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Arquivo de fevereiro, 2008

Desembarque

26, fevereiro, 2008 FDR 4 comentários

(conto curto)

Como de costume, esperou sentado em sua poltrona até a fila de passageiros sumir, e então levantou-se bocejando, abriu o compartimento de bagagens de mão e pegou sua mochila (um paletó amarrotado, uma gravata com o mesmo nó há três dias, uma cueca suja e uma escova de dente estropiada ). Soltou baixinho um boa noite ao comandante, que não o ouviu, e saltou do avião. Caminhou alguns minutos, pegou duas escadas rolantes, deu uma rápida olhada nas pessoas que esperavam as malas em frente à esteira. Não conseguia lembrar se ainda tinha miojo em casa. Sabor legumes, talvez.

A porta de vidro automática do saguão de desembarque se abriu à sua frente, revelando-lhe uma pequena multidão de pais esperando filhos, filhos esperando pais, mulheres esperando maridos, maridos esperando mulheres. Alguns esperavam desconhecidos e seguravam placas com seus nomes. Um velho de bigode esperava Mr. Carlson. Um chinês engravatado esperava Roberta Aguiar. E uma mulher, linda, loira, grande, os peitos explodindo para fora da camiseta regata branca, as pernas grossas enfiadas numa calça jeans impressionantemente apertada (lembrou-se na hora daquelas garrafas que têm em seu interior um iate em miniatura), um monumento, um espectáculo, uma mulher que era exatamente o seu tipo de mulher, exatamente o seu tipo, grande, loira, grande, e essa mulher, ele simplesmente não podia acreditar, essa mulher, era inacreditável, essa mulher, grande, loira, exatamente o seu tipo, segurava uma placa e esperava, linda, loira, monumental, espetacular, ela segurava uma placa, não era possível, uma placa, inacreditável, uma placa, impressionante, uma placa com o seu nome:

“Flemício de Almeida Castro Júnior.”

Ninguém mais chamava Flemício, a não ser seu pai, há anos morto e não Júnior.

Flemício estacou por um instante. Sentiu o coração mancar. Respirou fundo. E passou reto pela mulher. Apressado, bateu a porta do táxi. Gaguejando, falou seu endereço. Quase caíra como um pato. Era óbvio. Era evidente. Era quantos mais sinônimos de óbvio houvesse no dicionário. Alguém tinha tentado zoar com ele. Rir às suas custas. Gargalhar. Não havia dúvidas quanto a isso. Aquela mulher, segurando uma placa com o seu nome. Segurando sensualmente uma placa com o seu nome. Claro que era alguma espécie de brincadeira.

Mas não era. Flemício estava enganado.

E não tinha miojo em sua casa.

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Trechos de Antes que Anoiteça, do escritor cubano Reinaldo Arenas

21, fevereiro, 2008 FDR 3 comentários

“Assim era a minha vida no início de 1980: cercado de espiões e percebendo que minha juventude se esvaía sem nunca ter conseguido ser uma pessoa livre. Minha infância e minha adolescência transcorreram sob a ditadura de Batista e o resto de minha vida sob a ditadura ainda mais feroz de Fidel Castro; jamais seria um verdadeiro ser humano, no sentido mais completo da palavra.”

“A própria beleza é perigosa em si, conflitiva para toda ditadura, porque implica um âmbito que vai além dos limites em que essa ditadura submete os seres-humanos; é um território que escapa ao controle da polícia política e onde, portanto, não pode reinar. Por isso mesmo, irrita todos os ditadores, que querem destruí-la de qualquer maneira. A beleza sob um sistema ditatorial é sempre dissidente, porque toda ditadura é por si mesma antiestética, grotesca; praticá-la representa, para o ditador e seus agentes, uma atitude escapista ou reacionária.”

“(…) minha amizade com Jorge e Margarita Camacho foi indestrutível. Eles sempre deram um jeito para que eu recebesse uma carta de consolo e, muitas vezes, através de algum turista francês, mandavam-me uma camisa, um par de sapatos, um lenço ou um perfume. Estes presentes se tornaram um símbolo de vida pra mim, só pelo fato de terem chegado de uma região livre; tinham até um cheiro diferente. Ao usar essas roupas, eu caminhava de modo diferente; até certo ponto, isso me tornava um pouco mais livre também, me colocando em contato com um mundo onde ainda era possível respirar. O mais impressionante de tudo, porém, era quando um daqueles turistas, a quem tínhamos contado nossos horrores, voltava para casa. Aquela pessoa transformava-se, para nós, numa espécie de ser mágico pelo único fato de poder pegar um avião e sair de Cuba, sair daquela cadeia. Com que inveja víamos Olga atravessando a barreira de vidro, só possível de ser transposta por quem tivesse uma licença especial de saída, ou pelos estrangeiros que vinham visitar o país. Olga se perdia por trás daquelas vidraças, e corríamos todos até o terraço, de onde podíamos vê-la subindo a escada do avião. Era um prazer imenso poder pensar em subir no avião e deixar aquele inferno para trás. Quando o avião começava a subir, nós o víamos desaparecer entre as nuvens, lotado de gente que podia ir embora, não ligar para tudo o que se passava aqui, dizer o que bem quisesse, comprar um par de sapatos novos. Mas nós ficávamos ali mesmo, formando uma imensa fila para pegar a condução que nos levaria para Havana, olhando para nossas calças de tecido grosseiro e nossa pele ressecada pelo sol e a falta de vitaminas.”

“Foi uma das coisas mais horríveis que o castrismo conseguiu: romper os laços de amizade, fazer com que desconfiássemos dos nossos melhores amigos, transformá-los em informantes, em tiras. (…) O mais dramático de tudo foi que muitas pessoas se tornaram vítimas da chantagem e do próprio sistema, até perderem sua própria condição humana.”

“A diferença entre o sistema comunista e capitalista é que, embora os dois nos dêem um chute na bunda, no sistema comunista a gente leva o chute e tem que bater palmas; no capitalista, a gente também leva, mas pode gritar.”

“Se existe algo que o sistema totalitário pode nos ensinar, é que as desgraças são infinitas.”

Arenas foi preso por supostamente molestar sexualmente alguns rapazes (em Cuba, basta uma denúncia de “delito erótico” contra um homossexual para que ele seja preso) e por ser considerado “contra-revolucionário” (aliás, todo homossexual, e toda mulher que não se contenta em ter apenas um homem, é considerado contra-revolucionário). Arenas escreve sobre a prisão El Morro:

“O mau cheiro e o calor eram insuportáveis. Ir ao banheiro representava uma verdadeira odisséia; o banheiro não passava de um buraco onde todo mundo defecava; era impossível chegar até lá sem sujar de merda os pés, os tornozelos, e depois não havia água para se limpar.”

“(…) existia uma forma de burlar a revista; era o que faziam umas bichas-loucas muito habilidosas, chamadas de ‘maleteiras’. Os presos davam às maleteiras o que os seus familiares tinham trazido: maços de cigarro, dinheiro, comprimidos, crucifixos, anéis. As maleteiras colocavam tudo numa sacola de náilon, iam até o banheiro e enfiavam tudo no cu. Algumas tinham uma capacidade realmente surpreendente, chegando até a transportar cinco ou seis maços de cigarros, centenas de comprimidos, correntes de ouro e inúmeros outros objetos. (…) Naturalmente, cobravam 10 por cento pelo transporte, ou até vinte ou cinquenta por cento da mercadoria que transportavam; mas tratava-se de um meio seguro.”

“Lembro-me de um jovem negro que ficou gritando no pátio da prisão por mais de uma semana: ‘Abaixo Fidel Castro, Fidel Castro assassino, filho da puta, traidor.’(…) Os soldados não sabiam o que fazer, além de lhe dar porrada. A segurança do Estado demorou uma semana para decidir o que fazer com aquele negro, até que o amarraram numa maca, deram-lhe uma injeção, disseram que estava louco de pedra e foi levado para um manicômio. Sim, a valentia é uma loucura, mas cheia de grandeza.”

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Antes do Amanhecer (da série Minhas Cenas Prediletas)

19, fevereiro, 2008 FDR 5 comentários

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As espinhas em sua pele

13, fevereiro, 2008 FDR 1 comentário

As espinhas em sua pele

Borra num Château Latour

Era nelas que eu pensava

Cada vez que ela dizia

Eu te amo, mon amour

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La Vecchiaia

12, fevereiro, 2008 FDR 2 comentários

Você sabe que tá velho quando tem que usar o scrollbar para selecionar o ano do seu nascimento…

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Fabio Who?

11, fevereiro, 2008 FDR 6 comentários

– O Gilberto Braga tá concorrendo como Melhor Autor de TV de 2007.

– Ele merece.

– O Cláudio Paiva da Grande Família também.

– O cara é bom mesmo.

– O Marcílio Moraes.

– Fera.

– E tem também o Fabio Danesi.

– Quem?

– Exatamente. É o Prêmio Quem 2007.

*

Pois é. Estou concorrendo junto com o Rodrigo Castilho pelo nosso trabalho no seriado Mothern. O mais impressionante é que você pode votar na gente. Bastar clicar nesse link e fingir que não viu as outras alternativas. Se você já votou no Lula ou no Maluf, não vai ser tão difícil…

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