


"Great people talk about ideas, average people talk about things, and small people talk about wine."
Fran Lebowitz.
Woody Allen acha que o único filme em que ele conseguiu realizar exatamente o que queria é A Rosa Púrpura do Cairo. Também acha que Manhattan foi um desastre completo e chegou a implorar para a United Artists não lançá-lo.
E olha só: A Rosa Púrpura do Cairo é o seu pior filme. Manhattan, o seu melhor.
Continue errando, Woody. Continue errando.
A maneira mais eficiente de deixar seus amigos felizes é fazer com que eles acreditem que sua vida está uma merda.
Sabe quando o telefone toca na TV e você acha que está tocando na sua casa? Isso, meu caro, é o que é o amor...
De todos os refugiados afegãos que vieram morar no Brasil, nenhum conseguiu ficar muito tempo por aqui. Isso deve significar alguma coisa.
"Um pouco de talento num escritor significa quase tanto quanto um pouco de talento num neurocirurgião." Frank Sinatra em Some Came Running.
Descobri que um texto meu foi usado como base para a prova de língua portuguesa do Centro Federal de Educação Tecnológica de Alagoas. Depois não sabem por que a Unesco considera os jovens brasileiros os mais burros do mundo...
O texto foi originalmente publicado na revista Bravo!, no final de 2006:
A Eternidade no Orkut
“Gosto que me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir”, escreveu o Paulo Francis num passado (não) muito distante. Já num presente exageradamente próximo, há quem possa dizer: “Gosto que vejam minhas fotos de biquíni, que leiam minhas conversas particulares e que saibam minhas preferências culinárias e sexuais. Ter uma página no Orkut é uma forma de existir”.
Pois é, meus caros, caríssimos amigos. Lembram da expressão “minha vida é um livro aberto”? Não passa de objeto de arqueologia lingüística. Hoje, a vida é uma página aberta do Orkut. E pelo andar da carruagem (ou do trem de levitação magnética, para sermos mais modernos), em breve a intimidade deixará de ser uma coisa, digamos assim, íntima. "Tenho que conversar com você, minha querida, mas não sei se aqui é o lugar ideal. Estamos só nós dois."
Nada disso me espanta ou incomoda. Tenho lá meu lado voyeur e o meu lado exibicionista – ambos, ainda bem, devidamente confinados dentro de estreitos limites saudáveis (um pouquinho mais estreitos que o Marco Maciel, para sermos mais exatos). O que me espanta e incomoda é que não só a vida é uma página aberta do Orkut, mas a morte também. Com o Orkut, o sujeito não tem mais direito ao descanso eterno – fica lá sorrindo para sempre no álbum de retrato, em cima de legendas como “eu zuando com o óculos da Patty, iláááááriio, huahuahua!!!”. É terrível.
Mas o pior talvez sejam os “scraps”, ou recados públicos que as pessoas deixam umas para as outras. Basta bater as botas para se receber uma enxurrada deles. É como se o morto pudesse ler, como se ele não estivesse realmente morto... “Muitas saudades, meu amor”. “Fique bem onde quer que você esteja”. “Até logo” (é verdade, juro que uma vez vi um “até logo”). Sem falar dos desavisados que aparecem no meio: “E aí, beleza? Ainda tá na facu? Dê um sinal de vida. Abs!”.
Até que de repente, não mais que de repente, a página de recados começa a ser soterrada por spams, esses vermes virtuais, e as mensagens de dor e saudade desaparecem sob o peso diabólico de propagandas do LIVERJOYCE (assim mesmo, em maiúsculas – “VC EMAGRECE DORMINDO”) e da Festa da Ressaca no Tupana Café (antigo Guaricanga de Albuquerque, como eles fazem questão de deixar claro).
Terrível, terrível. Vários amigos meus já me deram suas senhas, implorando: “Olha, se eu morrer, você entra lá e apaga tudo. TUDO! Não deixa aquela página lá!”. É estranho ter o poder de vida e morte sobre as pessoas no Orkut – talvez nem Deus himself tenha esse poder. Na primeira vez que me deram uma senha, eu perguntei: “Se você morrer, que importa aquela página? Você vai estar morto! Como você pode se preocupar com uma coisa dessas?”. Meu amigo balançou a cabeça negativamente, como se eu não entendesse nada de nada, e respondeu: “E se eu ficar preso lá dentro, hein? Já pensou nisso? Passar a eternidade no Orkut? Vagando eternamente pelas comunidades "Eu odeio a Gabriela Duarte" e "Tenho Mania de Limpeza Como a Monica do Friends"? Hein, hein? Mil vezes o inferno!”. Tive que concordar com ele. Ficar preso no Orkut deve ser pior do que ficar preso na Zona Fantasma, aquele espelho que viaja pelo espaço carregando os vilões mais cruéis do planeta do Super-Homem (uma espécie de Bangu III no formato do Marco Maciel – me perdoem, não sei por que estou com o Marco Maciel na cabeça).
Mas se meus amigos morrerem antes de mim (o que não desejo, embora sem muita convicção), vou mesmo é responder cada um dos “scraps” como se eu fosse o morto: “Agora você está com saudades, né, sua vadia!”. Ou: “Paraíso tem acento, ô animal.” Ou ainda: “Não se preocupe. Em breve você estará por aqui também. Muito, mas muito mais em breve do que você imagina”.
Se eu fosse um empresário e alguém me apresentasse o projeto de uma revista chamada Dicta&Contradicta, com textos sobre o Eclesiastes, Bernard Lonergan e Friedrich Hayek, eu expulsaria o cretino a pontapés da minha sala, gritando: "Você está louco?"
Ainda bem que eu não sou empresário. E ainda bem que o Martim Vasques da Cunha é completamente louco. Foi ele quem editou, em conjunto com o Instituto de Formação e Educação, a única revista highbrow da nossa querida e repulsiva Terra Papagalis. Além dos textos sobre o Eclesiastes, Lonergan e Hayek, há a coluna "Anatomia do Poema", do Pedro Sette Câmara, um conto inédito do Antônio Fernando Borges, um artigo do Paulo Ricardo de Almeida sobre os filmes de Max Ophüls, uma resenha de Marcelo Ferlin descendo o sarrafo no Ian McEwan, uma coluna do Ruy Goiaba e "muito mais".
O coquetel de lançamento será no próximo dia 10. Convite:

UPDATE: Comentário do Martim: "Fabio, obrigado pelas palavras carinhosas sobre a revista e sobre a minha loucura. Só um adendo: Dicta&Contradicta não teria sido uma loucura concreta se não fosse pelo esforço hercúleo de todos os integrantes do Instituto de Formação e Educação, em especial os de Guilherme Malzoni Rabello, o executor da empreitada, Henrique Elfes, o homem por trás de toda a elegância dos textos, Joel Pinheiro da Fonseca, o nosso enfant-terrible fã de Sto. Tomás, e, claro, Rodrigo Duarte Garcia, um dos novos talentos da Literatura Brasileira. E também não podemos nos esquecer que o primeiro número de Dicta&Contradicta começa com a última aula que Bruno Tolentino deu antes de morrer há um ano."
“Sem dúvida, o sr. de Laléande, a esta hora decerto levando, a passear na praia de Biarritz, uma vida medíocre e sonhos mirrados, ficaria bem surpreso se soubesse da outra existência que possui na alma da sra. de Breyves, milagrosamente intensa a ponto de subordinar tudo, aniquilar tudo que não seja ela mesma, existência tão continuada quanto sua existência pessoal, tão efetivamente se traduzindo em atos, dela só se distinguindo por uma consciência mais aguçada, menos intermitente, mais rica. Quão surpreso ficaria se soubesse que ele, normalmente pouco procurado em seus aspectos materiais, é subitamente evocado, onde quer que vá a sra. de Breyves, entre as pessoas mais talentosas, nos salões mais exclusivos, nas paisagens que mais se bastam a si mesmas, e que esta mulher tão amada deixa imediatamente de ter qualquer ternura, pensamento, atenção que não para a lembrança do intruso diantre do qual tudo se apaga, como se só ele tivesse a realidade de uma pessoa e as pessoas presentes fossem tão vãs como lembranças ou sombras. Quer a sra. de Breyves passeie com um poeta ou almoce com uma arquiduquesa, deixe Trouville para ir à montanha ou ao campo, esteja sozinha, lendo, ou converse com o amigo preferido, monte a cavalo ou durma, o nome, a imagem do sr. de Laléande está sobre ela, deliciosa, cruel, inevitável, como o céu sobre as nossas cabeças. Chegou ao ponto, ela que detestava Biarritz, de ver em tudo o que toca àquela cidade um doloroso e pertubador encanto. Inquieta-se com as pessoas que lá se encontram, que talvez o vejam sem saber, que talvez convivam com ele sem aproveitar. Por estas pessoas ela não sente rancor e, sem ousar entregar-lhes recados, interroga-as sem cessar, surpreendendo-se às vezes que tanto a escutem falar por aí do seu segredo sem que ninguém o descubra. Uma fotografia grande de Biarritz é um dos únicos ornamentos de seu quarto. Empresta, a um dos transeuntes que nela aparecem sem distinguir-se, os traços do sr. de Laléande. Se soubesse a música ruim que ele aprecia e toca, as menosprezadas romanças decerto tomariam, em seu piano e em breve em seu coração, o lugar das sinfonias de Beethoven e dos dramas de Wagner, por um rebaixamento sentimental de seu gosto e pelo encanto que aquele de que provinha todo o seu encanto e mágoa nelas projetava. Por vezes, a imagem daquele que ela só vira duas ou três vezes e por alguns instantes, que ocupa tão pouco espaço nos acontecimentos externos de sua vida mas que em seu pensamento e coração ocupou um lugar tão absorvente a ponto de tomá-los de todo, turva-se ante os olhos cansados da memória. Já não o enxerga, não lembra suas feições, sua silhueta, nem quase seus olhos. Esta imagem é, no entanto, tudo o que possui dele. Fica transtornada ao pensar que pode vir a perdê-la, que o desejo – que certamente a tortura, mas que agora é ela inteira, no qual se refugiou toda, depois de fugir de tudo, que ela preza como prezamos a conservação, a vida, boa ou má – poderia esvaecer-se e restar apenas o sentimento de um mal-estar e de um sofrimento de sonho, que não mais saberia qual objeto os causa, não mais o veria nem em seu pensamento e não poderia mais querê-lo. Mas eis que retorna a imagem do sr. de Laléande após esta momentânea desordem da visão interior. Sua tristeza pode recomeçar e é quase uma alegria.”
Proust, Melancólica Vilegiatura da Sra. de Breyves (tradução de Dorothée de Bruchard).
Maçonaria, s. f. Sociedade secreta primitiva, precursora de sociedades mais desenvolvidas como a dos Trekkers e a dos Cosplays.