Minha família acha que eu sou hipocondríaco. Claro que não sou. Mas devo ter alguma doença que faz ela pensar isso. Confesso que gosto de hospitais. Me sinto confortável rodeado por médicos e enfermeiras. Quando viajo, em vez de alugar quarto em hotel, alugo em hospital. Veja bem, se por acaso acontecer alguma coisa, eu já estou lá. É apenas uma questão de praticidade. Também costumo frequentar consultórios. Admito que até hoje nunca tive nada tão sério quanto imaginava, nenhuma grande doença e coisa e tal, mas isso não quer dizer que uma pequena doença não seja uma doença. Eu volto do médico e minha família diz (minha família é um único ser monstruoso, que diz a mesma coisa por diversas bocas):
– Tá vendo! Eu disse que você não tinha nada! De novo você gastou dinheiro à toa!
– Mas eu tenho! Tudo bem, não é nada terminal, é apenas uma bolinha de gordura. Mas eu não inventei a bolinha de gordura.
– Do jeito que você come, deve ter engolido uma por aí.
– Preciso mudar minha alimentação. Não tenho me sentido muito bem ultimamente.
Eu volto do médico, não é nada grave e minha família fica infeliz e revoltada. Não deveria comemorar? Não deveria agradecer o fato de eu só ter uma bolinha de gordura? Daquele machucado não ser um princípio de elefantíase? Da tosse não indicar tuberculose? Mas não, não, a minha família fica triste.
– O médico viu meus exames. Agora é sério. Estou morrendo.
– Finalmente! Parabéns!
– Obrigado, mas o mérito não é meu, é do médico.
– Pelo menos você não desperdiçou dinheiro.
– Quero ver você dizer que eu sou hipocondríaco agora.