


Hoje estréia De Passagem, que rendeu ao meu amigo Cláudio Yosida o prêmio de melhor roteiro em Gramado. Ainda não vi, mea culpa, mea maxima culpa. Fui no lançamento, na Cinemateca, mas perdi a projeção. Tudo bem, eu estava lá só – preparem-se, preparem-se – de passagem.
O cronicamente inviável Sergio Bianchi também estava lá. Me disseram que ele sempre vai nos lançamentos e nunca assiste aos filmes. Sábia atitude, mas acredito que não no caso de De Passagem. Já escrevi vários roteiros com o Cláudio e posso dizer: o homem é talentoso. Tomara que o filme, como escreveu alguém, tenha chegado para ficar.
O consumidor é sempre quem mais se ferra. Não só o de droga, mas falo aqui do de droga. Ele é perseguido, roubado, extorquido, espancado e preso pela admirável polícia do Grande Leviatã Débil Mental; é enganado e mal tratado pelo traficante; é visto com maus olhos pela Família, pela Igreja e pelo Rotary Club; e agora – tá na moda – é vilipendiado por jornalistas, psicólogas, professoras primárias e demais tapirus terrestris.
Foda, véi. O sujeito quer dar uma cheiradinha, o Grande Leviatã Débil Mental mete o nariz e diz que naninanão: teje proibido. Aparece um trafica com uma mistura simpática de cimento, talco, pó de vidro e aspirina (levemente salpicado com cocaína), o sujeito compra (caro) o barato, sniiiiiiiiiiiiiiffs, tem problemas pra dormir, fica com uma puta ressaca e ainda é acusado pelos chamados formadores de opinião (?) de colaborar com os crimes do tráfico: matar, assaltar, sequestrar e grande elenco. Peraí. Cheirar cimento já não é suficiente?
A linha de raciocínio dos tupitapirus é a seguinte: traficante compra arma com dinheiro da venda de droga. Se ninguém comprasse droga, traficante não teria arma. Logo, quem compra droga é culpado pelos crimes do traficante.
Não é uma boa linha de raciocínio. Na verdade, é uma linha de merda.
Siga a bolinha: se não existisse dinheiro, ninguém compraria droga. Logo, a culpa é de quem tem dinheiro? É do capitalismo selvagem? É do FMI? É da CIA? Se ninguém tivesse boca e nariz, ninguém fumaria e cheiraria. Logo, a culpa é do Pitanguy, que ainda não pensou em nada melhor? Se ninguém tivesse liberdade de andar por aí, não haveria tráfico. Logo, a culpa – como sempre – é da liberdade?
Tem gente que acorda querendo contar o sonho que teve. Isso é o que eu chamo de pesadelo.
Sonhos são chatos. Eu sempre durmo no meio dos meus.
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
– vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
– vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
– Vê que nem te digo - esperança!
– Vê que nem sequer sonho - amor!
"Murmúrio", de Cecília Meirelles.
Substitua os políticos por cidadãos privados escolhidos ao acaso e veja se o Brasil melhora. Não melhora. Ilusão achar que os políticos são culpados pela porcaria que é o país, eles representam fielmente nossa sociedade.
O mais importante é o brasileiro começar a ter vergonha do país em que vive. Botar na cabeça que o Brasil não é bonito por natureza, que seu povo não é alegre e cordial, e que, se deus é brasileiro, já se naturalizou americano, chinês, talvez guatemalteco.
Num dia você está ouvindo Et exsultavit spiritus meus do velho Bach, no outro está no inferno, e de repente não existe mais. Assim é a vida, na melhor das hipóteses.
Be sure it's true
when you say
I love you
it's a sin
to tell
a lie, yeah
many hearts have been broken
just because these words were spoken
be careful, dear, please, I love you
I love you
I love you
I love you, baby
I love you, yes I do
I love you
if you wanna break my heart
I'll die, yeah, I'll die
well be sure
that it's true
when you say
I love you
it's a sin
to tell
a lie
O toque de merdas é uma doença incurável, que caracteriza-se pela deterioração de tudo que é tocado pelo doente. Atinge principalmente irmãos, empregadas, políticos e técnicos de informática.
Há poucas coisas tão desinteressantes quanto o mundo.
Por que é sempre o tio de um amigo de um amigo que vê ovnis e coisas sobrenaturais? Por que nunca é a gente?
Engajado, s.m. Um idiota com causa.
No filme do Mel Gibson, centuriões chicoteiam centenas de vezes o corpo de Cristo; primeiro com chicote, depois com látego. Os sacerdotes judeus acham pouco: querem a crucificação. Os romanos, que são uns neuróticos, enfiam espinhos na cabeça do homem, martelam pregos em suas mãos e pés, fazem o diabo. Cristo aguenta tudo, sem um único resmungo. Na cruz, perdoa os sacerdotes, perdoa os centuriões: eles não sabem o que fazem. Mas eis que um ladrão, todo fodido, pregado na cruz ao lado, resolve tirar um sarrinho. Bad timing, buddy. Um corvo desce dos céus e come os olhos do pobre coitado.
Quando um sujeito escreve sobre um funcionário de sex shop que limpa esperma em cabines de peepshow, e você lê o conto até o final, esse sujeito é bom.
O Brasil não tem elite. Tem celite.

Nice, inverno de 1999.
Acordei com o telefone tocando.
- Bom dia! O senhor pediu para ser despertado às cinco horas.
- O quê?
- Já são cinco da manhã, senhor.
- Mas que diabo é isso? Quem está falando?
- É da recepção, senhor. Serviço de despertador.