Arquivo
Miles
É mentira que não gosto de Miles Davis. Acho que seu trompete harmoniza maravilhosamente bem com o tilintar de gelo no copo e o murmurinho de vozes amigas. Não posso pensar em som ambiente melhor.
Foi o que eu disse outro dia pro Radamanto, que levou as mãos ao rosto num gesto de contido desespero e comentou baixinho, quase com vergonha de responder a um absurdo desses: “Seu gosto musical está miles away do minimamente tolerável.”. Depois virou pro lado e ficou resmungando, como se falasse com um interlocutor imaginário: “Dois ouvidos! E ele ainda tem dois ouvidos!”.
Bem. Como diria Osgood Fielding III, ninguém é perfeito.
Para o Radamanto, o melhor disco de jazz já feito se chama Kind of Blue. É a mesma opinião do Marcelo Tas, pra citar outro cara que considero. E cito um terceiro: Lorde Bilyk, o lendário aristocrata polonês, editor da sensacional Editora Barracuda. Foi ele quem acabou de lançar no Brasil o livro Kind of Blue – A História da Obra-Prima de Miles Davis. Quem sabe eu comece a gostar do disco lendo sobre ele? Foi assim com comida. Achava que comer era um ato terrivelmente bárbaro, até que comecei a ler Nero Wolfe. Virei um glutão.

