


"Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida romagem às cidades da Europa.
Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num wagon, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi derreadamente, atrás dum criado, a escadaria desconhecida dum hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-à-la-mode, já frio, com molho coalhado – e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tetos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquiteturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boa vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado."
Mudou muito viajar? Naquela época não se tinha que abrir caminho a bengaladas pela choldra ignóbil de turistas...
Observando a reconstituição colorida das velhas estátuas da sua Grécia Antiga, não pôde conter o esgar:
– É como ver o rosto da mulher amada besuntado de maquiagem ordinária!
E o suspiro:
– Benditas sejam as ruínas!
Por que sou católico, de Chesterton.
Por que não sou cristão, de Betrand Russell.
É preciso admitir: tá na hora de acabar com a direita. Tá na hora de acabar de uma vez por todas com essa palhaçada. Já faz tempo que a palavra direita se tornou uma ofensa terrível, intolerável. Chame o mais pacato dos monges tibetanos de direitista e não se surpreenda quando ele lhe arrebentar os dentes com um soco. Ainda assim, tem gente que insiste em se dizer de direita. Eu não. Não mais. Repudio o capitalismo. Sou de esquerda. Socialista. E por isso defendo o livre comércio, as privatizações, o estado mínimo.
Desde os meus primeiros anos estudei em escola católica, e, ingênuo por natureza, recebi os ensinamentos cristãos como verdades irrefutáveis. Parecia-me improvável que tantas pessoas, por tanto tempo, acreditassem em algo falso. Acreditava em deus porque não acreditava na estupidez.

Acabou. Acabou tudo. Anteontem terminei de assistir a terceira temporada de Deadwood. Não era pra ser a última. Foi. A HBO disse que a série era cara demais. Tô pensando em vender meu apartamento e mandar o dinheiro pra HBO. O apartamento e aquele faqueiro de prata que ganhei de casamento. Talvez dê pra pagar uns três minutos de um novo episódio. Nunca mais Al Swearengen. Nunca mais Doc Cochran. Nunca mais Charlie Utter. Nunca mais Jack Langrishe. Nunca mais E. B. Farnum. O repulsivo e genial E. B. Farnum.
A morte devia ser privilégio exclusivo das pessoas reais.