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Arquivo de dezembro, 2008

Os Perigos da Grande Arte

8, dezembro, 2008 FDR Sem comentários

(versão revista e diminuída. Publicada originalmente na revista Bravo!)

O sujeito começa olhando de soslaio uma serigrafia do Romero Britto. Depois, timidamente, passa os olhos por um Volpi, observa de longe um Portinari. Em pouco tempo, quer coisas mais pesadas. De cabelo desgrenhado, olheiras abissais, passa horas arrastando-se pelo MASP atrás de Van Gogh, Degas, Picasso. Não contente, rouba todas as economias da vó e se manda para a Itália. Quando dá por si, está tendo ataques epiléticos num dos corredores da Galeria dos Uffizi.

O sujeito foi longe demais. Está com a Síndrome de Stendhal.

A Síndrome de Stendhal foi descrita pela primeira vez por, sim, sim, isso, Stendhal. Foi em 1817. O autor de O Vermelho e o Negro visitava Florença, a capital do Renascimento, a terra de Dante, Botticelli e Pinocchio. Ao sair da Basílica de Santa Cruz, sentiu-se tonto, teve palpitações e quase desmaiou. Stendhal podia ter culpado os sanduíches de tripa que os florentinos servem naquelas barraquinhas higienicamente suspeitas. Mas não. Ele sabia. A culpa era da arte. Da grande arte!

É a mais pura, cristalina verdade: a beleza excessiva pode provocar mal-estar, alucinações, demência e até mesmo aquele troço desagradável que costumamos chamar de morte.

E não são apenas quadros e esculturas que podem acabar com a vida de um ser humano aparentemente normal e saudável.

Assim que concluiu Tristão e Isolda, Wagner escreveu numa carta: “Tenho medo que a ópera seja proibida. Só as interpretações medíocres podem me salvar. As realmente boas vão levar as pessoas à loucura.” Não deu outra. O tenor George Ander, que seria o primeiro Tristão da história, enlouqueceu durante os ensaios. Foi substituído por Ludwig Carolsfeld, que morreu pouco depois da estréia. Em 1911, foi a vez do maestro Felix Mottl. Caiu morto enquanto regia o segundo ato. A mesma sorte (perdão, azar) teve outro maestro, Joseph Keilberth, algumas décadas mais tarde.

No final do século dezenove, Mark Twain foi conferir o festival wagneriano de Bayreuth e escreveu estarrecido que muitas pessoas não conseguiam dormir depois de ver a encenação de Tristão e Isolda, pois passavam a noite chorando. Twain se sentiu como “uma pessoa sã numa comunidade de malucos”.

No Brasil, também temos exemplos de mortes terríveis provocadas pela música. Poucos anos atrás, uma velhinha morreu em São Paulo durante uma execução da Orquestra Jovem das Américas. Dizem as más línguas, porém, que o súbito falecimento foi mais uma crítica musical do que um êxtase artístico.

E os livros. Os livros também são perigosíssimos. Alguns deviam vir com tarja preta. Quem não conhece a lenda em torno d’Os Sofrimentos do Jovem Werther, aquele pequeno romance do Goethe? Segundo a lenda, mais de duas mil pessoas se mataram depois de ler o livro. Outras tantas se mataram antes de ler o livro, e mais algumas se mataram só de ouvir falar do livro.

Lamentavelmente, eu não preciso me preocupar com esse tipo de coisa. Sempre quis ser levado à demência por uma obra de arte (abro mão da morte), mas o máximo que consegui, após anos de árduas tentativas, foi dar um totó no carro da frente enquanto lia Balzac no trânsito.

Quem sabe um dia.

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Dic(t)a

5, dezembro, 2008 FDR 1 comentário

Vai sair um texto meu no segundo número da Dicta&Contradicta. Mas eu juro que a revista é boa.

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