Quando era criança queria ver o momento exato em que o dia virava noite, mas nunca conseguia, por mais que fixasse os olhos no céu e se concentrasse, de repente estava de noite e ele tinha perdido o momento exato, e se nós fossemos procurar na vida dele o momento exato em que ele começou a pensar na morte, também, como ele criança olhando para o céu, deixaríamos passar o momento, nunca o perceberíamos, mas foi na adolescência, deve ter sido, entre um gole e outro de Ypioca, talvez durante uma música cantada pelo Tim Maia numa boate em Campos do Jordão amando perdidamente uma garota que nunca mais veria – todas as garotas amadas perdidamente numa boate em Campos do Jordão nos anos oitenta nunca mais são vistas, mesmo quando passam o resto da vida conosco – uma garota que nunca pensara nem nunca pensaria no momento exato em que o dia vira noite, mas o fato é que um dia ele percebeu que não conseguia parar de pensar na morte e que pensar na morte estragava tudo, os goles de Ypioca, o Tim Maia, as garotas que não pensavam muito e que nunca mais são vistas, a morte, e isso era óbvio, era o fim, e um dia, por mais que não quisesse, tudo cessaria e ele nunca mais voltaria a existir, nunca mais, e ele levantava no meio da noite, suando, em pânico, e percorria o quarto como um animal enjaulado, repetindo para si mesmo que aquilo não era possível, que ele não podia simplesmente deixar de existir, mas era inevitável, um dia ele deixaria de existir e se não bastasse deixaria de existir para sempre, e ele não conseguia entender como as pessoas podiam levar as suas vidas, como elas podiam esquecer, ou não se dar conta, que um dia deixariam de existir, e então como sair de casa, como trabalhar, como ter filhos, como tomar Ypioca? Talvez tomar Ypioca. Mas como todo o resto? Como se preocupar com qualquer outra coisa que não a morte? A morte, a morte, a morte, todo o resto é picuinha. Quis se dedicar à ciência, estudar o DNA, tentar reverter a situação, mas não conseguia se concentrar, era como ter uma boa idéia tossindo numa câmara de gás com a corda no pescoço e os pés sob um rolo-compressor, ninguém tem uma boa idéia tossindo numa câmara de gás com a corda no pescoço e os pés sob um rolo-compressor, o fim, o fim, ele não conseguia pensar em mais nada, não podia se concentrar, a família preocupada, as namoradas adeus, os amigos irritados, ele entrando nos lugares gritando vocês estão loucos, parem tudo, nós vamos morrer!, e um a um os amigos se foram, querendo viver sem pensar na morte ou morrer sem pensar na vida, e ele pensava na vida e por isso pensava na morte, era tudo a mesmíssima merda, e não podia tolerar a contagem regressiva, o tic-tac, a Ypioca, talvez não a Ypioca, às vezes não a Ypioca, mas o Tim Maia, certamente o Tim Maia, e todo o resto era tudo nada, e foi internado, saiu, foi internado de novo, mas era normal, um cara normal, tão normal que não podia esquecer por um minuto sequer que ia morrer, que todos iam morrer, todos morrerem era um problema secundário, mas também era um problema, um agravante – se apaixonar por uma garota que ia morrer? Mórbido. Trabalhar para cadáveres? Insano. E tic-tac e tic-tac e tic-tac, sozinho, atormentado, acusado por papai e mamãe de desperdiçar a vida por causa da morte, acusação idiota, já que depois da morte a vida seria esquecida e se fosse esquecida era como se nunca tivesse existido e se nunca existiu ninguém pode desperdiçar o que não existe e então, um dia, morreu.