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(conto)
- Mas papai...
- Não tem discussão. Você foi irresponsável.
Caminhávamos de volta para casa, era sábado, quase hora do almoço, o sol sobre nós como uma auréola. Na verdade, era papai quem caminhava. Eu corria, ou quase, enfiado nas minhas chuteiras Kichute e no meu uniforme amarelo, tentando andar no mesmo ritmo de papai.
- Irresponsável.
O jogo tinha sido difícil, o mais difícil do campeonato. Era a final. A minha classe, o Segundo B, que reunia as pessoas mais legais do mundo, contra o Segundo C, que reunia as piores pessoas do mundo. Eu era o centro-avante e o artilheiro do campeonato. O professor Marco Aurélio era o nosso técnico e me mandou ficar lá na frente, na banheira. Quando a bola chegar até você, chute com toda a sua força. Fique lá. Uma hora a bola chega. Mas a bola não chegava e eu, só eu, de todos os 22 jogadores em campo, tinha um segundo técnico. Era papai.
- Volta! Vai ajudar no meio de campo! O que você está fazendo aí sozinho? Deixa de ser preguiçoso!
- Mas pai, o professor disse...
- Volta, menino!
E eu voltava, e o professor gritava:
- Mas o que você está fazendo? Vai lá pra frente!
O primeiro tempo terminou em zero a zero. Viramos de campo e o juiz, que nas horas vagas era o professor de matemática, apitou. Eu não conseguia tocar na bola. Quando estava na frente, meu pai mandava eu voltar. Quando eu voltava, do outro lado campo, lá estava o técnico, mandando eu ir pra frente. Tentei um meio termo, perambulando pelo meio de campo. Até que, no final do jogo, a bola caiu no meu pé. Andei um pouco, ainda estava longe pra burro do gol, mas resolvi chutar. Ouvir meu pai gritar não! A bola saiu fraca e foi rolando direto pras mãos do goleiro. Quando ele ia agarrá-la, um pedaço de grama levantado, o famoso morrinho artilheiro, desviou a trajetória da bola e o enganou. A bola entrou lentamente no gol. O gol da vitória. Logo depois o juiz apitou o apito final e os alunos mais legais do mundo correram para me abraçar. Os professores me levantaram, eu era o herói do jogo.
- Irresponsável.
- Mas papai...
- Você passou metade do jogo sem fazer nada lá frente. Um peso morto. Se fosse outro no seu lugar, com aquele timinho, e aquele goleiro... Porque o gol não foi seu, foi do goleiro. Ele deixou a bola entrar. Aquele chutinho, do meio do campo! Você deu sorte, mas foi irresponsável.
Uma medalha vagabunda, presa a uma correntinha, balançava em meu peito, enquanto eu tentava acompanhar os passos de papai.
A sensação de estar fazendo algo errado mesmo quando as coisas davam certo me acompanhou então para o resto de minha vida.





