


(conto curto)
Era um sujeito que estudou em escola de padre. Família religiosa e tal. Vivia ouvindo dizer que era filho de Deus. Que todos eram filhos de Deus. Um dia, num mesmo dia, perdeu o emprego, o carro quebrou, a namorada foi embora, a calçada tava molhada, escorregou, bateu a cabeça e fraturou o joelho. Pela primeira vez, achou que não era filho de Deus. Pediu pra fazer exame de DNA. Depois de muita discussão, Deus topou. O exame foi feito. Negativo. Ele não era mesmo filho do Homem. O rapaz ficou mal: “então essa história de filho do Senhor... é tudo mentira? Ninguém é filho de Deus?” Deus respondeu: “não, não. É só você mesmo. Criei o mundo e tudo que tem dentro dele. Menos você." O rapaz começou a chorar: "e meus pais? quem são meus pais de verdade?" Deus coçou a barba (ele tem uma barba enorme, não apara há uma eternidade), suspirou fundo e disse: “Já ouviu falar de Eugênia e Adolfo Almeida?" E o rapaz: “Sim, são meus pais.” E Deus: “Então, você nasceu deles. Não sei como. Eu não tive nada a ver com isso. Desculpa aí.”
Poucas, pouquíssimas coisas são impossíveis de se tirar sarro. Os Concertos de Brandemburgo são uma delas.
(OK, ignore as perucas.)
Nunca confie em médico que morre.

As únicas pessoas que não sabem que as mulheres mandam no mundo são as feministas...
Dante ficou noivo aos doze anos.
Ninguém descreveu o inferno tão bem quanto Dante.
Para um relacionamento funcionar direito, o homem precisa ser pai e filho ao mesmo tempo. Coisa que nem mesmo Deus conseguiu por muito tempo.
- Você disse que tudo é feito de matéria. E o pensamento humano?
- Que que tem?
- O pensamento humano não é feito de matéria.
- É claro que não. Nada que não existe pode ser feito de matéria.
Sensacional curta-metragem de Sérgio Zeigler e Cacilda Teixeira da Costa sobre o pintor Wesley Duke Lee, em que eu tive a oportunidade de participar como "consultor de roteiro" (na verdade, dei um ou outro palpite durante a edição - palpites que por milagre não destruíram o filme).
Com a barba branca levemente manchada de shoyu, um copo de Johnny Walker na mão, o ex-guerrilheiro que lutara contra a ditadura brasileira, a favor do socialismo, dançava no meio da pista de dança ao lado de uma senhora de rugas, mas ainda não em ruínas, na festa de casamento de um grande banqueiro nordestino. E cantava, animadamente: “um sonho a mais não faz mal”...
A verdade crua é que estamos fritos.
Embora eu tinha sido o cara café com leite lá do Wunderblogs, o sujeito que ninguém sabe muito bem como que foi parar ali no meio de tanta gente boa (mais ou menos como o Bez do Happy Mondays, caso o Happy Mondays fosse uma banda com muita gente boa), agradeço de joelhos as generosas palavras a respeito do finado mostardinha.
O Alexandre escreveu o post de despedida que eu gostaria de ter escrito. Aqui vai um trecho:
"Não sei como parece para quem está de fora, mas para mim toda a experiência de pertencer a esse grupo foi algo extraordinário. Quando estávamos no auge, no distante e mítico ano de 2004, nos encontrávamos todos os finais de semana - ou estou romantizando tudo? estou, né? -, visitávamos a casa um do outro, víamos filmes de Wes Anderson e Milos Forman e Lubitsch, entrevistas com Nelson Rodrigues, bebíamos e falávamos mal uns dos outros - por que não falamos mais mal uns dos outros pelas costas, hein? - e dormíamos com a Gilda Radner e com a mulher do Lorne Michaels em oh, tantas madrugadas adentro."
Reinaldão Azevedo escreveu que eu critiquei a opinião dele sobre a legalização da maconha para criar polêmica e ganhar leitores. Nossa, what a schmuck. Quem precisa de leitores é você, Reinaldão. É você quem vive disso. Eu vivo de outra coisa. No blog, escrevo o que quero, quando quero. Para os meus dois leitores, que não troco, nem adianta insistir, pela sua multidão de leitores.
Reinaldão ficou irritadinho porque eu perguntei se ele teria coragem de defender que “lei é lei” na Alemanha nazista. Disse que eu estava sendo “estupidamente simplista”; afinal, ele só defende que "lei é lei" num “estado democrático e de direito”. Ah, tá. Pensei que ele fosse dizer: “num estado democrático e de direito e quando a lei é contra drogas”...
É claro que a minha pergunta era um exagero. Não penso tão mal do Reinaldão a ponto de achar que ele poderia sair por aí dando pontapés em judeus. Exagerei apenas para mostrar o absurdo do que está por trás do argumento “lei é lei”. E o que está por trás é a idéia de que o Estado, por princípio, está acima da consciência individual. Não está. Não importa se “estado democrático e de direito” ou não.
Eu sou estúpido e sou simplista. E na minha estupidez e simplismo, defendo, sempre, o direito de Antígona de enterrar seu irmão. E do Reinaldão falar a bobagem que quiser.
(conto curto)
- Cara, sabe quem eu encontrei ontem na rua? O Sapo!
- HAHAHAHA. O Sapo! Lembra dele? Que figurinha! Como é que ele tá?
- Tava abraçado com uma loira. Uma atriz francesa, parece.
Os dois ficam em silêncio, bebem o último gole de chope e pedem a conta.
Reinaldão Azevedo acha que quem defende a legalização das drogas devia que ser preso. O homem tá doidão, sô. Ele teria botado o Milton Friedman e o Paulo Francis em cana! Não quero nem imaginar o que teria acontecido, numa ditadura reinaldoazevediana, com o Bob Marley e o Bezerra da Silva...
O argumento do Reinaldão é que lei é lei, e a Justiça (olha a caixa e a ironia alta) proíbe a apologia das drogas. "Lei é lei" é um argumento sensacional. Teria ele coragem de usá-lo na Alemanha nazista? "Desculpa aí, Samuel, mas lei é lei".
Mas mesmos que nós, queridos leitores, que somos pessoas que colocam a consciência individual acima das arbitrariedades do Estado, concordássemos que "lei é lei", por que preferir a lei contra a apologia, em vez da lei que garante a livre manifestação do pensamento?
*
A Justiça (olha aí de novo) proibiu a tal da Marcha da Maconha em São Paulo. Li na Folha uma frase muito boa do major Wanderley, da PM: "O que não pode acontecer é uma passeata. Se eles ficarem parados não há problema". Imagino o alívio do pessoal da passeata... afinal, é difícil pensar em duas palavras que combinem tão pouco quanto "marcha" e "maconha"...
(conto)
- Mas papai...
- Não tem discussão. Você foi irresponsável.
Caminhávamos de volta para casa, era sábado, quase hora do almoço, o sol sobre nós como uma auréola. Na verdade, era papai quem caminhava. Eu corria, ou quase, enfiado nas minhas chuteiras Kichute e no meu uniforme amarelo, tentando andar no mesmo ritmo de papai.
- Irresponsável.
O jogo tinha sido difícil, o mais difícil do campeonato. Era a final. A minha classe, o Segundo B, que reunia as pessoas mais legais do mundo, contra o Segundo C, que reunia as piores pessoas do mundo. Eu era o centro-avante e o artilheiro do campeonato. O professor Marco Aurélio era o nosso técnico e me mandou ficar lá na frente, na banheira. Quando a bola chegar até você, chute com toda a sua força. Fique lá. Uma hora a bola chega. Mas a bola não chegava e eu, só eu, de todos os 22 jogadores em campo, tinha um segundo técnico. Era papai.
- Volta! Vai ajudar no meio de campo! O que você está fazendo aí sozinho? Deixa de ser preguiçoso!
- Mas pai, o professor disse...
- Volta, menino!
E eu voltava, e o professor gritava:
- Mas o que você está fazendo? Vai lá pra frente!
O primeiro tempo terminou em zero a zero. Viramos de campo e o juiz, que nas horas vagas era o professor de matemática, apitou. Eu não conseguia tocar na bola. Quando estava na frente, meu pai mandava eu voltar. Quando eu voltava, do outro lado campo, lá estava o técnico, mandando eu ir pra frente. Tentei um meio termo, perambulando pelo meio de campo. Até que, no final do jogo, a bola caiu no meu pé. Andei um pouco, ainda estava longe pra burro do gol, mas resolvi chutar. Ouvir meu pai gritar não! A bola saiu fraca e foi rolando direto pras mãos do goleiro. Quando ele ia agarrá-la, um pedaço de grama levantado, o famoso morrinho artilheiro, desviou a trajetória da bola e o enganou. A bola entrou lentamente no gol. O gol da vitória. Logo depois o juiz apitou o apito final e os alunos mais legais do mundo correram para me abraçar. Os professores me levantaram, eu era o herói do jogo.
- Irresponsável.
- Mas papai...
- Você passou metade do jogo sem fazer nada lá frente. Um peso morto. Se fosse outro no seu lugar, com aquele timinho, e aquele goleiro... Porque o gol não foi seu, foi do goleiro. Ele deixou a bola entrar. Aquele chutinho, do meio do campo! Você deu sorte, mas foi irresponsável.
Uma medalha vagabunda, presa a uma correntinha, balançava em meu peito, enquanto eu tentava acompanhar os passos de papai.
A sensação de estar fazendo algo errado mesmo quando as coisas davam certo me acompanhou então para o resto de minha vida.