


(conto curto)
Nunca se indignava. Nunca. Achava graça. Via imagens de campos de concentração e explodia em gargalhadas:
- Olha o que fizeram! Quanta burrice, meu deus do céu! É muito engraçado!
O comunismo era o seu Seinfeld. Os terroristas, o seu Monty Pynthon. O governo brasileiro, o seu Groucho Marx.
Quando soube que ia morrer, bateu com a mão na testa:
- Ai, ai! Meu próprio corpo me matar! Que galhofa!
E riu. E riu.
29 de abril
O aviso de apertem os cintos (ou, no caso, de allacciare le cinture di sicurezza) se acende. Olho pela janelinha. Roma está em algum lugar lá embaixo. A Cidade Eterna. A capital do maior império que o mundo já conheceu.
- Quando a gente chegar no hotel, temos que ligar pra Silvia.
- Que foi, querida?
- Quando a gente chegar no hotel, temos que ligar pra Silvia.
- Que Silvia?
- Como que Silvia? A condessa.
- Condessa?
- Já te falei dela mil vezes.
- Refresh my memory, s'il vous plaît.
Continue lendo "Relato de uma viagem - parte IV"Aqui, o podcast do Diogo Mainardi. Estrelando Reinaldo Azevedo.
Acabei de receber um telefonema da Marta Suplicy. É sério. Ela pediu meu voto pra dois deputados (Zarattini e Rui Falcão) e pro trio Mercadante–Suplicy–Lula. Quando terminou, desligou na minha cara. Nunca tinha atendido um engano tão grande antes...
Era, claro, uma gravação. Mas a própria Marta me parece meio Max Headroom... ou, pelo menos, mãe do Max Headroom...
PS: assim que acabei de escrever isso aqui, ela ligou de novo! Alguém tem o telefone da casa dela?
Hoje li que as últimas palavras do filósofo Bernard de Fontenelle foram:
– Não estou sentindo nada, a não ser uma certa dificuldade em continuar existindo.
Engraçado. Foi exatamente a mesma coisa que eu disse pra minha mulher no meio do show do Chico Buarque.
Ir ao show do Chico Buarque está no Top Ten das Coisas Mais Difíceis que Fazemos Para Agradar Nossas Queridas Esposas.
É quase como levá-las ao motel – e ficar sozinho do lado de fora.
Sejamos francos: o Chicão se especializou em música para comer mulher. O problema é que ele já tá com uns 70 anos e continua fazendo música para comer mulher. De repente, no meio de uma melodia romântica, solta esses versos:
Peitinhos assaz
Bundinhas assim
Pô. Segura sua onda, malandro.
(Isso pra não falar do local do show, o Tom Brasil. É o capitalismo em sua manifestação mais baixa. É quase como uma mina de carvão do Zola ou uma fábrica de graxa de sapato do início da revolução industrial. Os funcionário te tratam mal, o som é ruim, as mesas apertadas; o estacionamento custa 18 reais, uma cerveja Nova Schin custa 5, e estou até agora esperando um Red Label [14]. Não é à toa que o Chico é socialista. Eu também seria se todos os capitalistas ganhassem dinheiro como ele.)
E quando, no bis, centenas de secretárias bilíngües, professoras universitárias e gerentes de marketing cantaram emocionadas...
Quem te viu, quem te vê
… uma dor intensa atravessou a minha alma como um raio (na verdade eu bati o joelho na mesa e deu choquinho) e por muito pouco eu não chorei de tristeza pela humanidade.
Chávez na ONU chamando o Bush de diabo. Parecia um show de stand-up comedy.
- Vocês tão sentindo um cheiro de enxofre? Ou foi o chanceler da Jamaica que pediu McDonald's de novo?
Drum roll.
- Na verdade, não me importo muito que o Bush seja o diabo. O chato é que ele leva aquele tridente pra tudo quanto é lugar. Sempre que a gente tá no restaurante, o garçom aparece constrangido: "senhor presidente, se o senhor preferir, nós temos talheres"...
*
Chavez é um anão com síndrome de down mostrando a língua e fazendo careta pro campeão dos pesos pesados.
*
E aquela figura triste do Celso Amorim dizendo algo do tipo: "Acho que o Chávez exagerou na parte do enxofre, mas a Venezuela tem lá as suas razões...". Que vergonha. Se a população brasileira tivesse um flash de compreensão do rídiculo absoluto que é ser brasileiro, as pessoas sairiam correndo pelas ruas, desesperadas, chorando e arrancando os cabelos.
Quando Fernando Pessoa escreveu "triste de quem é feliz", provavelmente só estava querendo fazer graça. Poeta adora fazer graça. E onde ele faz graça, o pessoal vê profundidade. Lembro daquele slogan do PT, "sem medo de ser feliz". Esse slogan me deixou perplexo por muito tempo. Eu parava as pessoas na rua, gesticulando como o Woody Allen:
- Você entende o slogan do PT? É sério que alguém tem medo de ser feliz?
Alguns psicólogos me explicaram que sim, evidentemente, o pessoal morre de medo de ser feliz. Psicólogos também adoram fazer graça e gostam muito da idéia de profundidade. Querem ser profundos – e o melhor jeito de ser profundo é ver profundidade nos outros. Só que os outros não são profundos. Poços de petróleo são profundos. Os outros são rasteiros.
Pra citar outro poetinha, "é melhor ser alegre que ser triste" (poderia aqui abrir um parênteses e discorrer sobre a diferença entre alegria e felicidade, mas não vou fazer isso, nem que seja pelo motivo de que alegria e felicidade são a mesma coisa). "É melhor ser alegre que ser triste" talvez seja o verso mais idiota da música brasileira. É óbvio demais. É raso. É absolutamente verdadeiro.
Mas só escrevo tudo isso porque saiu uma pesquisa dizendo que 76% dos brasileiros se consideram felizes. Isso é o tipo de coisa que abala minhas convicções. Se 76% dos brasileiros se consideram felizes, como, eu pergunto, felicidade pode ser uma coisa boa?
Era só o que faltava.
É melhor ser triste que alegre. Triste de quem é feliz.
O duque Mu da China disse a Po Lo: "Você está bem entrado em anos. Haverá alguém em sua família capaz de substituí-lo na tarefa de procurar cavalos para mim?". Po Lo respondeu: "Um bom cavalo pode ser selecionado por sua aparência e constituição física. Mas o cavalo fora de série – o que não levanta poeira e nem deixa rastro – é algo evanescente e fugidio, tão intangível quanto o ar rarefeito. Os talentos de meus filhos situam-se em plano definitivamente inferior: reconhecem um bom cavalo quando o vêem, mas são incapazes de identificar um cavalo excepcional. No entanto, tenho um amigo chamado Chiu-Fang Kao, um vendedor de lenha e de legumes, que não fica nada a me dever em matéria de cavalos. Por favor, fale com ele".
O duque Mu assim fez, enviando-o logo depois em busca de um cavalo. Passados três meses, ele voltou anunciando que o encontrara. "Está agora em Sach'iu", acrescentou. "Que tipo de cavalo é ele?", perguntou o duque. "Ah, é uma égua baia", foi a resposta. Porém, quando alguém foi buscar o animal, verificou-se que era um garanhão negro como carvão! Muito contrariado, o duque mandou chamar Po Lo. "Esse seu amigo", disse ele, "que contratei para encontrar um cavalo, meteu os pés pelas mãos. Ora bolas, não sabe nem distinguir a cor ou o sexo de um animal! O que é que ele pode entender de cavalos?" Po Lo soltou um suspiro de satisfação. "Será mesmo que ele chegou a tal ponto?", perguntou em tom excitado. "Ah, então ele é dez mil vezes melhor do que eu. Não há comparação entre nós. O que o Kao tem em mira são os elementos espirituais. Certificando-se do essencial, esquece os detalhes comezinhos; concentrando-se nas qualidades internas, perde de vista os sinais exteriores. Ele vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver. Kao é tão sabido como avaliador de cavalos que deveria julgar algo melhor do que simples animais."
Quando o cavalo chegou, provou ser extraordinário.
J. D. Salinger, Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira.
Tenho muita vergonha de não escrever bem. Mas tenho muito mais vergonha de não escrever nada.
"Estudo brasileiro indica que cosmos começará a frear taxa de crescimento", diz a Folha Online. Quer apostar que daqui a pouco o Lula vai dizer que o Brasil cresce mais que o Universo?
- É, companheiro. E Deus nem dá bolsa-família.