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June 11, 2008



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Descobri que um texto meu foi usado como base para a prova de língua portuguesa do Centro Federal de Educação Tecnológica de Alagoas. Depois não sabem por que a Unesco considera os jovens brasileiros os mais burros do mundo...

O texto foi originalmente publicado na revista Bravo!, no final de 2006:

A Eternidade no Orkut

“Gosto que me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir”, escreveu o Paulo Francis num passado (não) muito distante. Já num presente exageradamente próximo, há quem possa dizer: “Gosto que vejam minhas fotos de biquíni, que leiam minhas conversas particulares e que saibam minhas preferências culinárias e sexuais. Ter uma página no Orkut é uma forma de existir”.

Pois é, meus caros, caríssimos amigos. Lembram da expressão “minha vida é um livro aberto”? Não passa de objeto de arqueologia lingüística. Hoje, a vida é uma página aberta do Orkut. E pelo andar da carruagem (ou do trem de levitação magnética, para sermos mais modernos), em breve a intimidade deixará de ser uma coisa, digamos assim, íntima. "Tenho que conversar com você, minha querida, mas não sei se aqui é o lugar ideal. Estamos só nós dois."

Nada disso me espanta ou incomoda. Tenho lá meu lado voyeur e o meu lado exibicionista – ambos, ainda bem, devidamente confinados dentro de estreitos limites saudáveis (um pouquinho mais estreitos que o Marco Maciel, para sermos mais exatos). O que me espanta e incomoda é que não só a vida é uma página aberta do Orkut, mas a morte também. Com o Orkut, o sujeito não tem mais direito ao descanso eterno – fica lá sorrindo para sempre no álbum de retrato, em cima de legendas como “eu zuando com o óculos da Patty, iláááááriio, huahuahua!!!”. É terrível.

Mas o pior talvez sejam os “scraps”, ou recados públicos que as pessoas deixam umas para as outras. Basta bater as botas para se receber uma enxurrada deles. É como se o morto pudesse ler, como se ele não estivesse realmente morto... “Muitas saudades, meu amor”. “Fique bem onde quer que você esteja”. “Até logo” (é verdade, juro que uma vez vi um “até logo”). Sem falar dos desavisados que aparecem no meio: “E aí, beleza? Ainda tá na facu? Dê um sinal de vida. Abs!”.

Até que de repente, não mais que de repente, a página de recados começa a ser soterrada por spams, esses vermes virtuais, e as mensagens de dor e saudade desaparecem sob o peso diabólico de propagandas do LIVERJOYCE (assim mesmo, em maiúsculas – “VC EMAGRECE DORMINDO”) e da Festa da Ressaca no Tupana Café (antigo Guaricanga de Albuquerque, como eles fazem questão de deixar claro).

Terrível, terrível. Vários amigos meus já me deram suas senhas, implorando: “Olha, se eu morrer, você entra lá e apaga tudo. TUDO! Não deixa aquela página lá!”. É estranho ter o poder de vida e morte sobre as pessoas no Orkut – talvez nem Deus himself tenha esse poder. Na primeira vez que me deram uma senha, eu perguntei: “Se você morrer, que importa aquela página? Você vai estar morto! Como você pode se preocupar com uma coisa dessas?”. Meu amigo balançou a cabeça negativamente, como se eu não entendesse nada de nada, e respondeu: “E se eu ficar preso lá dentro, hein? Já pensou nisso? Passar a eternidade no Orkut? Vagando eternamente pelas comunidades "Eu odeio a Gabriela Duarte" e "Tenho Mania de Limpeza Como a Monica do Friends"? Hein, hein? Mil vezes o inferno!”. Tive que concordar com ele. Ficar preso no Orkut deve ser pior do que ficar preso na Zona Fantasma, aquele espelho que viaja pelo espaço carregando os vilões mais cruéis do planeta do Super-Homem (uma espécie de Bangu III no formato do Marco Maciel – me perdoem, não sei por que estou com o Marco Maciel na cabeça).

Mas se meus amigos morrerem antes de mim (o que não desejo, embora sem muita convicção), vou mesmo é responder cada um dos “scraps” como se eu fosse o morto: “Agora você está com saudades, né, sua vadia!”. Ou: “Paraíso tem acento, ô animal.” Ou ainda: “Não se preocupe. Em breve você estará por aqui também. Muito, mas muito mais em breve do que você imagina”.