
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Às vezes penso que a inteligência hoje em dia é – cantemos com Mozart:
Come l'araba fenice:
Che vi sia, ciascun lo dice;
Dove sia, nessun lo sa.
(Como a fênix árabe / que ela existe, todos dizem / onde está, ninguém sabe.)
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Quando eu crescer, quero escrever como esse cara.
Tem um conto do Woody Allen em que Freud entra em pânico na padaria. Ele quer comprar um enroladinho, mas não consegue pedir. A simples idéia de pronunciar enroladinho lhe é intolerável.
Sempre me identifiquei com esse Freud. Na lanchonete da escola, por exemplo, eu só conseguia comprar ovinhos de amendoim quando não tinha nenhum outro aluno por perto. E pronunciava rápido, bem rápido — ovns de amdim —, fazendo esgares involuntários de constrangimento.
Mas ovinhos de amendoim e enroladinhos de presunto são bem menos constrangedores do que o filme que aluguei ontem. O filme na verdade é bem divertido: The Awful Truth, com Irene Dunne e Cary Grant. O problema é o título em português.
Eu estava com pressa, não conseguia encontrar o filme, tive que perguntar para um atendente.
Uma vez a cada um bilhão de anos, todas as partículas que compõem o universo entram em tal harmonia que por um breve momento — dois ou três segundos — nenhum som é produzido. Nada cai, dói, quebra ou grita. Tudo o que há é o silêncio perfeito.
E ontem eu o estraguei pronunciando:
- Vocês têm Cupido é Moleque Teimoso?
Cupido é Moleque Teimoso.
That’s an awful truth.
Para certos espíritos, escreveu Thomas Mann, não existem caminhos certos. Tento seguir em frente.
Certa vez, ouvindo a Morte de Isolda (em português, Isolde Libestod), a famosa ária do Wagner, esmigalhei a mão de minha namorada. A emoção me levou a segurá-la, depois a apertá-la, depois a apertá-la com toda a força. Eu estava a tal ponto tomado pela música que não percebi quando os delicados ossinhos partiram como gravetos.
Desde então, sempre que sinto vontade de medir a intensidade emocional de uma música, minha namorada me dá uma mãozinha.
Valsa da Dor, de Villa-Lobos.
Uma das dores mais bonitas e comoventes já transpostas para o piano. Cotação: Cinco dedos quebrados.
Concierto para Quinteto, de Piazzola.
Piazzola vai fundo. Em uma palavra: maneta.
Quatorze de julho.
Em nenhuma outra data o vinho borbulha na taça com tanto frescor. Em nenhuma outra data os fogos fulguram no céu com tanto esplendor.
Quatorze de julho.
Um ano de FDR.
Já ridicularizei o Almodóvar aqui neste blog. But, oh, well, what a little moonlight can do to you... você conhece uma garota gentil e inteligente e acha que ela é inofensiva, nada mais do que uma garota gentil e inteligente e inofensiva, e então, oh, well, what a little moonlight can do to you... Você aposenta a caneca de cerveja, passa a frequentar restaurantes vegetarianos, a andar de bicicleta domingo à tarde, a se enternecer com crianças, a assistir a desenhos da Disney e... a gostar do Almodóvar. Não sei por que, ainda não descobri por que, mas todas as garotas, pelo menos todas as garotas que conheço, gostam do Almodóvar. A-do-ram-o-Al-mo-dó-var.
E aqui estou eu, comendo vagem e assistindo a Fale com Ela. Grande filme. Até a cena com o Caetano Veloso, bonita, muita bonita.
Mesmo quando o Alexandre erra, erra de modo a deixar quem acerta com inveja. Me lembra o Pelé, chutando do meio do campo contra a Tchecoslováquia, ou driblando o goleiro uruguaio sem tocar na bola, perdendo espetacularmente o gol. Não troco um lance desses por mil gols do Serginho Chulapa.
Mas vejam o que o Alexandre escreveu hoje:
“Se perguntassem para um crítico mongol quais os cinco melhores romances do século vinte, e ele dissesse, Ang Ok li Po, Nah Pao Li Mah, Tchich Na Ma Gok, Fao Lin Sao Poi, e Ulisses, acharíamos graça. Agora vejam a lista dos melhores livros do século vinte, feitas por críticos e escritores e professores brasileiros, e levem muito a sério quando Os Sertões for mencionado.”
Um belo chute de bicicleta. Pra fora.
Sei que o Alexandre não conseguiu atravessar a primeira parte d'Os Sertões: pegou insolação e ficou traumatizado. A primeira parte é realmente difícil, lenta. Mas as últimas 550 páginas são inacreditavelmente empolgantes, e alcançam o grau máximo na escala Richter da arte. Acredite em mim, Alexandre. Dê mais uma chance ao velho Euclides. O único jeito de não considerar Os Sertões um dos melhores livros já escritos é deixando de lê-lo.