“Considero impossível ouvir devidamente a Partita II (de Bach) na companhia de quem quer que seja”, diz o Gianetti no primeiro número da Diapason Brasil. É uma grande e triste verdade. Nos maiores momentos, estamos sós.
De público, basta o dinheiro.
Não consigo entender por que certas coisas mudam de nome. Lembro que fui dormir num dia e o lugar onde se guardava arquivos no computador se chamava winchester. Quando acordei, o nome tinha mudado para hd. E o pior é que as pessoas fingiam nem saber o que era winchester.
- Winchester? A arma?
- Não! Aquele negócio onde se guarda as coisas no computador.
- Ah, você quer dizer hd.
- Não! Eu quero dizer winchester! Até ontem era winchester!
Depois teve o caso do laptop. Laptop sempre se chamou laptop. Mas de repente, entre duas e vinte e três e duas e quarenta e cinco de uma terça-feira chuvosa, o nome mudou para notebook. Simplesmente mudou para notebook. E as pessoas começaram a sair por aí chamando laptop de notebook como se laptop sempre tivesse se chamado notebook. É inacreditável. Eu me recuso a mudar. Ainda falo laptop. Ainda falo winchester.
E o Ronaldo, o fênomeno? Ele se chamava Ronaldinho. Não é possível as pessoas terem se esquecido disso. Ele era o Ronaldinho! Ele sempre foi o Ronaldinho! Só que, de repente, ele perdeu o inho. Virou Ronaldo. No mesmo dia, o Ronaldinho Gaúcho perdeu o Gaúcho. O Ronaldinho virou Ronaldo e o Ronaldinho Gaúcho virou só Ronaldinho.
Como? Por quê? Quem decidiu isso? Um dia vou chegar em casa e minha mulher vai ter outro nome.
- Oi, Camila.
- Você tá me chamando de Camila?
- Você quer que eu te chame como? Loreta?
- Quero que você me chame pelo meu nome! Quem é essa Camila?
- Como quem é essa Camila?
- Você pensa que eu sou idiota?
- Eu? Idiota? Eu nem sei o seu nome! Eu nem te conheço!
Os Sertões, Euclides da Cunha
Memorial de Aires, Machado de Assis
200 Crônicas Escolhidas, Rubem Braga
Flor de Obsessão, Nelson Rodrigues
A Bíblia do Caos, Millôr Fernandes
A Lanterna na Popa, Roberto Campos
Trinta Anos Esta Noite, Paulo Francis
Dizem que no céu a gente encontra todos os parentes que morreram antes de nós. Mas e se sua mulher perdeu um filho com cinco, seis meses de gravidez? Aparece um feto se arrastando atrás de você?
- O que esse feto tá fazendo aqui? Eu não quero encontrar um feto. Onde tá o tio Oscar? O tio Oscar tem mau hálito, dá soquinhos no meu ombro e só sabe falar de plantação de cana. Mas é melhor o tio Oscar do que esse feto.
E o feto tentando expelir uma palavra:
- Pa… pai…
- Cai fora, feto.
- Por que… eu… não… nasci?
- Sei lá. Você tá no céu. Pergunta pra deus. Eu não sei.
- Por… que… eu… não… nasci?
- Quanto tempo eu vou ter que ficar aqui com esse feto? A eternidade? Passa rápido?
- Pa… pai!
Ouçam, crianças, o velho Ortega y Gasset:
“Ser de esquerda, assim como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil.”
E ouçam de novo:
“Ser de esquerda, assim como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil.”
A única certeza que é possível ter é que Curb Your Enthusiasm é o seriado mais engraçado já feito.
“Sem alma não se chupa nem um chica-bon”, escreveu o Nelson Rodrigues. Bondade do Nelson. Sem alma se faz qualquer coisa. Sem alma se ama. Sem alma se deseja. Aliás, só temos desejos porque não temos alma. É a falta de alma que nos inquieta e nos joga pra frente – ou pra trás. Uma lagartixa, um tatu-bola, tem alma. Nós, quando muito, temos um corpo com barriga de tanquinho.
Só levo a sério curso de noivos com palestra do Kadu Moliterno e do Netinho de Paula.
Tive que fazer um curso de noivos. Me ensinaram que casamento é uma “união a três” – marido, esposa e deus. Para a igreja católica, o casamento já começa com um ménage à trois.
Os palestrantes mostraram fotos de Marte que não eram de Marte, leram poemas do Victor Hugo que não eram do Victor Hugo e falaram da beleza do casamento ao lado de mulheres horripilantes. Depois, claro, juramos nunca trair nossos – aspas – cônjuges.
(Casamento não funciona porque ninguém suporta ser cônjuge. Nem a palavra cônjuge suporta ser cônjuge.)
Também aprendi que num casamento é preciso diálogo, tolerância, respeito, sacrifício e companheirismo. É a receita exata de um casamento fracassado. Nem o mais bundão dos burocratas aguenta tanto lugar-comum.
E por aí vai. Vou.