O mendigo presidente
Tem um mendigo que “trabalha” perto de casa, na avenida Estados Unidos. Usa uma capa e está sempre balançando uma bandeira do Brasil. Escreve discursos contra o governo em cartolinas. As cartolinas ficam encostadas em postes e mudam todo dia. Ontem ele escreveu que os políticos vivem na gozolândia, enquanto o povo vive na cracolândia. Quer se candidatar à presidência. Tem meu voto.
A LEI MOURÃO
“É expressamente proibido o ensino do liberalismo e demais ideologias capitalísticas em todos os ambientes de ensino público de Canoinha Singela.”
“Entende-se por ambiente de ensino público qualquer escola, faculdade, curso, seminário ou palestra que seja financiado, em parte ou no todo, com verba do governo federal, estadual ou municipal.”
“Torna-se ilegal para os professores públicos o ensino de qualquer tipo de teoria que negue a luta de classes conforme é ensinada nos textos de Karl Marx, assim como teorias que defendam o encolhimento do Estado e/ou o recrudescimento do individualismo.”
Leia mais aqui: www.ordemlivre.org/textos/912
O formspring revelou uma coisa: as pessoas têm mais vergonha de perguntar do que de responder.
Serra e Dilma são tão carismáticos que até eu ganharia se saísse pra presidente.
FDR e Monique Alfradique, finalmente juntos
Texto meu na VIP desse mês. Sobre o fim do amor platônico. Mais importante: Monique Alfradique na capa.
De Shakespeare a Saramago
E se Shakespeare fosse nosso contemporâneo? E defendesse ditadores e terroristas? E chamasse os israelenses de Shylocks embrutecidos? E de sua mansão em Chelsea, sentenciasse, a voz empostada, a métrica da sabedoria: “Há mais inteligência no cotovelo do Chomsky do que na cabeça de todos os capitalistas”?
Pior! E se posasse para fotos na ONU ao lado do Bono Vox?
Deixaríamos seus regurgitamentos opiniáticos influenciarem nosso julgamento de suas peças e sonetos? Consideraríamos então Hamlet uma figura ridícula com aqueles chiliques e aquelas ceroulas? Desprezaríamos Otelo, Macbeth, Lear? Ousaríamos comparar Julieta a um dia de verão em Itanhaém?
É claro que vários grandes escritores foram também grandes idiotas. Bernard Shaw, por exemplo. Arrastou sua indecorosa barba até a União Soviética, onde beijou abjetamente as bochechas gordas de Stalin, o Carniceiro. Na volta, disse, sorrindo, o pulha: “Fome na Rússia? Bobagem. Eu nunca fui tão bem alimentando quanto em Moscou”. Enquanto ele fazia piadinha, milhões de soviéticos morriam de fome por culpa do comunismo.
Shaw, o maior dramaturgo de língua inglesa depois de Shakespeare.
E Tolstoi, que pregava o fim da propriedade privada, mas era incapaz de abandonar suas baixelas de prata, sua residência de conde? Ah, Leon Nikolaievitch! Louvava tanto os camponeses que teve até filho com uma! E com que generosidade abandonou o pobre bastardo à própria sorte, permitindo que ele criasse asas e galgasse, sozinho, a admirável profissão de chocheiro! Como não deve ter sofrido quando o filho foi rebaixado a lenhador! Ah, Leon Nikolaievitch! O maior romancista da história!
Mas Shaw e Tolstoi se foram faz tempo. Podemos ler seus livros em paz, sem o incômodo de vê-los na TV defendendo o Chávez ou condenando os ricos por usarem papel higiênico ultramacios feitos com papel não reciclável.
Mas falo disso tudo para chegar no Saramago.
Saramago, o único escritor de língua portuguesa a vencer o Nobel. Saramago, com aquela cara albertodiniesca, enrugadinha de preocupação pelas crianças palestinas… Saramago está sempre por aí, a nos lembrar de sua fragilidade moral e intelectual. É possível separá-lo de seus livros? Essa é a experiência que me propus fazer aqui: ler seu último romance – A Viagem do Elefante – ao mesmo tempo em que me esquecia de sentir nojinho do autor.
E lá fui eu. Abri o livro.
Por muito incongruente que possa parecer a quem não ande ao tento da importância das alcovas, laicas ou irregulares, no bom funcionamento das administrações públicas, o primeiro passo da extraordinária viagem de um elefante à áustria que nos propusemos narrar foi dado nos reais aposentos da corte portuguesa, mais ou menos à hora de ir para a cama.
Aí marquei a página com meu dedo indicador e virei-me para minha mulher, que descansava no sofá: “Sabia que o Saramago chamou os israelenses de nazistas?”
Ela: “Todos os israelenses?”
Eu: “Imagino que sim. Não consta que tenha especificado quais.”
Ela: “Que coisa.”
Volto pro livro.
Registe-se já que não é obra de simples acaso terem sido aqui utilizadas estas imprecisas palavras, mais ou menos.
Eu: “Sabe o que ele disse outro dia?”
Ela: “O quê?”
Eu: “Que ele é um comunista hormonal.”
Ela: “O que isso quer dizer?”
Eu: “Que ele é uma besta.”
Volto pro livro, disposto a não interromper mais a leitura. Mas minha mulher me interrompe.
Ela: “Eu li outro dia no jornal ele falando sobre a crise financeira.”
Eu: “O que que ele falou?”
Ela: “Aspas: Marx nunca teve tanta razão quanto agora.”
Com um suspiro, fecho o livro. Com um movimento rápido, arremesso-o longe. Tenho que admitir: só poderei avaliar o que Saramago escreve daqui a uns 100, 150 anos. No mínimo.
Até lá, melhor manter-me em Shaw e Tolstoi. Ou Shakespeare, que, por sorte, não nos deixou uma única, uma mísera opiniãozinha sequer sobre qualquer coisa que seja. E não só por isso, é o maior de todos.
Ordem Livre
Texto meu no Ordem Livre sobre cinema e vatapá.
